6.14.2012

Grafites de Luz


É como um velho e gasto pincel. Já faz um par de dias que as cerdas dos meus dedos deslizam por esta tela, fazendo menção de desaparecer com todos os quadros que pintei sobre ela. Mas não fui valente o bastante para deitá-los ao lixo. Cedo ou tarde, ia acabar descobrindo que, se o fizesse, não seriam eles, mas eu, o que ali encontrariam caído. Deixei então que o coração tomasse conhecimento do que os meus dedos estavam fazendo mas ele foi abstêmio, achou por bem não tomar partido. Não o culpo. Talvez seja não sei, quem sabe, um pretexto para evitar qualquer tipo de responsabilidade. Mordi os lábios como se fosse arrancá-los e não pude impedir um sorriso. O sorriso mais triste do mundo. Mas ainda assim, era um sorriso. Coração-criança, ele sempre faz isso. Olho para o lado e é com desassossego que vejo o modo como, na paleta, as cores desbotaram, secaram, endureceram. Prometi que os pintaria no ateliê de minhas esperanças até que a tinta secasse e nossas cores não mais se misturassem. E consegui. Sou grata a eles por terem me feito companhia. Ah meus fantasmas de lembranças... Eu me sentia mesmo muito sozinha. Mas agora as imaculadas almas que aqui dentro estão emolduradas anseiam por paz de espírito. Sei disso tão bem quanto sei que, apenas quem os sonhou poderia fazer isto. Nada sairá destes quadros. E nem mesmo poderia. Eu devia saber disso. Hoje comprei grafites de luz e desenhei lençóis reluzentes de silêncio, parecem feitos de ouro líquido. No escuro, deviam ver como brilham. Senti que devia entregá-los a quem eles sempre pertenceram. À luz do esquecimento. E não estou fazendo isto porque quero, mas porque eles estão me pedindo. Pediram com jeito. Minha alma suspensa sobre o leito ondula com o vento que vem das janelas... É quase inverno. Preciso protegê-los do frio. Desta vez ele não vai entrar pela ponta dos pés como costuma fazer. Soube esta manhã que já está a caminho. Agora me despeço. É chegado o momento de cobri-los.