6.12.2012

O IMPACTO


No torneio de quem abriria a boca primeiro eu venci. A ele?  Não. A mim.
No três? falei.
Um, dois, três, já!
Vamos começar a correr gente! Mais rápido. Correr atrás das nossas esperanças, da nossa fé, dos sonhos perdidos. Cobre logo a tampa desse caixão e enterra logo essa tristeza. Deixa só o halo espectral da vela iluminar o nosso caminho!
Hoje a vida levantou cedo para me acordar.
Que horas são? Não consigo enxergar os ponteiros do meu relógio de cordas. Preciso renovar o meu exame de vista, mas primeiro, tenho que atear fogo no caderno condenado de Rimbaud Arthur ou, de tanto recitá-lo, pode ser que pátria dos espíritos, com a permissão de Verlaine Paul é claro, libere-o para um passeio e ele venha me buscar para arder junto à eles num inferno poético. Era para ser apenas uma temporada, mas considerando que  ele nunca voltou, pode-se chegar a conclusão de que o inferno deve ser mesmo um lugar muito bom. Não diga bobagens. Inferno é o mundo que ele deixou.  "Querido Satã, eu te conjuro  um olhar menos irritado."  É dele, o Rimbaud Arthur.
Quem bateria em minha porta a esta hora? Será que ele veio mesmo? Eu não estava falando sério.
Como se sente hoje?   interrogou o reflexo dentro do espelho.
Um trapo velho falei sem ressentimento.
Escova de dentes, acaso saberia me dizer por onde anda a pasta? Deve ter sido raptada por algum duende verde. Coisas muito estranhas têm acontecido nesta casa ultimamente.  Eu ia dizer outra coisa. Mas sempre que escovo os dentes tenho a sensação de que as palavras entram em órbita no céu da minha boca. Minha nossa...Faz dias que já não sei se anoitece ou amanhece atrás destas vidraças. Que claridade é esta...É impossível ficar nostálgica com o sol apontando esta metralhadora de luz para a minha cara.
Abri a porta.
– Rimbaud Arthur eu estou pronta.
Lídia? Lídia Martins?
De corpo e alma improvisei. O corpo deve estar por aqui, em algum lugar  completei.
Entrega para a senhora.
Senhora!? concordei, cautelosa.
Desviei os olhos para a caixa com aquele brilho habitual de pérola falsa,  tentando imaginar o que teria levado aquele agente dos correios a fazer uma constatação tão exagerada.
Posso estar enganado, mas pela sua expressão inalterável, parece que está recebendo algo que não era esperado  disse o carteiro como se tivesse lendo meus pensamentos. Desculpe por tê-la chamado de Senhora  remendou.
Tenho 32, se é o que quer saber  confessei.
Nossa. Mas você parece bem conservada.
– Que animador, não acha? Bem, meu cinzeiro está cheio de cigarros, o chão está repleto de pêlos de gato e a pia está entornando litros de pratos então, acaso teria mais algum diagnóstico precipitado ou já posso receber alta para limpá-los?! cortei fechando a porta para em seguida recompor a minha pose de dama enlutada.
Impiedosamente, o correio era o remetente. Dei incansáveis voltas pela casa antes que meus dedos fizessem menção de abrir aquela carta. Mas a curiosidade levou o Oscar de melhor atriz coadjuvante e tive que violar o lacre para anunciar o nome da homenageada. Esperei pacientemente até que o tremor das mãos se desfizesse. Abri a caixa com certo esmero. Em seguida, desembrulhei o papel marche e desfiz o laço de fita que a envolvia. Dentro, havia um familiar baú de mosaico. Soprei a poeira que o cobria e contemplei os pontos reluzentes de purpurina que se espalhavam sobre a brisa. O brilho das tesselas havia se apagado. A tampa esboçava os contornos esqueléticos do que parecia um carro velho. Em seu interior, encontrei um pequeno bilhete atrelado a uma miniatura de semáforo. Os faróis tinham formato de coração e as luzes de sinalização estavam dispostas nas cores vermelho, amarelo e verde, nesta ordem. Notei que o sinal vermelho estava aceso. O bilhete, datado em 12 de junho de 2011, em delicada caligrafia, dizia: “ Para ser mais explícito, há sinais que ficam fechados por instantes infinitos...”
Espere. Mas como é possível? Fui eu quem escreveu isto  recordei de repente, sem tirar os olhos do envelope.  Alguém havia assinalado no verso: carta devolvida por mudança de endereço. Não entendi o motivo pelo qual o embrulho, apenas um ano depois, me fora devolvido pelos correios. Fixei os olhos em algum ponto fixo, esperando que tivessem poderosas razões para que aquela encomenda não chegasse ao seu destino. Recobrei a memória e, lentamente, senti que a lava de um antigo vulcão começava a arrefecer em meu coração. Os olhos expeliam faíscas de lágrimas que pipocavam por toda a minha cara e não pararam até que conseguissem incendiá-la. Que brilhos são estes? Eles se parecem com flashes. De fantasias ou realidades?! Meus olhos ardem.
Recordo agora.
Estrincheirado sobre a escrivaninha, um calendário. Dois mil e onze é o ano. Junho. Doze. Dia dos Namorados. Está chovendo. No alto dos telhados, a pele encrustada de fungos das caixas d'água marca a passagem silenciosa do tempo. Melhor eu preparar um expresso e abrir o jornal para tomar nota dos acontecimentos. Vejamos que tipo de efeméride está sendo comemorada na primeira página. “Clarão visto no último sábado foi atribuído à queda de um meteorito.” Magnífico!  sentenciei. É exatamente assim que gostaria de entrar na vida de alguém. Confesso que comecei mordendo os lábios como se temesse completar aquele parágrafo. Às vezes o coração fala mais alto, por mais que as batidas surdas do orgulho tentem abafá-lo.  Desacertamos no tempo. Sei disso. Mas não posso me impedir de procurar pelo teu espírito, que, aliás, me é irrecusavelmente íntimo. Por minha vontade, você sabe, nunca teríamos nos dado este intervalo. A propósito, faz quantos dias que estamos separados ( 04 !? ). Vou dar a ele este chaveiro que comprei no mês passado. É uma miniatura de semáforo. Os faróis coloridos têm forma de coração, o sinal vermelho está aceso, o que, em tese, deve mapear a sua exata posição neste relacionamento de única mão. Mas e no cartão? O que escrevo? Eu queria dizer a você que, que, que droga! Não, não é isto o que quero lhe dizer... O que estou tentando lhe dizer é que. Para ser mais explícito, há sinais que ficam fechados por instantes infinitos... É isso.
Entrei no carro e, em seguida, liguei a chave no contato. Estou tentando atravessar um cruzamento, mas o tráfego de emoções está bastante intenso.
Ali está o correio.
Senhor, uma caixa de presente, por favor.
As caixas de presente acabaram   informou.
Mas hoje é o seu dia de sorte falou uma voz suave à minha frente.
Meus olhos se iluminaram de repente.
Este chaveiro em forma de semáforo com faróis de coração é o presente que dará a ele no Dia dos Namorados? inquiriu os olhos aliciadores daquela misteriosa figura de antiquário, apontando para o sinal fechado.
 É sim. Nós dois estamos... Importa-se se eu não disser nada? devolvi com a voz alquebrada.
 Isto é pra vocês. Coloque o presente neste mosaico  ordenou.
E este desenho na tampa, o que é?   perguntei.
O que lhe parece? confrontou em um tom pacificador.
Não sei bem, um carro?!  sugeri.
Talvez respondeu.
Não sei o que escreveu neste bilhete, mas espero que tenha usado as linhas para costurar feridas ao invés de reabri-las.
Um dia só e tão acidental sorri agradecendo a gentileza oferecida.
Observe bem este mosaico. A tampa foi projetada com fragmentos coloridos de vidro e a junção dos cacos forma um  vitral.  Você acertou. A gravura é de um carro que, à primeira vista parece amassado. Mas a medida que se olha, veja o modo como ele muda de propósito   aclarou.
Um delírio barroco apreciei sem entender muito bem.
A estrada de pedras coloridas que está vendo logo abaixo é metáfora da vida. Estar apaixonado é como dirigir um carro completamente desgovernado. É você quem deve dominá-lo, não o contrário. Se não o fizer, o acidente será inevitável. No seu caso, com o tempo, vão perceber que foi apenas o orgulho, não o amor, o que encontrarão carbonizados  finalizou a fada bordejando uma espécie de trilha que serpenteava até a porta de saída.
Ei, espere, aonde vai? Qual é o seu nome?  interceptei.
As palavras se movem. É como se voassem. Tenha cuidado com o que é soprado   encerrou.
Acompanhei aquela fada esvoaçante até que o seu chapéu de fantasia se confundisse com a neblina. Segundos depois, a miragem de sopro e sonho desapareceu, deixando apenas uma faixa de luz suspensa entre a terra e o céu. Tive a quase certeza de que ela ou eu não batia muito bem da cabeça. E, à tarde, vou pintar um vestido de luz. Quero anoitecer cinderelada... Aquelas foram as últimas palavras que recitei em voz alta.
Abri os olhos e surpreendi uma silhueta que me olhava fixamente no extremo da janela. Vestia branco e trazia nos olhos um sonho. Segui as pegadas fosforescentes que se detinham no meio do corredor e aproximei-me lentamente de seu corpo inerte. Só reparei naquilo alguns segundos mais tarde, quando percebi que as sombras que ondulavam nas paredes eram de suas asas incipientes. Sem saber ainda o que falar, fazer ou sentir, voltei a mim. Ela empurrou a porta com suavidade e pediu com gentileza para sentar-se à minha direita.
O frio que faz aqui dentro está congelando até pensamentos, café?  ofereceu.
Esbocei um sorriso emoldurado alento e fiz que sim em silêncio.
Você vai sair dessa  sacramentou.
Logo depois, a criatura alada levantou voo e começou a cirandar pelo ar, sem qualquer vestígio de pressa.  Nos braços, a fada carregava centenas de almas cheias de fraturas expostas. Aquela foi a última vez que a vi perto de mim.
E se eu desse um grito? Escutariam?! Duvido. Distorções amplificadas, batidas enfáticas, riffs prolongados de guitarra. Cifrando Manowar. Quem toca, seus males invoca. Tum, tum, tum.  Tumtum tumtum tumtum. Tum, tum, tum... Olhe só para aquele monitor gelado. As batidas do meu coração estão heavy metal demais. Não, elas estavam. Agora melhoraram.
No alto da parede havia um relógio de cordas. Os ponteiros se congelaram às quatro horas. Supus que fossem da madrugada. Saltei os olhos para o lado tentando inspecionar aquela maré de tubos, agulhas e rostos desfigurados. Comecei a juntar as peças soltas daquele quebra-cabeça de mosaico. O bilhete, o sinal fechado, o carro. Então era isso. O impacto. Eu devia tê-la escutado. Desde aquela noite tenho a sensação de ter dormido e nunca mais acordado.
E então maratonista, acha que o dia está muito frio para uma corrida? escutei.
No três? animei.
Mas você veio, lírio afanado... Em seus lábios, o cigarro, assim como as minhas esperanças de sair daquele coma de silêncio interminável, haviam se apagado.
Ausência de pulso, desfibriladores, compressões torácicas, desfiles de metais pontiagudos, homens de branco se movendo. E daqui, do fundo de minha inconsciência, um coração que, insuportavelmente continua batendo.


Lídia Martins

4 comentários:

Blog do MotaMota disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vanessa Carvalho disse...

Adoro esse teu delicado palavreado.

Flores e
até.

Blog do MotaMota disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
elly disse...

Oi amore,
vim desejar um ótimo dia
e te convidar p/ 4 sorteios lá no blog
será uma honra vc por lá!
boa sorte
te espero =^.^=
www.coisasdeladdy.com

bjinhos♥