6.04.2012

Ladrão de Recordações


Uma pena delicada flutuava no ar. Acompanhei-a com olhos até que conseguisse pousar, rendida, de tanta fadiga. Começava a amanhecer e a luz da alvorada se espalhava sobre o céu como um arco luminoso envolto numa bruma adelgaçada, ossuda, ocre, silenciosa.
Uma pequena salamandra dourada se rastejava em direção a uma fonte rútila, de bronze. O dia estava ardente de febre e o anfíbio de olhar coruscante parecia querer refrescar-se. Um bando de aves necrófagas fazia autópsia das vísceras ainda fumegantes de um cervo morto a golpes de pólvora.
Baixei os olhos tentando seguir uma trilha de formigas que sem esconder a expressão intumescida, colhiam partículas de resina das fissuras abertas na casca de um tronco caduco de mirra. Dei uma última olhada no céu. A ordem do dia: navegar por um oceano de cinzas como uma balsa hostil, na vasta reflexão da neblina que se adentrava as retinas.
Mendes Roberta disse-me uma vez que há coisas que definem o rumo pelo seu desacontecimento. Tentando levantar o véu do mistério sobre o seu rosto, gastei quase uma tarde procurando as chaves que destrancassem o enigma escondido no sótão daquela frase. Nunca um parágrafo foi tão pequeno e tão autêntico. Desacontecer. Eu poderia conjugá-lo no pretérito-mais-que-perfeito. Tempo verbal em que vivemos.
Estou escrevendo uma carta. De mil páginas. Há dias que pego nesta caneta, mas a tinta está seca. Receio não poder terminá-la. Atiram rosas inesperadas em minhas vidraças. Esclareço então que vim do espinho que, comovido, me abraça. E parto cheia de cicatrizes na alma. Era assim que começava. As piores prisões são as voluntárias.
Trazendo nos olhos o mundo, as árvores da minha rua estão vestidas em estonteantes corseletes de musgo. Os pássaros estão construindo ninhos com fiapos de luz. O aviso é sem palavras. Do escuro, colho a clareza que me escapa.
O sol amadurecerá. Mas de modo lento. Feito laranja dourada a rolar pelos pés rachados dos pomares secos. Os sinos das campânulas vão soar. Mas depois do inverno. Feito clarins de vento, avisando as borboletas da hora de voltar para os canteiros. Chega de pescar poesias em lagos de tinta. Os versos já não mordem a isca.
Tornou a ventar nos varais. Os cachos das palmeiras se inflam como velas na luz decrépita que serpenteia entre os campos engessados de areia. Por um breve instante, assaltou-me a ilusão de que tivesse ido para ali, olhe, ali, brincando de pique-esconde naquela varanda cercada de arames, com o mesmo sorriso distante de sempre - como quando o emoldurei no alto daquela parede. Teus olhos cor-de-caramelo-queimado se derretiam sobre o entardecer açucarado.
Hoje acordei com a lembrança de teus olhos imóveis, olhos que ainda há pouco vi cintilarem. Investi contra aquela lápide tantas vezes, arranquei o número, a foto, o nome, e não parei até sentir os punhos sangrarem. Tenho arranhões enormes e ardidos no lado esquerdo do peito. Talvez seja de tanto exumar sentimentos. Recolhendo ossos de sonhos mortos.
Ninguém sabe, mas quando o matei a terra me fugiu sob os pés. Não existe chão quando se enterra alguém no abismo do coração.
 


Lídia Martins
                                                                                                                                         

13 comentários:

Rogério Pereira disse...

Não, não existe chão.

Mas só os corações grandes têm abismos...

Patrícia disse...

Profundo... adoro.
Beijo

Anônimo disse...

Não sei como nem porque, mas só tu conhece o equilíbrio da minha alegria triste.Tu sopras o movimento dos meus risos e pesares, tu me dói e me põe cheio de um misterioso contentamento.
Não sei dizer, mas parece-me que quando tu diz versos assim,descubro uma necessidade de afetuosidade, que eu acreditava extinta.

Adorei ler, ler e ler ...

Alvaro Vianna disse...

Eu vim e me extasiei, como sempre

Beijo

Fabi Anselmo disse...

É delirante! É cortante! É reumanizante! É adorável te ler...!

Anônimo disse...

Palavras tristes... espero que não sejam uma forma de expressar o que sente. Sejas feliz. Sempre.

Rafaelle Melo. disse...

Pipa.
O que dizer-te?

Queria ser seca contigo para que tentasses entender que sangro ao te ver doer assim. Mas é vão.
Só sei bater com flores, e sem espinhos, porque de cicatrizes a vida já se encarrega de deixar marcada a nossa humanidade.

Eu só vim para te ler e não posso sair daqui antes de abraçar-te forte sussurando-te que vai passar... porque tudo passa.
Comigo muita coisa se passou (e tu sabes bem), mas a selvageria com a qual corro para alegria é que me mantem firme em não olhar mais pra trás.
Porque pessoas como nós, Pipa, não recordam, se flagelam.

Eu só quero que saibas que estou aqui, logo ali na esquina que saiu do teu campo de visão cismada. Você sabe onde me achar, e eu não sairei de lá.

Com essa promessa e carinho,
te abraço, me abraças,
silenciamos.

nayanaferreira disse...

Isso dói tanto, mas é tão lindo ao mesmo tempo, entende né? =**

Monique disse...

Essa sua última frase cravou no meu peito. Quanta coisa linda, de verdade.

Beijo!

Cronollogias disse...

Te mando tinta, mesmo que seja invisível, Que você escreva é urgente é muito mais que isso; é preciso.

Saudações!

Gabriel Revlon disse...

Você consegue deixar meu coração apertado com suas palavras. Você nasceu pra isso mesmo, não tem jeito. Sabe quando o obvio faz sentido ? É aí que muitas vezes enxergo um probleminha comum, o do olhar veloz que passa e leva as cores de cima da existência, do ato, da palavra... Você disseca o momento e ainda coloca suas vísceras nele... Acho que não preciso ser repetitivo nos elogios, pois aí estão menos do que eu realmente queria te falar.

Aline Teles disse...

Encantada com o seu texto. De repente estive na beira do abismo que habita em mim.
Adorei o seu blog. Seguindo.
Beijinhos.

Velho Santiago disse...

Pipa, que aperto.. Como um abraço qualquer - que me esquentaria em dias frios - tem me doído tão profundamente! Passei algumas primaveras me preparando para os invernos, mas não me ensinaram o quão rigorosos são os do espírito. E meu espírito tem frio. E minha alma não aprendeu a quebrar o gelo. Acho que essa que é minha grande lição. Mas Pipa, que didática a da vida! Todos educadores certamente a condenariam. Mas Pipa, creio que também há os acertos, e todos os educadores louvariam. Mas Pipa... mas Pipa? Dói, menina, dor doída de fome. Dói, menina, dor de quem passa sede. Tentei plantar, recolher água da chuva. Tentei, Pipa. As lições entregues provam minha conduta. Hoje preciso lamentar e venho aqui porque sua muleta me pode servir. Vim pedir emprestada. Pipa, mas muleta só acho que não dá. Não preciso de perna postiça, preciso de coração postiço, pra tirar e lavar quando ficar sujo. Pra costurar e ficar novinho quando ele descosturar. Pra trocar a pilha quando ficar fraco... Pra comprar outro quando esse não me querer bater dentro do peito mais. Pipa, sempre fui sapo, já falamos em outros dias. E a falta em ser príncipe de alguém me mostra que os príncipes - esses que magoam vocês, princesas - são os preferidos, mas entendo que há princesas que aprendem a sonhar com sapos... Velho, rirei disso tudo. Menino, Pipa do céu, não tinha a menor ideia e consciência de que isso iria acontecer comigo. Mas, moço, menina voadora, sinto ter perdido a vida. Apaga o sorriso da criança, desdenho do olhar indiferente do velho. Nessas horas, como de costume, reúno os três. Só pra não ficar sozinho. E um abraço seu pode não deixar cair meus cacos.