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5.09.2012

À Ventura



Pode-se saber que tipo de sorte vai chegar, quando seus dedos das mãos já não forem suficientes para contabilizar os anos de azar.
Muitos anos de sede, fome e frio se passariam antes que, fazendo uso de mais uma de suas calculadas pretensões, o destino me colocasse frente a frente com aquele bandido recém-fugido de uma fotografia policial de arquivo.
Este homem viria para mim de um inferno longínquo, preso entre uma lua celestial e um céu de chumbo e, falaria em um idioma tão desconhecido que, não importa o número de vezes que tentasse pronunciar, seria incapaz de reproduzi-lo. Para ser um Diabo, faltou apenas o chifre, o cetro e o rabo. Talvez eu o tivesse arrancado da população carcerária de Fox River, enquanto assistia ao seriado de Prison Break.
Coloquei o lápis em riste e fiz minha pose característica de esfinge egípcia. Quis catalogá-lo. Mas aquele homem era grande demais para caber num pequeno relato. Eu não contaria a ninguém mais, a não ser a você, meu querido diário. Vou falar baixinho, porque receio que as paredes destas folhas tenham ouvidos: eu sempre me senti atraída pelos mafiosos de Chicago, sobretudo pela ideia de recuperá-los.
Para fazer jus a esta existência de jóquei, voltei às minhas longas cavalgadas.  Agora, já não passava adiante me perguntando pelo destino. Tudo o que tinha que fazer era montar a criatura alada, estalar o chicote, bater as esporas e galopar sem arreios pela estrada afora.
Eu não perdi a memória da pele. Saquearam-na. Façam suas apostas, porque vou dar tudo o que tenho para tê-la de volta. O outono ainda surpreende, mas desconfio que, quando o inverno chegar, teremos um verão muito quente. 
Com uma ternura quase infinita,  lágrimas de alegria escorregavam pelas retinas ao ver as agulhas do destino usarem todas as suas linhas para costurar velhas feridas. Era noite cerrada, explicava, mas a lua, antes oculta, incandescia atrás das montanhas, iluminando nossas almas. Olhei o céu e o vi dependurado apenas em um fio de brisa. Ele, sereno, boceja. Depois sorri submisso por ter sido surpreendido com o céu-da-boca cheio de estrelas.
Quando pensei que o destino me tivesse desenganado: cervejas sem álcool, vidros do carro embaçados e múltiplos orgasmos. Fazia tanto tempo que não me dançavas, Desejo. Que, quando nossos corpos se reencontraram, eu nem mesmo soube o que fazer com aquele momento.



Lídia Martins

7 comentários:

Rogério Pereira disse...

Sei porque não soubeste o que fazer nesse momento... deste tudo para ter a memória de volta, inclusive a tua própria razão... sem ela a memória de pouco te serve. Sobra-te o corpo...

z i r i s disse...

Por acaso prima, contei-lhe sobre minha nova saga?

Pois bem, tenho feito isso, de vestir uma máscara de Zorro e sair pelas noites em longo negro, à procura de um bandido que deseje sinceramente ser preso.

Chego a desembainhar a espada algumas vezes e apontar a ponta sutil contra o pescoço suspeito. Mas o que tenho ouvido neste crucial momento? - EU SOU INOCENTE! - Por mil cavalos, a Ziris aqui tá com jeito de quem quer mais um inocente preso
à barra da saia, prima?

'Eu não perdi a memória da pele. Saquearam-na.' De fato.

Penduro as botas?

Ou esta vida de Elena & Esperanza ainda me reservará um belo Tango Espanhol?

Fazia tanto tempo que o desejo não a dançavas prima, que considero mesmo que tenha sabido exatamente o que fazer com isto!


Um beijo meu.


Z.

Alvaro Vianna disse...

Como diria a Pipa, até esse beato entediado aqui tem arrepios com esse texto. Quisera ter esse seu poder mágico de alinhavar palavras. As que me vêm à mente, perfume, sinuosidade, maciez, quentura,umidade, frêmito, choro. E uma frase: prazer imenso de viver, de novo.
Quisera poder ver aquela lua incandescente através das letras que desenharia nos vidros embaçados: LÍDIA, EU TE AMO.

Cronollogias disse...

A pele tem memória própria, ela sente e faz tudo sem saber ...
Gostei da síntese,é tão mais fácil compreender o fim, a sorte e o destino.

Saudações.

Anônimo disse...

Que texto! Ele reflete exatamente o meu momento. Posso me valer de Caio F para comentá-lo?



Na terra do coração passei o dia pensando – coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação – repetido, invertido – ação, cor – sem sentido – couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:

Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.

Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.

Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.

Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.

Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.

Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.

Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.

Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.

Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.

Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.

Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: “I’m too pure for you or anyone”. Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.

Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.

Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.

Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.

Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.

Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.

Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos – ai de mim! ai, ai de mim!

Anônimo disse...

continuação...

Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.

Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso – vasto, vivo: meu coração teu."

Caio Fernando Abreu


Abraços moça alada!

Estou nas alturas com o seu blog!


Daniela Freitas

Roberta Mendes disse...

De tanto viver em contato com as costuras da alma, o corpo, por vezes, esquece-se de sua dimensão transitiva. Desejo é fome. Do outro, sim. Mas, igualmente, de si mesmo em face de.