5.19.2012

Em maio, as chuvas voltaram



Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelos pântanos desmesurados, pelos rios tormentosos, pelos vales bizarros, nem pelos desfiladeiros submersos dos penhascos.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelos sóis que costumavam se por atrás das montanhas, pelos sota-ventos, pelo concerto dos pombos-correio, nem pelos flocos dourados de trigo que descaem ao sabor do tempo.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelas noites candenciadas, pela música tocada dentro dos carros, pelo amor recordado, nem pelo telefonema não dado.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelos michês das madrugadas, pelo estardalhaço das casas noturnas, pelo choro contido dos amores não correspondidos, nem pelas motocicletas que riscam as ruas de roucos gritos.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelos croissant's de massa folhada, pelos vinhos tintos, pelos fondues de queijo-prato, nem pelas antigas risadas que enchiam os cômodos vazios da casa.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelas conversas ao redor da mesa, pelos amigos reencontrados, pelos aniversários comemorados, nem pelo hálito de menta dos eucaliptos que costumavam perfumar-nos com fragâncias frescas.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelos et's no quintal, pelas múmias que se mexiam nas tumbas, pelos tapetes voadores, nem pelos gênios das lâmpadas mágicas que libertamos da prisão com apenas um esfregão.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelas caminhadas na praia, pelos passeios de barco, pelo sussuro das conchas, pelas fogueiras na areia, nem pelo lume que pressentia a chegada diurna da lua.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelos casais de namorados passeando de mãos dadas na praça, pelas crianças que jogavam bola na tarde ensolarada, pelo cego que tentatava atravessar a rua movimentada, nem pela cadela que sorria submissa para o dono da banca de cachorro-quente da esquina.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelos desenhos nas nuvens, pelos passos apressados para não chegar atrasada ao trabalho, pelos ângulos escassos, nem pelos sonhos que se perderam antes mesmo que fossem realizados.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelos banhos quentes no chuveiro, pelos moletons de algodão, pelas noites amanhecidas no sofá culpando um café expresso, nem pelos comprimidos de codeína que colocava debaixo da língua para forçar a vinda de um sono que não chegaria.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelos velhos centenários que costumavam dar de comer aos pássaros,  pelas pessoas que paravam para observá-los, pelas sombras das amendoeiras, nem pelos cigarros de palha que tragavam apenas para saborear a fumaça de lembranças passadas.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelos livros de José Luís Peixoto, pelas longas cartas que nunca serão enviadas, pelos filmes dark romance de Tim Burton, nem pelos discos que arranhavam canções de tempos outros à luz de bronze velho dos candelabros.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelos longos silêncios, pelos mesmos medos, pelas despedidas, pelas culpas, pelos arrendimentos, nem pela voz que não demos aos pensamentos.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelos beijos demorados, pelos intermináveis abraços, pelos corpos entrelaçados, nem pelo desejo ardente que explodia pelos poros da pele.
Em maio, as chuvas voltaram. Desta vez não foram aplacadas pelas calhas dos telhados, pelas chamas das lareiras, pelas lembranças esparramadas no tapete da sala, nem pelas colchas de retalho que aqueciam as solitárias camas dos quartos.
Ainda que não me tivesse chamado, em maio, eu teria voltado. E mesmo que provocasse uma enchente em tua rua, fizesse teu corpo ondular pelas calçadas, deixasse tua alma encharcada, trêmula, enlameada; apenas para que visse meu olhar pingando no portão de tua casa, eu ainda choveria atrás das vidraças.



Lídia Martins

13 comentários:

Velho Santiago disse...

Pra ti, menina:

http://www.velhosantiago.blogspot.com.br

Encho os olhos toda vez que te vejo.
Vai passar.

Roberta Mendes disse...

Por aqui, perigosamente, chovem maios também. Junho, que era uma possibilidade, fez-se cianótico, engole mais da substância de maio do que devia, afoga-se de passado, afoga-se do que o precede.

Alvaro Vianna disse...

O parágrafo final é um assombro de beleza doída. Fecha douradamente um texto já muito brilhante, mesmo que descrevendo o fosco dos dias chuvosos.

Beijo

Karine Tavares disse...

Teu blog é lindo, parabéns!

Vem conhecer o meu:
leiakarine.blogspot.com

Karine Tavares disse...

Teu blog é lindo, parabéns!

Vem conhecer o meu:
leiakarine.blogspot.com

Anônimo disse...

desejo toda a felicidade possível para ti.

Blog do MotaMota disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafaelle Melo. disse...

Que bom que eu vim, cara hermana. Que bom que pude ler essa tua dor, como quem assiste um filme, que tendo tristeza aponta para alegria.

Eu não sei o que dizer-te, porque sofri um daqueles emudecimentos que me causas. Eu divido contigo isso que tenho: uma boca calada, um peito apertado e um olhar compartilhado. Eu te olho brilhando, ainda que por trás das vidraças delimitadoras deste maio.

Te abraço na verdade que tu me disseste tantas vezes: no coração de quem ama chove, mas depois estia devagar.

P.S.:Precisando de um pouco de polén, aqui sempre tem pra você!

Corpo-Alma disse...

Ei poeta adorei seu espaço, seus textos tem vida e isso é muito bom. Abraços!

Maay Reeis disse...

Olá..adorei o seu post,a sua forma de escrever..
Parabéns.
Se quiser da uma passadinha no meu blog,entre e fique a vontade:
http://comamoremaiscaro.blogspot.com.br/

grande beijo.sz

Leo disse...

Em maio, foi tão bonito que me chovi, e no fim de tanta chuva há de nascer mil flores para cada pingo de chuva.

Beijos degradês!

Blog do MotaMota disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gabriel Revlon disse...

Lindíssimo :)