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2.29.2012

Os Passageiros


No céu de quase março, comecei a ver teus passos se incendiarem no horizonte. Como um truque de mágica que se tira da cartola da memória. Levantei o olhar e avistei um flash cor-de-opala se erguer contra um céu de nuvens espessas, formando um festival de faíscas elétricas que explodiam reluzentes, de uma ponta a outra desta janela. Ainda era dia, quando a última fagulha de luz se extinguiu sobre as minhas retinas. E não soprei as cinzas. Fechei os olhos e, serenamente, deixei que os restos de sua alma se espalhassem em minha pele, para sempre.
Às vezes ainda volto àquele antigo parque à procura de um menino que brincava comigo. Assombrada pelas lembranças daquele verão, me sento um momento naquele balanço e o espero para assistirmos juntos o pôr-do-sol. Em algumas tardes, o sol flutua sereno sob teto azul e sem fundo do firmamento, como um balão de gás neon e, sorrindo, seguro tua mão e fantasio que subimos nele e partimos juntos para um lugar desconhecido. Às vezes o balão fica suspenso na abóboda do céu e grudamos os ouvidos na janela de algum paraíso perdido, tentando escutar o cochicho dos anjos sobre o nosso destino.
Como se quisesse memorizá-lo entre os dedos, escrevo. Sempre acreditei que algum dia você voltaria para esta escrivaninha, caso eu encontrasse um modo de fazê-lo viver para sempre entre estes versos. Se o fizesse, constataria que, apesar de tudo o que aconteceu, ainda guardo este relicário cravejado de brilhantes que você me deu. Dentro dele, têm uma foto nossa deitados sobre a grama do parque vendo as folhas se agitarem em redemoinhos entre os troncos das árvores. E digo a mim mesma: talvez os ventos tenham voltado agora, para nos soprarem.
Quanto à relíquia de diamantes, você sabe, é no cofre do coração que depositamos as coisas que nos são preciosas, ou, se preferir, que acreditamos ser importantes. Não é sempre, mas quando minhas pernas se aventuram a balançar sobre o mundo, eu ainda posso escutar os estalos das correntes se contorcerem num silêncio cheio de gritos e me pergunto porque escolhemos montar naquele carrossel de choro, quando devia haver sorriso. E quase vejo teus braços me acenarem ao longe. E apaziguo: Ei, ei, ei, eu estou aqui, aqui, aqui! Mas tua imagem some e insisto: Tem alguém aí??? Minha voz ressoa em uma sucessão de ecos distintos com a caridade de quem quer recompensar o vazio. Ninguém responde.
Eu sei que você não vai acreditar nisso, mas descobriram porque o Mestre Jesus está demorando tanto tempo. Disseram na rodoviária que ele está vindo em um ônibus da Nacional Expresso. Estás rindo… Achou graça. Eu sei que ainda te faço sorrir, embora você quase nunca tenha conseguido admitir. Mas não costumo dar risadas quando sou eu a piada. Pare já com estes risos, menino! Não, continue, faz tempo, faz muito tempo que não o vejo sorrir desse jeito. Eu sei que isso parece impossível, mas, arriscaria dizer que você fica até mais bonito quando mostra para a vida estas gengivas curvilíneas. E se quer mesmo saber o que acho, bem, acho que devia emoldurar este sorriso. Ou, considerando o seu temperamento variável, talvez devesse parafusá-lo com uma porca de aço inoxidável, assim, ele não correria o risco de ficar enferrujado.
Observei o modo como vento meditava de mãos dadas com a cortina de contas e aproveitei o ensejo para interrompê-lo na altura do quarto mistério quando terminava de recitar a Jaculatória. – Ei! Isto é um cortinado acrílico não um terço bíblico! – falei. Mas minha advertência foi devolvida de volta, como se tivesse batido na porta de orelhas erradas. – Deus, então era aqui que te escondias? – confrontei. – “Não temas este corujão escuro. Apenas escute o pio. É mudo, mas significativo ” – imaginei. Ficamos rindo. Que senso de humor mais incrível tem o destino.
Ainda estava concentrada no propósito eclesiástico daquela lufada de vento quando deram voz de prisão aos meus pensamentos. – “Lídia! Abandone esta escrivaninha!” – relampejou a voz de minha mãe às minhas costas enquanto despejava sobre a minha cabeça uma chuva de contas vencidas. –“É para aquela maldição gótica que você escreve ainda?” – escutei. – Mãe, por favor, hoje não – supliquei. –Tentei notificar as retinas. Dos olhos, pingou o horror de estar viva. O eco tamborilante deste teclado é minha melodia favorita. Se ao menos ela tivesse me pedido para que eu baixasse o volume, mas disse: – “Desliga!” Em minha vida, as emoções geralmente aparecem na forma de gigantes rodas. Sobem. Descem. Param. Mas sempre retomam a trajetória. Arrastei nossas lembranças para o canto da cama e as escondi debaixo daqueles lençóis brancos amarrados com fitas. Deixei-as ali um bom tempo, presumindo que, longe daquela afiada língua, elas estivessem protegidas. Não é preciso que se preocupe. Não é com você. É que, às vezes ela fica um pouco brava com fato de eu não ter lavado as louças que sujei na noite anterior, ainda.
Tentei conter os projéteis de acusações que minha mãe metralhava em minha cara e, antes que eu fosse submetida a mais um interrogatório de perguntas ininterruptas, acabei conseguindo me livrar de algumas balas ao relembrá-la do compromisso que havia feito comigo de buscarmos o resultado de uma Eletroencefalografia que me deixou sem defesa ao acusar-me de apresentar sintomas de “anormalidade paroxística temporal esquerda.” Uma nuvem negra de interrogação se formou no ar como se quisesse e pudesse me mapear. Comecei a resumir o que pensava ter aprendido ou desaprendido a respeito de mim mesma. a) Beata; b) Entediada; c) Concurseira; d) E agora com um foco de anomalia na cabeça.
Horas antes, enquanto me preparava para buscar o meu atestado de insanidade passageira, abri a carteira. Dentro dela, apenas uma moeda chinesa do século VII (a.C.), gravada com ideogramas que entre outras coisas, prometia atrair bons fluídos. Guardei-a, muito embora estas receitas cabalísticas nunca tenham surtido efeito comigo. Para minha surpresa, descobri no cofre que guardava a moeda de cobre a miniatura de um ser inanimado, para ser mais exato, kaeru – uma espécie de sapo da sorte que encontrei ao acaso em uma correspondência remetida pelo Instituto de Parapsicologia de algum país que não recordo o nome. Japão – eu acho. A correspondência estava endereçada ao antigo proprietário, mas não foi possível localizá-lo. Àquela altura do campeonato de quem silenciaria primeiro, ele já havia deixado o mundo cinzento dos vivos para se juntar ao colorido mundo dos mortos. Como ele já tinha feito a passagem de acesso à claridade, preferi acreditar que seu espírito não fosse se importar caso eu decidisse violar o lacre. Abri o envelope lacrado, não sem antes prometer ao defunto que lhe contaria pessoalmente tudo o que li na carta quando chegasse do outro lado. Como não havia um modo de entregá-lo ao dono de direito, temi que o talismã sagrado ficasse órfão e resolvi deixá-lo sob a responsabilidade do dono de fato, em outras palavras, fiquei com o sapo. Contam os egípcios que, se tivermos um amuleto de sapo na carteira, infortúnios de ordem econômica não serão um problema. “Todo dinheiro que dela sai, nela novamente entra.” Talvez isso explique o motivo pelo qual esta moeda chinesa tenha feito minha carteira de inquilina. Lenda. Mas pensava comigo mesma que qualquer coisa que pudesse me manter afastada daquela epidemia de energias negativas merecia uma tentativa.
Por motivos que não considero oportuno esclarecer, já que são quase sempre egoísticos, minha mãe acabou por não acompanhar-me até o laboratório conforme havia prometido. Calcei meu All"Star conversível, dirigi meus passos solitários até uma cabine suspensa pelo que parecia um teto metálico e entrei em um ônibus que, só para completar o cenário, estava lotado. Quando os pneus começaram a escalpelar o couro do asfalto me peguei pensando…
Quando crianças, lembro que tínhamos um sonho. Queríamos ser loucos, em outras palavras, queríamos ser espontâneos. Não raras vezes, sob o crepúsculo gradiente que lustrava as copas das árvores, estendíamos os braços para que nossas aves de rapina pousassem e, com sorte, nos carregasse para bem longe. Ficávamos imaginando como seria a vida se pudesse ser vista por outras perspectivas. Mas fomos arrebatados pelas mãos de um ancião solene chamado tempo. E, quando ele empunhou seu bastão, antes mesmo que ele riscasse o chão, explodiu a faísca da forja sagrada. Contudo, sempre achei que não era para a treva, era para a luz que ele nos convocava. Mas não estou certa disso agora.
Lembro que, depois que peguei o exame, no caminho de volta para casa, calculadamente, peguei o mesmo ônibus que me havia saqueado os passos no caminho de ida. Para minha curiosidade, o ônibus parou em frente aquele mesmo parque que havia se desenhado em minha memória naquele dia. Estava tudo tão diferente, quase não o reconheci e não acho que você também o reconheceria. Naquele mesmo instante, peguei o telefone, mas não disquei seu número, disquei seu nome. Queria dizer alguma coisa. Mas as palavras faleceram em meus lábios. O melhor era deixar que descansassem em paz no céu de minha boca.
Tome outro ônibus se não quiser descer sempre no mesmo ponto – me dizem. E fiquei olhando pelas frestas da janela. As pessoas partiam montadas naquelas carruagens invisíveis em busca, talvez, quem sabe, de algum destino – não necessariamente fixo. Notei que, não era maioria, mas muitas delas tinham pressa de ir ao encontro do que seriam. Ou, em casos específicos, do que nunca seriam. E, à medida que a poeira ia subindo, subindo, subindo, os passos de todas aquelas gentes iam sumindo, sumindo, sumindo… E não pararam até ter certeza de que não poderiam ser mais vistas. Eram estradas bifurcadas e uns iam em direção ao leste, outros a oeste. Vi os que foram para norte e vi também os que foram para o sul. E eles cavalgaram dia e noite, pouco importando o cansaço que sentiam. O que não sei ao certo é se eles realmente encontraram o procuravam pelo caminho. Tudo o que pude entrever é que os passageiros continuavam indo, indo, indo... Agora eles devem estar em algum lugar, lá longe, onde nossa vista não alcance. Ao longo da vida pegamos tantos ônibus. E descemos, todos, invariavelmente no mesmo ponto.
Estava sentada no banco traseiro quando me levantei para avisar ao sino de que informasse ao motorista do ônibus que eu devia descer no próximo ponto. Assentindo ao meu pedido, deu-se a parada e, ao meu sinal abriram-se as portas. Olhei à frente. O horizonte estava sendo espetado por milhares de agulhas de fumaça. O céu gritava. Tentei acalmá-lo. Mas minha voz não podia ser escutada. Calei e entendi. Há sentimentos que não inventaremos com palavras.


Lídia Martins

OBS.: Texto publicado em 31/02/2012. Lamentavelmente o blog sumiu com o texto. Não sei que houve. Ao menos consegui salvar os comentários a respeito.  Lamento.

Olá, parabéns pelo seu blog. Te convido a conhecer o meu, http://carmasepalavras.blogspot.com/ ;)
muito bom sentir teus textos, são muito suaves de se ler, parabéns pelo belo blog, já estou seguindo e voltarei mais vezes, eu escrevo alguns versos e te convido pra fazer uma visita http://joselito-expressoesdaalma.blogspot.com ficaria feliz com a sua visita ao meu humilde espaço, parabéns por este belo espaço, um forte abraço!!!
é sempre bom passar por aqui :) os olhos ficam cheios de suavidade e poesia. abraços.
Um texto de entrar mudo e sair devastado.
Por Anônimo em Os passageiros em 03/03/12
Lídia, que bela e rica descoberta econtrar seu blog e textos tão lindos. A poesia brinca com a escrita intimista por aqui...e eu adoro! Parabéns...pelo blog, pelo texto, pelo talento!
Por Yohana Sanfer em Os passageiros em 03/03/12
Intimo, divertido e reminiscente de uma forma alegre e espontânea. Me parece que com todos esses pensamentos você estava muito alegre. Eu disse parece,porque os bons fluidos do texto chegaram aqui. A propósito! Descobri que cravos espetados em cebolas, servem pra saborizar a massa enquanto cozinha. Saudações e um desejo que tenhas um bom fim de semana.
Por Cronollogias em Os passageiros em 02/03/12
Todos descemos no mesmo ponto, mas infelizmente não no mesmo momento. Eis o grande drama humano. Maior ainda para os que amam. Não creio que haja pecado que enseje uma tal punição. Há algo de errado nos interstícios estelares. Deus errou e não quer admitir. Talvez por isso ande anônimo nas lotações. Beijo
Por Alvaro Vianna em Os passageiros em 29/02/12
Lídia Martins, a menina que escolheu na forma de Pipa se esconder, ou melhor, se guardar, rodeada do infinito dos ares. Mais um texto espledoroso! Você tem me parecido mais transparente, e não sei se isso fala da tua escrita ou dos meus olhos que te vêem mais perto adimirando teu brilho que é tímido por pura vontade de ser. Lembro em uma de nossas primeiras conversas por ares além destes, quando falavamos de infância e maturidades. Recordo-me de que te disse que tu eras menina e que sonhavas como criança: de peito aberto. Felizmente assim é, e assim te mostras nesse texto! Peito aberto...sangrando vida. E sangrar minha cara tem face de dor apenas em um dos lados, o outro é amor que não quer estancar, pois ainda é semente que não morreu e por isso não floresceu. Deixa o tempo passar nesse horizonte de papéis picados e colagens de sonhos. Ele costuma trazer surpresas boas, minha cara. Uma esperança só deve ir embora quando deixar de fazer sentido, quando a espera der lugar à Veja mais...realização. Te abraço e espero o tempo passar, ao teu lado. Beijo com polém.
Por Rafaelle Melo. em Os passageiros em 29/02/12
Este comentário foi removido pelo autor.
Por Blog do MotaMota em Os passageiros em 29/02/12
Seu texto é belo e tenso , intenso e parece revelar uma alma eternamente... adolescente. Não, não é uma critica demolidora dizer que uma mulher não amadureceu... é até um elogio. Se envelhecer nem sei como vai ser... Temos uma coisa em comum: ambos sabemos que Deus é infinitamente bom , mas muito mais infinitamente lento...
Por Rogério Pereira em Os passageiros em 29/02/12
Vou dizer aquilo que já disse no twitter minutos mais cedo. Seus textos são tão lindos e intensos. Olha, vou te contar que eles viciam também. É uma vontade incontrolável de querer mais. Beijos doces daqui da lua. Maya Quaresma
Por Maya Quaresma em Os passageiros em 29/02/12



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