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2.23.2012

Sabedoria da pele



Um segredo tem o peso das pessoas que debaixo dele escondemos. Fechei os olhos e segurei-os bem dentro. Para apagar certas imagens é preciso empenho. Brinco com enormes escorpiões vermelhos. Mas não ouso tocá-los. Eles são extremamente sensíveis ao tato. Resisti a todos os tratamentos de choque. Os de silêncio foram os piores. Exceto para o perdão, não existe segunda chance.
Não foi ter perdido o amor, nem o trabalho, nem os amigos. O pior foi ter perdido o sorriso. Pelas estradas que hoje passo não existem atalhos. Apenas deslizamentos, pontes caídas e incontáveis buracos. Mas continuo a pular os obstáculos.
Em todo caso, é melhor que eu encerre este monólogo, antes que mais almas perdidas se sintam tentadas a levantar meu espírito e acabem caindo junto comigo. Estamos malditos. À parte isto, ao menos fome, tenho sentido.
Algo me diz que este pacote de “La pastas”  compactas, longas e finas são tudo o que tenho na dispensa para preparar a comida. O que, de certa forma, me deixa contente. São tempos de escassez e, quando vegeto, gosto de fazê-lo pacientemente. Sempre comi fora de casa, mas hoje assaltou-me a ideia de consultar o armário  a fim de checar se haveria neste universo fechado algum alimento indefeso, de modo que, meu fértil impulso culinário pudesse finalmente ser explorado.
Preparar a própria comida é uma espécie de passatempo de lógica, sobretudo, quando a vida está reduzida a um jogo de esperas e sobras. Eis-me aqui. Lambendo até as tampas da profundidade. E sem nunca saciar-me.
Vejamos o que tenho neste frigorífico tecnológico que inventaram para congelar alimentos que serão consumidos em um futuro próximo: a)  uma cebola pequena com dois cravos espetados; b) um dente de alho picado; c) três grãos de pimenta-do-reino; d) sal refinado; d) manteiga hidrogenada; e) meia garrafa de cerveja preta (isto sempre tenho em minha geladeira); f) frango picado; g) um terço de queijo coberto com incontabilizáveis fungos esverdeados.
Fui ensinada a desconfiar dos enfeites desde cedo. Quando criança, compreendi que a miséria tinha seus defeitos, mas também tinha seus direitos. Era seu dever exercê-los. Contudo, fossem dias de açúcar ou sal, sempre fez sol intenso aqui dentro: do peito. Desses de torrar o azul e fazer com que os telhados da cidade antiga vibrassem no horizonte de um olhar vertiginosamente pousado sobre o extremo. Por sorte, quando a miséria voltou para dar o seu próximo recado a infância já tinha se evaporado. A mulher que encontrou em torno de si, já não era a mesma menina que havia deixado, muito embora, se observasse de modo mais detalhado, reconheceria em mim aquele mesmo olhar partido, já que ele me acompanha desde que existo. Graças aos seus ensinamentos, hoje tenho consciência Krishna. A todo o tempo morro e renasço. Em um espírito mais sábio?! – Não. Em um espírito mais sóbrio – eu acho.
Deixe-me inspecioná-lo. Pela aparência de concreto armado, este queijo deve estar guardado há séculos. Deve ter pertencido às hostes da dinastia de algum beato entediado ou, quem sabe, a um guerrilheiro tcheco. Talvez devesse usá-lo como isca para dar início ao processo de desratização de meu panteão abandonado, já que as longas e afiladas unhas destes roedores maliciosos não param de arranhar as costas do meu telhado. Melhor não. Pelo aspecto de agente funerário, esta coisa não conquistaria nem um rato e, se o fizesse, o herói involuntário certamente morreria de coma induzido. Ou, na melhor das hipóteses, tentaria suicídio e desistiria no último minuto, apenas pelo prazer de chegar ao mundo buerístico como mártir e, se calhar, sorrindo por ser o único de sua espécie a ter sobrevivido a este fedor indescritível.
Que diabos é isto? Preciso de um copo de extrato! Não de sangue talhado. Tudo bem – posso prepará-lo sem. Certos condimentos padecem de um egoísmo crônico que os impossibilitam em maior ou menor medida, de conviver com outros temperos, sobretudo aqueles que alterem ou contrariem suas expectativas. Mas tenho tomates sem pele e, se eu fritá-los poderei usar a polpa para fabricar o meu próprio extrato.
A hora mais crucial – a do preparo. Num caldeirão, queimei o açúcar até ficar dourado, juntei a manteiga, a cerveja preta e o alho.  Adicionei rodelas de cebola, extrato, frango picado e não parei até ter certeza de que naquele oceano de óleo, todos morreram afogados. Em seguida, desliguei o fogo, acrescentei cheiro verde  e depois os misturei à massa devidamente cozida e interrompida no ponto "Al dente", de modo que meu intento culinário pudesse ser finalizado. Descobri que meu plano gastronômico de baixo orçamento e alta consistência havia sido bem sucedido quando um cheiro impossível alagou o recinto. Em uma travessa reluzente de prata, o fumegante jantar estava servido. Antes que pudesse saboreá-lo, um  estalido molhado metralhou meus tímpanos.
Entrevendo um rosto na contraluz da penumbra, fui até a porta do quarto e a empurrei em sentido contrário.  Por um instante, teu corpo nu desenhou-se em minha mente. Surpreendi a mim mesma lembrando com uma logística obsessiva a visão daquele delírio barroco saindo do banho, segurando nas mãos uma toalha branca, enquanto enxugava os pingos vaporosos d’água que lhe desciam pelo abdômen em múltiplos graus de temperatura. Sem pensar duas vezes, caminhei na direção daquela miragem transparente, repleta de mãos e desejos inconfessáveis que, naquele momento mágico, pareciam me implorar com loucura para serem realizados. O leito estava rodeado por velas negras, crucifixos, imagens de deuses e demônios desconhecidos que sem esconder a aflição que sentiam, nos fitavam com uma pose felina, de expectativa. Flores secas e penumbras sedutoramente obscenas completavam o cenário "dark" em que nos fundíamos. Um olhar indestrutível, que, entre outras coisas, era possível identificar resquícios de um paraíso perdido.  Suavemente, rendi-me aos encantos operísticos daquelas perspectivas alexandrinas e beijei teus lábios mentoladamente pálidos, enquanto um par de coxas escorregadias, roliças e lascivas me recebia, fazendo com que aqueles dias  de silêncio e separação fossem substituídos por suor e saliva, nesta ordem cíclica. Mas fui despertada pelo mesmo e agora, inoportuno estalo. Não havia ninguém do outro lado.  Ninguém. 
Voltei à cozinha e, à minha espera, apenas o prato solitário que, cuidadosamente, eu havia preparado.  Exibi um sorriso parafusado, recordando o instante em que o ouvi recitar um trocadilho que devia ter imprimido, já que foi a coisa mais sincera que meus ouvidos já tiveram notícia nesta vida: "Não espere nada de mim, sou apenas um prato branco e raso, Lídia" –  enquanto me passava, sem qualquer delicadeza, uma travessa de saladas frescas que descansava serena sobre a bancada da mesa. Há paixões que, o que nos provocam de desejo, provocam de desespero improvisei em ter certeza. 
Minhas histórias nunca chegaram a se completar. Nem mesmo no papel. Culpei a caneta. Crime?! Inércia  sentenciei com a boca seca. Não obstante, viver "no" passado e viver "do" passado são coisas distintas. Mas prefiro acreditar que haja os que conseguem diferenciar isto, ainda.
Não se sabe o que é ter fome, até o momento em que se come. O que não sei ao certo, é se nossas vidas são as mesmas depois do instante em que provamos do fruto que até os instintos bíblicos proibiram, e arrisco: só o fizeram por fatalmente representar perigo. Porque, depois disso, desconfio que estejamos condenados a vagar pelas ruas, perdidamente famintos, como aqueles mendigos gelados que terminam seus dias em catres de amargura e fracasso, logo depois de serem privados de novamente tocá-lo, revirando tambores e mais tambores na esperança de encontrar alguma verdade no meio de todo este lixo, sejam eles pobres ou ricos, a fim de vencer, quem sabe, o desespero provocado pela falta de um abraço, que deveria, mas por tédio, orgulho ou vaidade, nunca é dado. Não me refiro a estes "Abraços Express" que se comercializam em cardápios de "Fast Foods" e podem a qualquer interstício ser entregues em domicílio. Falo destes que a gente precisa receber quando está sozinho, indefeso e ferido. Ninguém liga mais pra isto, não depois que violentaram o romantismo.
Quase sinto pena de nossa pobreza. Logo nós, que outrora, gozamos de tantas riquezas. Não tenho medo de acabar sozinha. Tenho medo de acabar vazia. Como estas pessoas que passam por nós dia após dia, sem nem mesmo compreenderem o motivo pelo qual estão vivas. Descortinar o  mistério é torná-lo inepto. Então, preservemo-lo, senão em ações, ao menos, em pensamento. Há sabedoria na pele, sobretudo quando nossos corpos se encontram no espelho de um olhar que nos reflete, ou, se preferir, que nos reconhece. Mas, se nos deixarmos engolir, haverá dor. E, começo a acreditar que, além de dor, não haverá sabor. Apenas este descontentamento frívolo dos que sucumbiram ao tédio das carícias eventuais, sem nunca terem conhecido de perto o verdadeiro significado da palavra: afeto.
Refiz os passos do labirinto e me perdi em seus domínios. Encerrada a peça que minha memória havia pregado, empunhei as cortinas e dei uma última olhada no céu. Segurei o indicador entre os lábios como se pudesse e quisesse silenciá-los. Às escondidas, como um véu de sonho, a noite caía do alto. O dia se afastou alguns passos e entregou-lhe a tarde que carregava nos braços.
Queria que a vida fosse simples, como um prato de espaguete “A La Birra Nera.” E que entre a cama e a confidência, pudéssemos compartilhá-lo sobre a mesa.
Hoje acordei com uma fome insuportável. De contato.


Lídia Martins

16 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Aqui há várias receitas. E muitos sabores. Gostei sobretudo da que ensina a dignidade amorosa. Contudo, a culinária é uma arte para poucos. Quem poderia seguir exatamente o que preceitas ou, talvez, inovar em gostos? O melhor sabor de todos ainda é o texto. Isto é arte: esse encontro raro entre conteúdo e forma, que em você alcança a estirpe de milagre.

Beijo

Daynara Aparecida disse...

Querida Lindi, quanto tempo eu n faço um comentário aqui né?
Eh incrível como vc tem um dom com as palavras capazes de nos curar, renovar!
Vc n tem ideia do quão elas fazem bem, e não só à vc que escreve não, mas tbm à nós que lemos e refletimos sobre tudo o que escreves.

Estava revivendo uns posts meus de meu blog Photograph e li um comentário que postastes em um post meu.
Sabe oq eh vc ler exatamente oq estava precisando ler? rs. Pois é!
Tanto que escrevi um post em meu One Day com ele, e citei seu nome e seu blog.

(http://vidaemdiasd3.blogspot.com/2012/02/qnd-palavra-vem-na-hora-certa.html)

Continua assim, Lindi!
Sinta meu abraço forte!

Anônimo disse...

Fiquei com tesão. Sempre sinto prazer, ao te ler.

Nei Duclós disse...

Viagem dark, pelo sonho e a culinária, dançando ao redor das palavras que deixam marcas, feridas, procurando o bálsamo sem a ele se entregar. Um assombro, como sempre.

Rafaelle Melo. disse...

Bravo!

Roteiro digno de uma literatura estonteante. Aquele dom de Pipa de nos deixar embriagados entre as linhas.

A cada palavra meu peito pulsava esperando o próximo impacto. Coração que anseia por tuas descobertas compartilhar. Descobertas estas das quais nos divide com hulmildade maior que qualquer afronta.

Faltam mais palavras.
Sobram emoções não catalogadas.

Um beijo.

Maya Quaresma disse...

E no final: aplausos!

Lindo, sublime, lindo, sublime!

E com a música Never let me go fez o texto ainda mais intenso. A cada acorde, cada letra, cada nota, cada palavra. Cada ponto, cada pausa... Tudo se fez ainda mais belo.

Beijos

Maya Quaresma

Blog do MotaMota disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Dissimular, tudo bem - meu - q o Negócio é fazer Marola - mesmo / sem Malícia não se vive / Sacumé!?

Sacumé - sacumé!!?

Agora eu vou te falar qual é o Pobrema.
O Pobrema é se favorecer com a Restrição do Dinheiro / e do TRABALHO -
querer ainda por cima pousar de maioral
e deixar a merda pros outro.

Blog do MotaMota disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
José María Souza Costa disse...

CONVITE
Tenho um página muito simplória na internet, aonde escrevinho alguns pensamentos, poemas, poesias ou mesmo textos diversificados. Não seria um blogue. Um blogue, é mais complexo, mais completo, mais colorido. Ainda assim, estou a lhe convidar a ir até lá, visitar-me, e se possivel seguirmos juntos por eles. Estarei lá, muito grato, esperando por Você.
http://josemariacostaescreveu.blogspot.com

Cronollogias disse...

Com que serenidade, tu escreves tudo isso! Chega a apaziguar até algumas coisas minhas. Acariciante ler cada frase, imaginar tua tranquilidade iniciando e terminando cada linha.
Gostei tanto; que no primeiro fim de semana de março, vou fazer a receita dessa massa, me lembrarei de ti nesse dia, comerei e beberei em homenagem à essa boa lembrança.
Por favor, me tire uma dúvida: por que, os dois escravos espetados na cebola?

Saudações.

Anônimo disse...

P Tota.
Pra ser Bonachão tem q ter Berço.
Bonachão e EsteLta q dispõe a Beleza na Cidade Alta pra Opressão.

Vem - cá !?
Não foi vc q deixou a Pipa na Chuva
em plena área de Camping
pra ir ter com não sei mais quem - lá
em outro lugar armar a barraca !??
Foi ou não foi !!?

Fernanda Fraga disse...

Fiquei sem palavras. Mas esses labirintos, descaminhos que nos levam a direção de alguma coisa. Abrimos as cortinas e vede.
Bjos Pipa querida.
Fer.

Amanda Lemos disse...

Olá, vim conhecer seu blog e gostei muito, diga-se de passagem... :)
E te convido para conhecer meu espaço, caso queira dar uma olhada, seguir..;

http://www.bolgdoano.blogspot.com/

Muito Obrigada, desde já.

Roberta Mendes disse...

Separar é ser amputado do outro; dissociar para sempre a vontade da fruição. Ao invés de apetite e saciedade: inapetência e náusea inapetência e náusea inapetência. Separar desnutre.

Felicidade Clandestina disse...

é sempre bom passar por aqui :) os olhos ficam cheios de suavidade e poesia.
abraços.