3.20.2012

Submarina


Quem cala, ressente – comecei filtrando meia dúzia de palavras que gotejavam com hostilidade entre os dentes. 
Estava sentada em minha escrivaninha construindo uma embarcação de papel com uma meticulosidade quase obsessiva, quando uma maré de inspiração fez monção continental de colocá-la à deriva. Exibi um sorriso velado e fiz um minuto de silêncio em homenagem à ressurreição do: pensamento.
              O outono chegou à cidade como uma virgem recém-saída de uma pintura sacra. Com aquela calma envenenada dos que compreendem a realidade e reagem com certa estaticidade por terem descoberto sua incapacidade para transformá-la. 
Apoiei a testa na mão esquerda e por um breve instante tive a sensação de que ela se projetava de minha cabeça. Tenho mentalizado tantas coisas, que meu cérebro pesa. Recordo o reflexo do meu rosto no tubo espelhado da caneta. Contabilizei três linhas curvilíneas. Minha testa estava ficando vermelha. Talvez fosse de tanto pensar besteiras.
Uma pequena aranha negra subia pela minha perna. Parei um instante para prestar atenção na cena e pedi licença poética para mandá-la, desculpem – por favor, à merda! O aracnídeo devolveu minha indelicadeza com um gesto abaixo de zero e sacudiu a cabeça em silêncio para, em seguida, retornar às sombras de onde veio.
A temperatura estava ideal para um mergulho nas profundezas insondáveis da alma, ou,  fosse eu mais exata, diria que, para “sumir do mapa.” Para cumprir meu destino de náufraga, segui o percurso por água já que em terra firme poderia correr o risco de ser encontrada.
A noite ainda estava vestida com seu pijama de listras quando terminei de construir o meu... Bem, não era exatamente um barquinho... Fabriquei uma espécie de submarino nuclear soviético carregado com toneladas de mísseis balísticos. Sei ficar invisível, sobretudo nas ocasiões em que necessito.
É noite e faz frio na ilha.
Hoje faz vinte dias que cheguei a este lugar com o juramento secreto de não mais voltar. Encontrei meu destino em um pequeno casebre de praia construído em uma encosta íngreme, na qual, ninguém, exceto por mim, estes ratos, estas aranhas e estas baratas arriscariam morar. Começo a pensar que isolar-me foi a melhor saída que eu poderia ter encontrado para a minha vida. Ao menos, foi o único modo que achei de não ferir as pessoas e nem por elas ser ferida. Estava tão exausta de construir e demolir expectativas que comecei a acreditar que, se me distanciasse o bastante, ficaria fora de alcance e aquelas vozes de areia que ecoavam como marés no oceano de minha mente se calariam para sempre.
Na estação de rádio tentei identificar um lamento arranhado de (...)“na parede da memória, essa lembrança é o quadro que dói mais (...)” Uma ex-seminarista arrependida?!  Não. Era só a voz autoral de Elis Regina. Interpretava a nebulosa "Como Nossos Pais." Alguma coisa naquela melodia tinha me perturbado profundamente. Meu primeiro impulso foi dar voz de prisão à canção. Desliguei o rádio imediatamente e a amaldiçoei por fazer com que eu me sentisse tão insignificante. Detestei a ideia de ter que admitir isto, mas ela tinha razão.
O mar está calmo como uma estátua de sal e água. Nenhuma onda se agita às minhas costas. Ao longe, um exército de peixes se arma contra as redes dos pescadores e, ao que parece, já viram o rosto anônimo da morte. Urnas de gelo os aguardam na plataforma para um último adeus. Não há prerrogativa de escape. 
Enquanto escrevo fantasio que entro neste submarino, mergulho mar adentro e vou afundando lentamente pela costa,  até que o mundo e tudo que a ele pertence desaparece à minha volta. 
Devolvi-lhe a chave no exato instante em que o coração indicou que não mais a guardasse. Atirei ao mar o tesouro secular que guardei com mil cadeados no cofre do peito. Vi quando o tilintar do molho de chaves que dava acesso ao sótão da alma se espalhou serenamente pelas entranhas salgadas daquelas águas.
O que não sabia é que, mais cedo ou mais tarde, você encontraria um modo de achar aquelas chaves e seus lábios se entreabririam como se quisessem  e pudessem chamar pela outra metade. Poderia viver um milhão de anos e nunca esqueceria sua tentativa desesperada de despregar os lábios grosseiramente costurados. Vi quando as costuras sangraram e corri no afã de resgatá-lo. Quis ajudá-lo a se desfazer daqueles fios invisíveis e orgulhosos de náilon. Mas de algum modo, me senti incapaz de afastar o horror e o medo que aquelas embruxadas cenas transpiravam. Seus braços gelatinosos se misturaram às águas-vivas, que o arrastaram sem remédio para aquele velho navio encalhado, formando uma espécie de crosta, de pele morta do passado. Se houvesse um modo de salvá-lo, estava certa de que eu iria encontrá-lo. Mas foram inúteis todas as minhas tentativas de carregá-lo para aquela cabana onde, outrora, havíamos estado. Desci novamente ao fundo. Vasculho, vasculho, vasculho e uma eternidade mais tarde o descubro. Estavas no coração espelhado das águas. Mas quando toquei seu rosto, o reflexo se embaralhava. Eu só queria ver tua face, príncipe dos mares.
E assisti, lenta, ao naufrágio de nossas vidas. Houve um tempo em que acreditei que éramos continentes. Enganei-me. Somos ilhas. Estamos sós. Esta noite, mais ainda. Meu coração está frio como bloco de gelo. É assombrosa a quantidade de seres que tentam, em vão, derretê-lo. Como este tubarão martelo, por exemplo, que olha para mim e pensa que não estou vendo. Bati continência ao capitão reluzente de silêncio e retornei à margem como se esperasse, se é que isso existe, pelo momento certo de revê-lo. Em outras palavras, àquela altura, já não tinha vocação para ser prego.
De tanto me espetarem agulhas envenenadas de silêncios, assimilei-os. Hoje, para mim, eles não passam de dóceis anestésicos.
Agora volto à superfície. É um destino seguro. Nestes oceânicos amores, eu nunca mais me aprofundo.

Lídia Martins

24 comentários:

Franck disse...

Lindo texto!

Patrícia disse...

Você conseguiu me afundar na profundeza desse mar. Minha imaginação correu solta, até o coração acelerou... lindo!
Tanto significado nesse mar.
Beijo

Blog do MotaMota disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nei Duclós disse...

O coração sabe onde o amor se refugia. Num outro coração, de vidro, que se quebra de tanto mel e deixa cacos afiados que ferem sem querer. Das águas do amor ninguém beberá, mas o problema é o deserto. Doloroso mergulho, belo como nunca.

Alvaro Vianna disse...

40 dias é o tempo ideal para o deserto. Você está na metade. E já lhe rendeu este texto primoroso.

No entanto, desconfio que o maior dos desertos é o interior. E dura a vida toda. Às vezes penso que o amor foi uma invenção que esperavam que pudesse ser o portal para uma realidade menos isolada. O maior engano da humanidade.

Beijo

Anônimo disse...

Você me emociona...

Maíra Cunha disse...

Texto extenso mais perfeito *-* Adorei! Venha para uma visita:
http://fazdecontatxt.blogspot.com

Fernanda Curcio e Leonardo Macedo disse...

O silêncio é a cura quando as palavras teimam em ser donas de nós, brotam impulsivas pelos lábios.

Saudades!!

Beijos, Fe

Atamys Larissa disse...

Liiindo *-*

Bárbara disse...

Tanta informação, tantas coisas. Apesar da solidão aparente transborda e transparece o turbilhão de sentimentos que parecem existir.

Bonito é pouco para definir.

wanessinha disse...

oie tudo bem..vim visitar seu cantinho e gostei muito..agora te convida a fazer uma visitinha no meu cantinho...ele ainda e um bebezinho ta nascendo agora rrsrs mais ta ficando muito bom..tenho outros blog mais resolvi mudar o foco um poquinho...vai la me visite e se gostar e querer me seguir fique a vontade..xauzinho bjsss
http://segredosdeumamulherapaixonada.blogspot.com.br/

z i r i s disse...

Prima,


quando senti tua falta, jamais passou-me pela cabeça missão tão DESecreta. Um submarino?


Sabe, tem uma música que Bethânia cantou mas foi Arnaldo quem rabiscou:

Debaixo dágua tudo era mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar...

Mas tinha que respirar...

Debaixo dágua.



É. Perdi o fio da meada prima minha. Não sinto sufoco, menos ainda terror, acho que você esta lambendo as ultimas feridas e é quase palpável a imagem tua emergindo, inteira.

Ah, tem outra música do Ivan, aquele, o Lins, que diz:

O amor junta os pedaços
Quando um coração se quebra
Mesmo que seja de aço
Mesmo que seja de pedra
Fica tão cicatrizado
Que ninguém diz que é colado.


Um dia ficamos prontos, preparados, de novo...


No fundo do mar uma borboleta voaria... tão azul... Beijo, azul.


Ziris

Alvaro Vianna disse...

Oscar de melhor comentadora pra Ziris!

Anônimo disse...

Pipa ou Lídia,bom dia


Encontrei o seu blog por intermédio de um amigo Uberlandense, que me apresentou seu trabalho no página. Estou acompanhando suas produções já há algum tempo via twitter e agora por aqui também e fiquei muito interessado. Vi seu email aqui e tomei a liberdade de enviar-lhe os meus contatos. Manifesto minha admiração pelo seu majestoso talento. Acho que tem potencial para pulicar um livro que seguramente alcançaria grandes proporções considerando a elevação espiritual (leia-se: sensibilidade poética) com que escreves.


Meu nome é Thiago, desenvolvo trabalhos editoriais na Schoba de Vila Roma/Salto SP.


Um grande abraço e caso tenha interesse, aguardo seu contato.


Atenciosamente,

Thiago

wanessinha disse...

ola tudo bem
vim te fazer uma visitinha e gostei muito do seu blog
gostei tanto qu por aqui resolvi ficar rsrsrs
agora te convido a conhecer meu cantinho se gostar fique a vontade pra seguir..xauzinho bjsss
http://segredosdeumamulherapaixonada.blogspot.com.br/

Roberta Mendes disse...

Irmã, eu não sei ser nos naufrágios dos que sobrevivem. Paro de respirar. Nada me chega aos pulmões que se possa transformar em voz ou vagido. Morro. A vida só vem muito depois. Ocupa, então, de novo o meu nome.

Velho Santiago disse...

Qdo soube das notícias tive que vir vê-la. É uma daquelas visitas que abriríamos mão. Mas como nos falamos tão pouco, abrir mão dessa seria um incalculável lapso temporal. Fato é que tenho meu próprio submarino conversível amarelo para, em dias (e tantas noites) como os seus eu sair por ai, de olho em amores hipotéticos que em meu coração duram para sempre, mas tão rápidos e fúteis se apresentam em minha cama. Não venho trazer calor, nem tentativas de derretição. Quero dizer que mesmo frio pode viver. Tantos assim já o fazem, seres sem olhar que cruzamos todos os dias. E todos sobrevivem. Todos sobre a vida vivem. Eu cá, menino, moço e velho, tenho percebido: é calor que dá vida. Frio preserva a morte. Saber a hora de ligar o ar condicionado ou acender o fogo é o segredo: um bom vinho e um bom assado nos leva qse sempre pra cama. Se for hora de dormir, feche os olhos. Se for hora do amor, feche o tudo o resto. O tempo passa. Doce ou não.

Lídia Borges disse...

"Estavas no coração espelhado das águas. Mas quando toquei seu rosto, o reflexo se embaralhava. Eu só queria ver tua face, príncipe dos mares."

Ver para além do rosto, um rosto...

Beijo meu

Cronollogias disse...

No ar e no mar, tu desenhas em tuas cartas poéticas as mais esplêndidas fugas ... é o que me parece quando examino detidamente teus escritos.
Não sou pretensioso, mas orgulhoso de mim mesmo quando quero perceber uma verdade no que me toca. Eu ja disse antes(ainda que com outras palavras); teus versos tem uma imensidão de oceanos, mas tu sempre volta, te agradam as coisas da superfície e tua circula por elas com desenvoltura, confesso: eu adoro isso!
Obrigado por me levar nessas viagens contigo.
Te deixo um beijo contente.

Be Lins disse...

De afastamentos e buscas,
faz-se uma historia.

Saudade, Pipa,
sempre!

Vou deixar meu msn
se um dia quiser prosear
será uma alegria:
mariabeatrizdiasdelins@hotmail.com


FELIZ PÁSCOA!


(sua escrita está fabulosa!)


*

Erico Jr Design Grafico disse...

Olá parabens pelo belo blog gostei muito e já fiz alguns downloads gostaria de pedir que seguice meu blog também estou começando agora e não tenho muitos leitores se possivel no facebook também o link é
http://maisword.blogspot.com.br/

Obrigado

nilson disse...

As águas dos rios, dos mares, dos lagos talvez, têm essa capacidade de absorver-nos nas dores e amores. E 'a nossa dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos', ainda assim as coisas se repetem, se disfarçam, nos enganam...

O isolamento, mesmo aquele que embrutece, é necessário para que de alguma forma, até obscura, surja alguma esperança no coração terrivelmente 'espetado pelas agulhas envenenadas do silêncio'.

É do amor que precisamos sempre.
Ainda que o tenhamos que inventar.
É do amor que precisamos sempre.

Lindo e perfeito o seu mergulhar.

RosaMaria disse...

Gosto tanto de passar por aqui, versos, prosas, transparências em forma de sentimentos.

Me identifico muito com tuas palavras. Toda vida!

Um beijo grande, uma boa semana pra ti, com muita inspiração.

Leo disse...

É das profundezas que vem a força que habita em nós, que nos dá impulso pra atingirmos a superfície e respirar com alívio.

Saudades da Pipa! que este impulso te faça romper as barreiras, pra gente se ver no ar, onde sempre nos encontramos com sorrisos no rosto.

Um beijo e um aperto de abraço.