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12.26.2011

Eu vou indo, indo, indo...



Comendo brioches. Eu os fiz hoje. O estranho é que estão com uma consistência de (...) Rocha vulcânica?! Não, acho que de espuma sólida. Estive pensando, no calendário depois de cristo já se passaram dois mil e onze anos. Cristo está ficando velho, não acham? É quase um ancião o coitado. As vezes me ocorre se esta placa divisória de tempo não foi uma invenção humana, uma espécie de estratégia usada para esconder as rugas de sua verdadeira face. E se ele tiver nascido bem antes? Eu por exemplo, nasci em 31/12/1980. Por alguma escusa razão, meu registro de nascimento informa que foi em 31/12/1979. Isso significa que eu deveria fazer trinta e um anos no fim deste ano. Mas para todos que digo isto, meu RG me acusa de falsidade ideológica. Tudo bem, ele me acusa de mentirosa. Vou fazer 32 anos de idade. Ainda não fiz um filho, não escrevi um livro e nem plantei uma árvore. Não encontro qualquer sentido nestes referencias. São todos muito esquisitos. E, se eu pensar bem, em tese, devia me sentir feliz por não ter com o que preocupar-me, e, no entanto, tem alguma coisa errada ou ausente, sabe. Os ponteiros do meu relógio parecem monstrinhos vivos. Uso relógio de bolso porque não gosto muito de olhar pra isto. Quatro horas da tarde/Sete minutos/Treze segundos/Quatorze, agora quinze, perdi a conta no vinte. Deviam inventar um relógio sem ponteiros. Não vejo motivo para contabilizarmos tantos desperdícios. Gostaria de ter nome para dar ao desconserto que sinto em certos momentos. Como este, por exemplo, estou tendo que apontar com o dedo.  Esfriou por demais aqui dentro. Escureço. Por vezes a surpreendo tateando o vazio. A escuridão é cega. Embora eu pense que nem ela mesma ainda tenha suspeitado disso. Mas especialmente hoje, se faz noite em meu peito. Porque motivos, desta vez não explico. Noite passada, apoiei-me nas grades de minha janela e observei a neve espalhar-se por todo o bairro, cobrindo telhados de casas, prédios, ruas, avenidas, calçadas, carros, gente, perguntas, respostas, lembranças. E não parou de cair até que toda a cidade fosse sepultada  debaixo de uma tumba reluzente de geada. Como uma espécie de múmia farônica, até sua alma parecia enfaixada. Soube então que aquele momento-oficial do qual  passei a maior parte do tempo me escondendo,  finalmente havia me encontrado para cumprir seu mandado. E, pela primeira vez, eu não tentei evitá-lo. Abri todas as portas e janelas do meu quarto, estendi-me serenamente sobre o leito e não  cobri meu corpo. Deixei que a Nevasca do Século entrasse, e, em mim, aqueles cones de cristais fosforescentes se solificassem. Quando acordei, logo pela manhã, comprovei que meu coração havia se congelado. Como me doeu isso, ser flor, a mulher jogada no caminho. Atirei gentilezas pela janela. Caíram verticalmente sobre sua cabeça. E foram esmagadas pelos cascos de seus silêncios-cavalos. Segurando lâminas de lágrimas. Se eu entorná-las agora, certamente estas navalhas vão retalhar minha cara. De tanto me espetarem agulhas envenenadas de silêncios, assimilei-os. Hoje, para mim, eles não passam de dóceis anestésicos. Colho migalhas de alegria. Alinho-as com uma meticulosidade quase científica. Não são muitas. Mas as poucas que tenho são magníficas. Olhei o céu. A ordem do dia. Navegar por um oceano de cinzas como uma balsa hostil, na vasta reflexão da neblina que se adentrava às retinas. Resolvi apoiar-me nos braços do gelo. Já que não posso trazer alento. Decidi não provocar desespero. Na tentativa de levantarem meu espírito, algumas pessoas acabaram caindo junto comigo. Segui a indicação do coração e fui parar no deserto onde Judas perdeu as botas. Refiz a trajetória e constatei com tristeza que o vento tinha virado a placa. As direções. Haveremos, algum dia, de reinventá-las. A felicidade é uma criança pálida, frágil, magra e assustada. Devíamos chamá-la para brincar. Estou quase certa de que ela teria prazer em deixar o abandono ardendo de raiva. Um fato me intriga neste universo (in)dígito. Há coisas que eu deveria ter vivido. Jamais escrito. Em busca da força, tornei-me rocha. Mas se olhar em volta, nos momentos amargos eu entornei paz, paciência, doçura. Feito pote de mel que quebra dentro e inunda. E é com nostalgia que percebo, em nada serviram para aplacar esta amargura em minha boca. Para mim, basta. Estou caindo fora dessa existência fantasmagórica. Eu estou cansada e preciso ir para casa. Desaprendi o idioma do mundo externo. Era tudo muito estrangeiro. Minha alma já está exausta de experimentos horrendos. O mundo acabando à minha volta, e os astros, estão ocupados demais com a sua cólera para salvarem o que ainda resta. Sempre acreditei que nos duelos entre a luz e a treva a clareza venceria. Cascata. Um compêndio de mentiras bondosas. É disso que estou cercada. Dá só uma olhada em volta. Só tem compaixão por ilusões os que a elas se equiparam. Hoje estive fazendo autópsia de minha velha arma. Puxei a gaveta da cômoda e ancorei-a sobre a mesa. Retirei o véu branco daquela misteriosa bela adormecida e espalmei a poeira que a cobria. Desmontei peça por peça de seu corpo gelado para depois remontá-lo. Inspecionei os orifícios cilíndricos, acariciei o tubo de aço, ajustei o sistema de disparos, embainhei os projéteis no municiador, e, por fim, consegui recompor aquele artefato bélico. Era quase uma miragem de gelo, uma estátua robusta vestida em um colete blasonado de chumbo. Uma coisa me inquietava. O que aquela arma de fogo carregava de beleza, tinha de tristeza. Permanecemos ali um bom tempo, em silêncio. De repente, um sopro frio de ar silvou do cano, deixando todo o exército de pelos do meu corpo em riste, como fossem soldados ocupando  trincheiras, na vã tentativa de se defenderem daqueles arrepios-inimigos. E foi então que a vi, transparente, cálida, serena,  a alma daquela dama enlutada aparecia resplandecente à minha frente, com olhos úmidos e brilhantes. Eu a havia ressuscitado. Ela vestia o que parecia uma fantasia de Tiffani Self Defender. A insuperável e estonteante pistola escamoteada. Por uma mulher destas, qualquer homem perderia a cabeça. Viveria. Mataria. Morreria. E ressuscitaria. Detive-me naquele momento para contemplá-la longamente, e, se isso fosse possível, congelar para sempre os ponteiros do meu relógio de bolso, para que ela pudesse viver eternamente na memória daquele instante.  De modo quase obsessivo, fixei-me nela, mas ela desviava o olhar, incrédula. Aquela personagem alucinada sabia exatamente ao que eu estava disposta a fazer naquela hora. Enfeitiçada, fiquei pensando se aquelas balas polvorosas teriam forças o suficiente para, com apenas uma rajada de fogo, explodir minha cabeça e, se isso não fosse possível, ao menos, incendiá-la o suficiente para causar um dano permanente e irrecuperável a estas memórias. Estudando a lógica dos loucos, me oriento. Arrepia-me a valentia com que tentam por fim aos desesperos. Quase padecem, de tão intensos. Encostei o cano frio da ardorosa arma em minhas têmporas. Friccionei-a com frenesi, tentando sentir a potência do contato. E, no instante exato em iria detonar as balas, mudei de idéia. Foi-se o tempo em que as poetisas se matavam para estrearem como heroínas das marés de tinta, entregarem-se a estes marinheiros de papel e acabarem sozinhas, servindo de companhia à alma das solitárias estantes, ou, se lhe sorrissem a sorte, terminar seus dias em uma fila interminável de livrarias, vigiadas por olhares tecnicolormente cruéis, de seres incultos que se quer compreendiam o que a capa encadernada de suas vidas dizia. Isto, para o caso de realmente terem algum tipo de talento, já que a maioria dos romancistas que foram chamados ao mundo escrito, mal sabe usar os dedos, dirá o cérebro. Se fracassam no papel nem quero imaginar no real. Não tenho medo da morte. Sei que esta coisa chegará a mim. Cedo ou tarde. Não devo matar-me. Ao menos, não hoje. De roer-nos, já se encarregam os ratos dos anos. Pronto. Já afrouxei o gatilho de minha prodigiosa caneta Mont Blanc. Se vou morrer, que seja de delírios. Não de martírios.




P.S.: Aos que compartilham de minha imaginação delirante, antes de passá-la adiante, levem isto a sério: tenham sabedoria para aproveitar os pensamentos que prestam. Eleja a desconfiança como companheira, quando estiveram diante de um louco. Para não terminar como estes desorientados, todo cuidado é pouco. Bobagem. Vamos ficar todos malucos e pronto. Assumimos o comando do mundo e todos ficarão seguros. Doidos, mas seguros. Tenho pena dos normais. Devem sofrer muito com suas pobrezas de espírito. Se eles tivessem um décimo que fosse de nossa sensibilidade, estaríamos no paraíso. Precisamos proteger nossa insanidade. Temo que ela esteja correndo sérios riscos. Outro dia recebi um e-mail de um leitor e escritor, ameaçando tomar um frasco de veneno, caso não encontrasse um modo de resgatar-se desta babel labiríntica  que é o universo imaginário. Observei-o em segredo e vi que seus versos rastejavam. Não revelarei seu nome. Um segredo tem o peso das pessoas que debaixo dele escondemos. E acho que o entendo. A temperatura do meu coração tem estourado termômetros com a mesma intensidade que os têm estacado abaixo de zero. Há dias que escrevo febrilmente, mas na maior parte do tempo, eu nevo. Obrigada por terem me aquecido todo essse tempo. As vezes passo horas tentando catalogar uma emoção. E sempre me surpreendo quando dizem que gostam do que escrevo. Os que são feitos desta substância imaterial sabem tanto quanto eu, que não é uma tarefa fácil decifrar o enigma do abstrato. De certa forma, a declaração deste companheiro de fadigas me deixou preocupada. Bem, penso que o livre-arbítrio foi a maior arma de precisão já inventada. Não detone o gatilho da responsabilidade por suas vidas na mão de direção dos outros. Eles vão desviar destas balas. Façam as pazes com suas vontades, chega de ataques, já é chegado o tempo de nos darmos um pouco de trégua. E isto só será possível, quando hasteamos a bandeira branca da paz interna. Do resto, estejam certos, a vida se encarrega. Por fim, e não menos importante, um feliz 2012. E preparem suas fantasias de aquarela. Este será um ano carregado de cores em nossas imaculadas almas-tela. E lembrem-se: Só recebem graças os quem nelas têm crença. Elas só virão ao nosso encontro, quando estivermos prontos para recebê-las. Enquanto elas não vêm, façamos os preparativos para a festa. Desconfio que elas chegarão de surpresa. S-o-r-r-i-s-o. Ergam tijolo por tijolo destas letras. Junte todas as sílabas. E não parem até que esta casa esteja construída. Depois é só caprichar na pronúncia. Que venha 2012! E que ele nos presenteie com alegrias intensas. Então vamos fazer o V da Vitória. E comemorar o ano que chega com esta faixa resplandecente de paz e amor em nossa testa. Agora eu vou indo. E vamo que vamo! Porque, rs, de ser FELIZ, não sei vocês, mas eu tenho pressa!  




UM SALVE 2012 GALERA!!!

UM BEIJO COM GOSTO DE

CÉU DA BOCA CHEIO

DE ESTRELAS!!!


ASS: PIPA






24 comentários:

placco araujo disse...

Se vou morrer, que seja de delírios. Não de martírios.

E que peguemos tudo o que nos acrescenta!!!

Beijos e um 2012 com este peito sempre cheio de luz!!!

nilson disse...

O vazio é a falta de sentido. O rumo que sempre não se mostra. A resposta que sempre responde com perguntas.

"Da triste vida que eu vivo,
O menos triste é a tristeza.
Muito mais triste é a incerteza
Essa falta de motivo,
Para viver como eu vivo
Só de surpresa em surpresa,
Cada vez mais sendo presa
Das coisas de que me privo
E sujeito, embora esquivo,
Às ordens da natureza
Causadora, com certeza
Desse gosto negativo:
Da triste vida que eu vivo..."

Guilherme de Almeida

Talvez o maior suicídio é continuar vivendo.
Não há punição mais cruel para se utilizar.
É só assim que a dimensão do sofrimento, mais do que o tempo, nos atinge por completo.

Paz!

Nilson

Pink Princess disse...

Seu blog é muito amor! Estou seguindo!

Dá uma passadinha no meu e me segue também se você gostar:

http://totalpinkprincess.blogspot.com/

Pink kisses!

Bubuh dulce disse...

Estou emocionada com seus textos. Sinceramente, muito especiais.

Mi Satake disse...

Pura emoçao seus textos, PIpa!


Beijos,
Michelle

UM feliz 2012 e muitoa energia pra vc!

Patrícia disse...

Adorei. Também me sinto uma estranha nesse mundo. Também, nos meus quase 31 anos: "Ainda não fiz um filho, não escrevi um livro e nem plantei uma árvore. Não encontro qualquer sentido nestes referencias." Disse na noite de Natal que de agora em diante só faço 30, nem adianta comprar outras velas pro bolo.
Por isso que eu gosto tanto de ler seus textos, porque você imagina. E pra mim o mundo anda muito sem imaginação... eu imagino. E muito. Porque da imaginação surgem as idéias e das idéias as ações. E delas, as mudanças.
Que tudo se torne mais alegre em 2012. Mais leve!!!
Beijos

Roberta Mendes disse...

Pedi emprestado o trenó. A intenção era lhe levar o presente em mãos. Estalei teatralmente o chicote. Pelo efeito sonoro e não porque lhes tenha tocado, as renas empinaram suas sombras contra a lua cheia e se puseram a caminho. Fazia um tal solavanco de nuvens, que seu presente caiu. E de tão alto caiu que escancarou a cabeça desavisada que o recolheu na queda, como um insight.

Se não me engano, há um excelente departamento de achados e perdidos em sua Uberlândia. E esse é um caso de achado. Vá na prateleira dos infanto-juvenis (mas como???) e procure por "A Mecânica do Coração", de Mathias Malzieu. Esta é a história do meu Edward. O que, para você, tem mãos de tesoura, para mim leva um cuco no coração. Se não encantar você, procure auxílio: é caso de o coração estar perdido.

Obrigada por tudo que pude compartilhar com você durante o ano, minha tão cara irmã reencontrada.

Claudia Micher disse...

kkk q delícia seu blog... amei demais!
parabéns!!!
http://claudiamicher7.blogspot.com/

Anônimo disse...

Mas eu sempre vim adorá-la. Na sombra, poetisa da minha vida.

Cronollogias disse...

Tu é estranhamente maravilhosa, e eu adoro isso. Tu me faz sorrir com uma alegria quase amarga, o que também, é estranho definir.
Mas no PS, bem no fim; eu me ponho a gargalhar ...
É, tu é maravilhosamente de uma estranheza adorável, uma viagem ...
Mesmos que estas palavras não ecoem, ainda assim são para mim, verdades.

Estou fã, do teu imaginário.

Que em 2012 chegue de pressa, oque te faz feliz.
Saudações!

Anônimo disse...

Feliz Aniversário, ou tão bom quanto tu desejas.

Um Beijo e escreva.

Be Lins disse...

Feliz aniversário,
Feliz Ano Novo,
Feliz Feliz Feliz...

Querida Pipa,
talvez seja utópico oque vou escrever
(eu que nem creio muito nisso)
mas porque é véspera de novo ano nascendo, ou porque nem sei porque, quero lhe desejar
para 2012
o doce exercício de ser feliz,

feliz nas coisas pequenas,
feliz com as pessoas,
feliz consigo mesma,
feliz de muitas surpresas,
feliz por ser feliz.

(felicidade pode ser demais?...)

Um beijo
e um grande abraço
desta que sempre vem te ver,

Be

Roberta Mendes disse...

Irmã querida,

Mania sua de começar onde tudo termina! Parabéns pelo seu aniversário!! Ana Karina aqui ao meu lado manda beijos efusivos. Abraçamo-nos em roda, em uma grande ciranda de irmãs!

- Be(n)tinha

Blog do MotaMota disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Blog do MotaMota disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
@Francisquices disse...

Parabéns, Pipa.

nacasadorau disse...

Acordei aqui, acredite!
Que felicidade ter-me encontrado e sobretudo ter-me despertado para este mundo tão peculiar, tão seu e simultaneamente tão nosso.
Os parabéns pelo aniversário já chegam tarde, mas ficam os sinceros parabéns pela escrita maravilhosa e tão carismática.

Abraço-a neste dia lindo, de sol aberto e céu azul, que já me aquece a alma.

PS- Lamento não conseguir fazer-me seguidora. Não fui aceite, vinda da WordPress.
Levo o link para não a perder.

nacasadorau disse...

Levei tão a sério este seu "delírio" maravilhoso, que acabei por publicar um extracto deste texto e deixei um link para o seu Blog.

Espero que não leve a mal por não ter pedido autorização primeiro.
Se não gostar é só dizer.

Beijinho

Rogério Pereira disse...

A teu conselho, elejo a desconfiança como companheira, quando estiver diante de um louco. Para não terminar como estes desorientado, todo cuidado é pouco. (gosto de rimas, vivo rimando contra a maré)

Ah,também tenho pena dos normais e vou-me suicidar de delírios, nos intervalos, raros, dos meus momentos de lucidez...

Cronollogias disse...

Oie Pipa,
obrigado pela visita, estou alegre e contente, o que pra muitos pode ser igual. Pra mim, soa diferente.

Uma boa semana, Saudações e bem vinda sempre!

Carlos.

nacasadorau disse...

Voltei e reli com o mesmo elevo.
Boa noite.
Beijo

Arte...Mosaico & Prosa...Poesia disse...

Entrei por acaso e gostei tanto que vou seguir seus delírios x martírios, que talvez sejam também meus.
Abraços
Nazira

Leo disse...

É preciso delirar, deixar morrer, só então a vida surge como um estalo. A vida é cruel para com aqueles que não "DêLíriam".

Beijo do céu, pra Pipa.

JasonJr. disse...

Deixando um ótimo ano né Dona Pipa! :D