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11.29.2011

A VIDA, POR UM FIO DE BRISA

Um sereno de prata polvilha as ruas com minúsculas partículas de bruma. Via-se o contorno da mulher sem rosto. Movendo-se com a sinuosidade de uma serpente, da água-neve, o ventre da cidade emerge. Esperei seguidas horas até que o lenço da tarde secasse aquelas lágrimas que pingavam com hostilidade à minha volta.
Por um breve instante, no firmamento, uma luz brilhou como o farol de Alexandria. Ressurgia o sol envolto num halo luminoso, e seguiu em silêncio, como um pastor órfão.
Aproveitei aquele momento mágico e raro de estio, intuindo que longe daquela melancolia cinzenta que havia furtado as cores dos rostos, eu pudesse sair às ruas para me perder entre os labirintos infinitos de casas, prédios e bairros, pouco importando se escaparia ou não de seus domínios.
Nunca saía de casa e quando o fazia, sentia-me cercada de gente vazia. Acabava por encontrar algum pretexto para me refugiar neste quarto que, comparado a estreiteza daqueles becos cheios de cicatrizes na alma, ganhava dimensões palacianas. E, como sempre, voltava para o meu alento, vendo nascer, crescer e morrer corpos de musgos cujas almas, ao irromper da noite, eram levadas à força para algum invernadouro florestal e ali permaneciam até o julgamento final, sob a mão anônima de um Deus ou Diabo do mundo verde, que por obra de algum sortilégio justiceiro, decidiria por mandá-los a  uma excursão para o infinito, que poderia ser tanto o Céu quanto o Inferno, acaso tivessem  praticado atos que atentassem contra o Código Vegetal de Méritos.
Em minha ingenuidade, comecei a acreditar que era filha de uma miragem e, que se me desdobrasse, poderia ver a criatura alada balançar na sombra enquanto esperava pela volta de sua filha pródiga. A filha da Mãe Natureza – a padroeira dos que vegetam pacientemente, mas que ainda tem esperanças de resgatar o paradigma perdido da existência humana e compreender o que exatamente atrasa a evolução da raça.
Após anos de isolamento, eu já havia adquirido fluência em conversas com animais não-perfumados e vegetais comunicantes que, entre outras coisas, ensinaram-me um idioma de criptogramas envolvendo cheiros, gostos, toques, imagens, ecos e, àquela altura do torneio de quem silenciaria por mais tempo, eu já falava uma linguagem de sensações próprias dos habitantes do eremitério.
Ansiando talvez, por um aceno, nesta manhã parei em frente aquele prédio. Por alguma razão a vidraça não exibiu teu reflexo. Quis devolver-lhe a chave, mas o coração indicou que (a)guardasse.
Em mais de uma ocasião perguntei-me se o melhor não seria atear fogo naquele palácio de memórias e me consumir com aquela maldição gótica. Talvez a alma daquele lugar tivesse expulsado a minha para ocupá-la com o próprio vazio e meu verdadeiro espírito agora ande pelos palanques das praças, confabulando ideologias de mortos-vivos com um público de estátuas falantes que caíram em alguma fossa oca de mármore, sem que nenhuma delas ainda tivesse suspeitado disso.
Às vezes faz sombra em minha escrivaninha. Normalmente durante as madrugadas. Desliza sigilosamente para o quarto, deita-se na cama e ali fica. Em silêncio, acaricio a sombra, mas não ouso tocá-la. Apenas sigo o seu suave balanço. Temo que ao menor toque, tua miragem se evapore.
Passei a tarde inteira dando voltas por aquela praça, à sua espera. Lembro que, a certa altura, uma silhueta recurvada segurando nas mãos uma lanterna parcialmente coberta por uma capa afastou as cortinas. Um sentinela reluzente de silêncio aparecia na sacada do prédio como a maior alucinação do universo. Meus olhos impregnados de névoa inundaram os seus, no instante exato em que a língua esventrou o mais gravídico: V-o-l-t-a. Mas a miragem esfumou-se antes que pudesse dizer qualquer coisa. Não havia ninguém lá. Ninguém. Apenas uma trilha de cinzas soçobrando entre fragatas encouraçadas das pálpebras.
Naquele mesmo instante, a cidade libertou-se de sua fantasia de oriente, convertendo-se em uma espécie de lenda negra com cabeça, queixo, ombro, quadril e coxas que caíam em um sono pesado, de desistências.
Permanecemos ali um bom tempo em silêncio, eu e a cidade contemplando imóveis, aquele espetáculo de inquietações. Esbocei um sorriso emoldurado de alento rogando para que as luzes amarelecidas da penumbra fossem as únicas testemunhas presenciais de minha apreensão, ao ver aquela cidade abandonar seu posto de feiticeira para cair na tentação  de estrear como "póet brilho" de um "Valse Sentimental", rescaldo de uma nota que emudeceu  ao ver seu idealizador circundar para um túnel de luzes negras ou cinzentas correndo, sereno, ao encontro de uma melodia que teve que fugir às pressas para não cair na mesma fulguração melancólica de "Belle Epoqué", às expensas da glória, já que ele nunca chegou a orquestrar seu "Grand Finale".
Embruxada, a cidade catalogava seu reflexo trincado sobre aquela galeria de espelhos que a chuva formava, embaralhando perguntas em poças que só faziam afundar as respostas. O melhor era deixar que  fossem embora junto com a enxurrada. Esfolava-lhe as retinas não passar pela prova de auditoria do revérbero alheio. E como era difícil  perdoar a negação do outro no espelho, exigir que nos queira de uma maneira outra que não a nossa. Tudo isso, é apenas para dizer, talvez, que às vezes a gente se cansa de tentar descortinar mundos invisíveis aos olhos dos que, por ventura, ainda estejam cegos de sentidos.
Acho que o tempo tem um plano secreto, fala um idioma de segredos e, talvez, por esta razão, não nos seja permitido entrevê-lo. Ou talvez estejamos unidos por um fio invisível que nos faz entrelaçar destinos, em alguns casos, como o meu, de modo obsessivo. Tentando vencer a mudez, cheguei a desenhar palavras para colocar nos lábios do silêncio com a frágil ilusão de que em algum momento, ele se arrependesse de tanta frieza e voltasse para retribuir meu gesto. É quando respeito a sabedoria do silêncio  e digo: eu acho que entendo. E me lembro que nobreza de sentimento é não sucumbir antes do tempo. A recordação é uma estação atemporal.  Não desgasta o que foi verdadeiro porque no tempo de dentro, somos todos eternos. Já aquele outro relógio não passa de um animal selvagem salivando a nossa carne. Não há como nos defendermos. Enquanto isso, envelhecemos.
E, se acaso me perguntarem, direi que sim. Dói ser a personagem  que envelhece, guardando intacto o encanto de quem inventou a chuva apenas para que eu o lembrasse. Há noites em que os pingos da chuva caem na forma de centenas de milhares de sabres espelhados, desembainhados por um feixe de luz contínuo a circunscrever com fios brilhantes um nome que foi perdido no horizonte. A vida, por um fio de brisa. Recordo agora, ele não era apenas um homem de quem eu me lembrava. Era, antes, o homem com quem sonhava. Eu continuarei segurando a tua mão. Com força. Até quando, não importa.  
Não é sempre, mas às vezes me debruço na janela e deixo que aqueles festivais eletrizantes de faíscas me atravessem e quando isso acontece, me salpicam de tanto de brilho. Éramos nós dois ali, sendo aos alampejos. E diante de toda intermitência que a natureza representa, gosto de pensar que seja   para sacudir o peso destes silêncios que nos tem atrofiado os movimentos. Meu coração se enternece, depois de tudo que passamos juntos, em poder suspirar-te assim, tão alumbradamente.
Ainda há pouco, no firmamento, um raio esfaqueou o céu. Como se tivesse sido assaltado por uma fraqueza súbita, seu rosto empalideceu. Das alturas, tomba o azul, já sem forças. Sempre tive receio que essa chuva não fosse deixá-lo ser meu, e que se você não fosse dela, também não seria de mais ninguém.
Há tardes, como estas, de quase Dezembro, em que os pingos da chuva a mim se misturam. E caem com tanta força que fazem mossas na madeira cinzelada da memória. E Chovo. Chovo lagos, rios, e se for preciso, até oceanos, para que juntos possamos  navegar neste sonho. Mas recobro a serenidade e reconheço teus olhos na contra-luz do relâmpago. E descubro com nitidez que em mim, é você quem chove. E te aceno em rebentos, pelo milagre desta flor que só medrou graças à sede que sua tempestuosidade serviu a este amor de raízes. Porque te lembro em segredo. Vi quando guardou as pétalas que escaparam do meu vestido achando que eu não estava vendo. Guardou num pote, que para relembrar o perfume de vez em quando abre a tampa. É quando surgem do nada, todas as borboletas e pousam mágicas no jardim da nossa história.
A brisa do passado sempre volta para nos acariciar o rosto como se quisesse nos descobrir novamente em um sopro. Quem sabe, seja para recordar as crianças de espírito que ainda nos habitam. E arriscaria dizer que deve ser este o motivo para que dentro de  nós haja tantos ruídos. Talvez elas queiram apenas ter com quem brincar, devem se sentir mesmo muito sozinhas.
E a menina, invisível, balança sua saia-de-chita e gira até ficar tonta sob o sereno de prata. Pisa no ar, leva um susto e pára. Era só teu rosto, me vendo: toda iluminada.
Assistindo a chuva de mil tons que cai atrás das vidraças.
É tanto céu, que derrama.


Lídia Martins.

22 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Se o sol simboliza alegria, chuva tem a ver com paixão. Ou ao menos nós temos essa ligação particular com este fenômeno aquoso vertical. Vertiginoso. Caudaloso, como se todo o ser cósmico chorasse o sonho desfeito ou nem concretizado. O pensar abarca todo o universo, o sonho o ultrapassa. O drama humano, ou dos humanos feitos de sentimentos, menos que de células, é nunca perceber essa grandeza no mundo real. Como se os demais seres, ou os que escolhemos para amar, não fossem amplos o bastante para recebê-la.
A chuva tem a dor. Mas também tem um cheiro, uma textura. Algo como um bálsamo fabricado por anjos. Ou talvez para não deixar que morram de vez. Aqueles vegetais. Não os penalizemos. Deus pode ter errado algum cálculo. De capacidade. Pode ser que conserte.
O sonho, o de verdade, é um desejo santificado. A mágica que permitiu a criação, acredito. Tudo um dia coube num espaço infinitesimal. O sonho primordial o expandiu. Os sonhos filhos querem se unir ao pai, mas não conseguem expandir corações. A casca do ovo não se quebra. Isso. O universo é um ovo. Deveria nascer dele o amor, mas algo está ainda errado.
Ou talvez nós e que tenhamos muita pressa.
Eu tenho tanta, minha querida.
Ler-te dá esperança. Enquanto há esperança, há vida. Ovo intacto.

Texto esplêndido

Beijo

z i r i s disse...

Penso que podemos nos falar através de reflexos de espelhos tirilintando no céu, cheios de dizeres que só nossas almas dependuradas nas janelas seriam capazes de enviar.

Essa fluência da qual falas, e que é tão Eu quando leio em ti.

Acabamos por perfumar os animais. E buzinar verdes atrás de vaga-lumes aproveitadores de escuro. Alguns bezouros envernizados de encanto e que seriam apenas insetos, senão pela nossa desatenção ao que dizem planeta. Uns grilos semitonando. Sapos paquerando lua. Louva-Deus gesticulando admiração. Foi tanta chuva que a gente brotou.

E já temos muito para ser, agora podemos ter.

Um abraço prima

Ziris

Nei Duclós disse...

Texto que é uma tempestade, uma varredura no mar, que balança o navio da leitura. Somos candidatos a náufragos deste canto avassalador, que é atração de abismo. Pipa no mar, no ar.

Anônimo disse...

Interessante... É como se cada elemento do texto fosse sendo criado no imaginário de cada pessoa que pode degustar do mesmo.
Pipa... sempre perfeita em suas palavras, sensibilidade, inteligência e delicadeza estão sempre presentes em você.

Beijos no coração

Louies

Blog do MotaMota disse...

linha 11 faltou digitar o acento da palavra saía.

Rafaelle Melo. disse...

Você sempre me emudece. Dessa vez tiraste-me também o fôlego!

Acho bonito quando alguém tem a coragem de ser tão humano a ponto de sangrar. Nem todos tem e tenho acreditado que isso é dom.



"Tudo isso, é apenas para dizer, talvez, que às vezes a gente se cansa de tentar descortinar mundos invisíveis aos olhos dos que, por ventura, ainda estejam cegos de sentidos."

Não se canse. Porque nos ares sempre haverão almas abertas, rasgadas, sangrando o melhor amor.
E dos sentidos que me estão cegos sou tocada, leio-te e não saio igual. Enxergo um pouco mais!

Beijo meu, frô!

Alê disse...

Estou encantado com o teu blog, quanta pureza e profundidade... Não consegui tempo para ler o tanto que eu gostaria, mas irei fazer assim que der..
mas esse teu texto me mostrou uma simplicidade de feitiços que consegue unindo as palavras que todos já temos conhecimento. E sim, a gente cansa, a gente descansa e a gente continua, e o ciclo vai de um lado para o outro, é mágico como tuas palavras.

Beijos e muito prazer.

Fred Caju disse...

Estou de cara aqui com a tua página. Muito boa!

Roberta Mendes disse...

Escancarei a vidraça da alma para que o céu derramasse para dentro, preenchendo de azul tudo o quanto encontrava vazio pelo caminho. Coisas que, depois de encher, derramavam-se também. Antigos repositórios da transparência da alma, agora também azuis. De tanto choveres, todo o cinza lavou-se e restou azul. O céu saiu sacudindo as nuvens de amaciante, como um passarinho de bebedouro às asas limpas. Abriu-as de par a par sobre as nossas cabeças. E porque, a essa altura, incapaz de sombras, fizeram as asas do céu maior claridade. O horizonte é quando o céu brinca de gaivota sobre a térmica do pôr do sol.

Juliana Matos. disse...

Muito bonitas as suas palavras!

Abraços

Juliana

puntoziro disse...

É preciso ler muitas vezes pra viver essa "Odisseia da poesia", parece que estás em vários tempos, num momento único. É belo e curioso, esse instinto que te faz escrever, dizer e chover sobre um personagem que só tu sente e vê.
Mas te confesso que achei lindo (o texto poético) e essa constância de um amor confesso.

Gostei muito de como expressas o que sentes,
Saudações.

Ceres disse...

Pipa, querida, ouvi essa música e tive que lembrar de você, vê se gosta: http://www.youtube.com/watch?v=FX9s_RfEzJE

o nome da música é Tempo de Pipa.
Beijos.

Gislene disse...

Você sabe o que é o Amor Insuperável?
Espero você em meu blog, amiga!

Beijo e uma linda semana!

Gi.

. pamela moreno santiago disse...

Boa tarde.
Desculpa o incomodo, mas venho hoje pedir que olhe com carinho meu blog de resenhas literárias, o O Leitor.
Se puder fazer parte, agradecemos.

Obrigada e uma ótima segunda-feira. Beijos,

Pamela.

Fernanda Deunizio disse...

Pipa, que seu natal seja abençoado.

E que seu voo alcance os patamares cada vez mais altos.

Um beijo, e um sorriso.

Ana C. disse...

passando pra deixar um beijo
desejar Luz
e dizer que foi bom passar o ano entre lindas palavras...

Roberta Mendes disse...

Irmã minha, estabeleça o Natal! Estamos esperando que se acenda sua árvore. E por que pisca? Por que a vida é luz e sombra.

Saudades de você vir ser em público.

dinha'' disse...

Bem, eu tenho temido mudar, Porque eu construí minha vida ao seu redor, Mas o tempo traz coragem; crianças envelhecem, Estou envelhecendo também.(sinopse do meu blog)
Acessa o meu blog?
"Crianças Envelhecem"

http://criancasenvelhecem.blogspot.com/

Espero a sua visita, se gostar do meu blog, segue lá, ficarei muito feliz.
Desde já obrigada, tenha uma ótima semana.
Atenciosamente Dinha".

Fernanda disse...

Senti a mesma dor que tão fortemente te assalta neste magnífico texto.

Vou publicar extracto do mesmo com link para aqui.
Sei que estou autorizada. Obrigada.

Beijo, Lídia.

Leonardo Valesi Valente disse...

Olá Pipa!
Respondendo a um chamamento vim deparar-me a esse encontro aéreo.
Suas palavras desfilando a céu aberto. E os sentimentos convidando voos como se pudêssemos crer na liberdade.
Amei, já estou aqui lendo há mais de hora. Tive o olhar capturado pelos escritos. E antes que eu me entregue aos voos, quis deixar registrado minha profunda admiração por sua escrita.
Abraços, paz!
Leonardo.

Anônimo disse...

sdfsdf

Jr. disse...

Obrigado! Obrigado por este texto.
Sou mais feliz de agora em diante por te lido este texto. Sem demagogia. Olhos banhados de lágrimas por algum motivo que eu nem sei.

Ainda bem que ele está aqui, nas ondas digitais deste mar de informações, ainda que se perca, pode ser que, como diz uma música do Chico, os escafandristas do futuro possam vir e vasculhar nossos destroços, desvãos, e encontrem sua alma, seu olhar, encriptado aqui, nessas palavras, nesses recordes, nessas reconstruções do nosso mundo, nessas poças que exibem mais dúvidas que respostas.

Gosto de olhar o mundo nas poças de chuva. Gosto de outubro, das chuvas de novembro. Das lembras mais tenras, mais tristes, mais especiais, a chuva sempre esteve lá. Quando meu pai foi embora de casa e de em quando em quando voltava para me buscar... de quando escrevi o primeiro verso para bonita mais bonita da escola e ela leu, gostou e guardou, e deste dia em diante acostumei a passar em frente a casa dela e, não raro, a via aos amassos com o namorado - antítese de tudo o que eu sempre fui.

Foi num dia de chuva que vi a vida levar meu avô para sempre. Foi num dia de chuva também o primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro disco da Legião Urbana, o primeiro disco dos Ramones, o primeiro livro do Gabriel Garcia Marquez, a primeira viagem de avião, a primeira vez que eu vi o mar, o primeiro fim, o primeiro recomeço. A chuva sempre esteve lá provocando saudades, nostalgia.