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11.11.2011

Fumaça no vento

Há noites em que meu coração faz uma pequena fogueira e me esquenta. Alimento-a com a lenha da lembrança, única coisa em nós que ainda permanece acesa. Fixei os olhos nas chispas das brasas que se consumiam lentamente entre as volutas da fumaça e os esqueci entre aquelas chamas.
            Um sol escarlate despontava a oeste. Era o sopro do dragão. A faísca de ouro líquido chamuscava as asas dos pássaros que sobrevoavam a cidade antiga. A criatura flambava-os com loucura. Mistérios da paixão (?!)
Ao longe, avisto aquela ilha encantada, famosa por suas belas maçãs, lugar onde o rei foi visto pela última vez brandindo nas mãos a espada que ali foi forjada. Mas tua espada era apenas uma escrava e perdia o fio com a distância, já não valia nada. Lá, mora a solidão de quem ama com transparência e arriscou o sonho para que ele não se misturasse à sombra. Cruzas o rio nesta carruagem imponente guiada por teus unicórnios negros, fonte onde atirastes o coração porque não querias mais amar. Mas ele voltou, pela mão dos duendes, que eu contratei a troco de pérolas de sangue.
Escondo minha alma na montanha e o vejo apascentando sonhos, bebendo orvalhos, indomando ventos. Suspirei-te por um longo tempo. Como agora mesmo, em que debruçada sobre o parapeito da janela, avistei-te entre os confins do reino. Davas de comer aos pássaros no banco da praça sob os auspícios de um chafariz colorido, e nem precisei abraçar-te porque a paisagem enraizava em mim como broto furta-cor noviço, lírio tardio de uma primavera adiada, crescido a conta-gotas de lágrimas sobre ele derramadas.
Abro os olhos quando não quero vê-lo, se fecho te enxergo por inteiro. Mas os avisos do céu nos deixaram apreensivos e tivemos que desenlaçar as mãos, como pássaros fugidios que alçam vôo sem aviso, e acabam dependurados em fios de incertos destinos. Medrava mais uma dobra da nossa esperança e, outra vez, retrocedíamos para os domínios daquela rocha silenciosa que não soube como reinventar a força.
Deslizo as pontas diamantadas dos dedos sobre o teu reflexo, tentando escalar esta planície infinita de sentimentos e temo que tudo não tenha passado de fumaça no vento. Ensaio mudo de olhos que já não se molham, mesmo sob os respingos, são apenas poços secos, restos de um adeus que só agora entrego. Ninguém sabe, mas quando o matei, a terra me fugiu sob os pés. Não existe chão quando se enterra alguém no abismo do coração.
Afastei os cabelos do rosto e deixei que o vento me bagunçasse por dentro. E tinha uma força grande, quente, alada. A força dos que levam tudo embora, a começar pelas tristezas e a terminar pelas mágoas e, com sorte, talvez, quem sabe, retorne de mãos dadas com uma promessa nova. Todas as vezes que esperança me viu partir, ela voltava, ainda que fosse apenas para recompor minha memória.
Ocorreu-me ainda agora, Deus acabou de aparecer atrás das vidraças e está me sorrindo com os olhos cheios de lágrimas. Ainda há pouco mordeu os lábios como se fosse arrancá-los, saboreando esta graça deliciosa que foi descobrir na morte a verve da eternidade, prêmio de consolação dos que tiveram coragem de começar grandes.
Agora as batidas do meu coração tinham outro eco. Eram batidas limpas, sólidas, decididas. Batidas de um coração liberto. Fizestes de mim uma estranha para esquecer-me e hoje é você quem não se reconhece.
Lembra de mim? Eu sou aquela que recortou as nuvens do céu usando apenas a tesoura do vento, enquanto os anjos brincavam distraídos, sob o forro azul do firmamento. Usei o botão da lua cheia, transparente, na tarde esplêndida, para fechar a blusa de um deus moço. Sempre acreditei que, enquanto eu o lembrasse, poderias viver mais um pouco.
Ainda penso que devia existir uma espécie de asilo de sonhos para que eles tivessem onde se abrigar quando ficassem velhos e ninguém mais os quisesse. Esse aperto que tenho é só lembrança de um tempo que não mais me pertence. Agora sou eu e meu rebanho a subir pela encosta do teu sonho.


Lídia Martins

24 comentários:

Blog do MotaMota disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nei Duclós disse...

Texto de grande invenção poética, sedutor, belíssimo, narrativa preciosa. Um rei, um coração e uma deusa rainha da poesia. Bom lugar de ficar este blog agora com novo lay-out. Pipa voa!

Rafaelle Melo. disse...

Li, reli, toquei-te e fui tocada.

Lamentei pelo rei deposto, mas foi rápido. Pensei que ter dó não cabia nesta conjuntura.

Não cabia, porque tuas intensas linhas trazem um manejo raro. Despedida esperançosa. Fumaça que esvai por caminhos de borboletas. Recomeço que não nega as lembranças. Vôo da Pipa, ou melhor, da Fênix. Renascendo bela, vivificada e com um coração batendo liberto.

Lídia, você tem o dom da escrita. E digo isso assim, diretamente, pois assim o é e fica expresso nesse texto cheio de um movimento. E, como teu toten nos lembra, teu poder é RENASCIMENTO.



Peço licença para falar ao rei, que já não tem trono, cetro e nem o coração que por tanto tempo foi seu território,
A vida é feita de ganhos e perdas. Se você ainda não havia se atentado para isso, hoje, ao ler esse texto, você entendeu. Não creio que sejas tão tolo.

IsaBele disse...

Suspiro!

Be Lins disse...

... quão lindo ficou esse seu céu em movimento, toda Pipa merece um céu assim.

Pipa,
sua amiga aqui atravessa um vale escuro muito distante dessas cores divinas, e ainda carrego a tristeza de saber que devo ter sido exatamente eu e minhas escolhas que me levaram pro olho do furacão. Não tem nenhuma mão por perto. Nem a minha.
Eu não consigo mais sair daqui.

Obrigada por escrever.

Beijo

Leo disse...

Minhas palavras tornaram-se fumaça no vento, não as alcanço, não as toco, faltam-me.

Beijos.

Viviane Gabe Souza disse...

Encantada com tua poesia. Menina, que dom que tu tens. Parabéns.

Um beijo

Velho Santiago disse...

Olá! Passo aqui para um pequeno desafio, tão bobo que será surpresa se aceitar. Não sei se sabe, mas o velho aprendeu a daguerreotipar! Imagine! Hoje apenas fotografo... enfim. Adoraria representar com um instante de luz um tema sugerido por você. Topa? Que seu tema seja meu olhar fotográfico e que minha foto seja uma postagem sua dedicado a esse simples velho. Que tal? Se topar, por favor, me dê alguns indícios do que SENTES que tentarei reproduzir em imagem esse momento tão efêmero... Abraço e cheiro de café!

H. Machado disse...

Passo pela fogueira em forma de espuma, misturo-me com a fumaça, tudo vira saudade e, quem sabe, um pouco de paixão.

Be Lins disse...

Tudo lido, relido e absorvido. Voltarei ali sempre. Ainda não acertei o ponto da poção, mas estou trabalhando nisso.

Sobre palavras importantes, altamente significativas,

[depois de você ter tido o cuidado de usá-las comigo com autoridade e grande bem-querer]

que palavra eu uso pra agradecer?
_ Obrigada é pouco, Pipa,
você ultrapassa distâncias com o PODER das suas palavras.

A ESPERANÇA está ougulhosa de ti.

Beijo

p.s.
(foi uma grande demonstração de amizade, não vou esquecer nunca)


*

Be Lins disse...

Só posso lhe dizer
que desejo que todas as suas horas investidas no uso da palavra tragam ainda mais sorrisos ao teu rosto de menina, Pipa.

E como Coruja, vejo
te digo:
Teu poder é ir além,
você caminha o chão dos iluminados.


Beijo

Pedro Antônio disse...

Pipa!!

O seu blog está a cada dia mais lindo!

Me sinto no ar!

Abraçosss!

Pedro Antônio

Velho Santiago disse...

Pipa, aguardo seus sentimentos. E viu, é que nunca disse que seria simples assim.

Se de sonhos construimos nossa realidade, temos que acreditar que o subjetivo pode se transformar num ato maior, terminado.

Sabe porque dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras? É porque para descrever uma imagem em sua instância lógica, figurativa apenas (o que se vê),é necessário utilizar muito de um sistema alfabético.

A escrita descritiva é demorada, longa, e pode enganar se mal feita. Se eu disser que minha camiseta na fotografia é preta, eu posso fazer seus olhos se enganarem caso eu tenha trocado o "a" pelo "e". Eu estava vestindo "prAta".

Por isso, Pipa, a imagem tem um segredinho a mais. Ela guarda escondido também meus sentimentos. Não importa se ali representados, eles estão lá, certamente.

Como saber? É ao que entra seu tema. Ele será o segredo que tentatei esconder naquilo que mostro.

Fique com Deus.

Suzana Z. disse...

Sabe o que acontece comigo? (segredo) Às vezes sonho os mesmos sonhos q tinha qnd pequena...
Acho q existe um asilo p/ os sonhos sim...
Lindo texto.
bjoks

Suzana Z. disse...

Sabe o que acontece comigo? (segredo) Às vezes sonho os mesmos sonhos q tinha qnd pequena...
Acho q existe um asilo p/ os sonhos sim...
Lindo texto.
bjoks

Suzana Z. disse...

Sabe o que acontece comigo? (segredo) Às vezes sonho os mesmos sonhos q tinha qnd pequena...
Acho q existe um asilo p/ os sonhos sim...
Lindo texto.
bjoks

Suzana Z. disse...

Sabe o que acontece comigo? (segredo) Às vezes sonho os mesmos sonhos q tinha qnd pequena...
Acho q existe um asilo p/ os sonhos sim...
Lindo texto.
bjoks

Roberta Mendes disse...

Como tivesse ali um cajado na condição de pastora, riscou o chão. Um círculo que projetava em torno de si a pouca distância de um braço. Mesmo porque o que queria era delimitar-se e não se fazer inatingível. Estendesse a mão, seccionando, assim, a linha imaginária que a guardava, ele a tocaria ainda. Os olhos tangenciavam-se, devidamente embainhados, as lâminas apontadas para baixo, sem se penetrar.

francys disse...

Me lembro um pouco de Fernando Pessoa.
tenha um bom final de semana.

Luana Natália disse...

Simplesmente incrível.

Alvaro Vianna disse...

Eu só sei recortar nuvens em programas de computador. E vou guardar sonhos nas nuvens que as modernas redes começam a oferecer. Não é poético como o que faz, mas se prometem que a realidade do futuro será toda digital - até mesmo os seres humanos - melhor reservar desde já um espaço para o que gente tem de melhor: essa capacidade de imaginar felicidade.
Dizem que tal era não demora. Entretanto, eu sou dos que vão querer construir com sangue e suor legítimos uma alegria que feche com chave dourada a épica aventura biológica. Quero ser feliz no coração. Não sei se software algum conseguirá simular aquele aperto gostoso que a gente sente, mesmo quando apenas imaginamos.

Guilherme disse...

Às vezes a lenha das lembranças consome-se tanto e tudo, que sobram apenas as cinzas, pra nos sufocar. Às vezes também e apenas nos acalenta.

Roberta Mendes disse...

Irmããããã, recebi sua mensagem de eletrochoque sobre o desanimado coracao. O espírito já ía longe. Dei as costas para a luz e fui retornando à realidade escura de existir no corpo e, ao abrir os olhos, dei com os seus e os de Torah, as máscaras ainda postas, toucas brancas sobre o coque de antenas e cabelos. Cada vez mais nítido o som ritmado do frequencímetro, indicando vida. Houve um ligeiro debate metafísico entre a junta médica a respeito de se "vida" seria efetivamente um sinal de melhora. Peguei uma conversa na metade sobre misericórdia e perdões. Devo ter passado mesmo muito tempo longe, deduzi, para não entender bem, não a mensagem, mas seu contexto. No entanto, como confio cegamente nos seus poderes diagnósticos, acatei a prescrição e comecei a listar mentalmente o rol de coisas passíveis de perdão. Ou do amor, que o abole. Descobri que, sim, há que se perdoar o tempo. Há, talvez, que se amar o tempo. Mesmo quando nos torna a nós intempestivos: vagarosos na melancolia, quando o dia era de
festa; precipitados no abraço, quando o dia era de não. Quando
pequena fui precoce. Quando adulta, menina. Não sei reger o
tempo, nem tenho suficiente subordinação para por ele me
deixar reger. Tenho mesmo um certo rancor de marujo ao bater continência ao capitão reluzente por trás do manche dos
ponteiros.Por não saber levá-lo é que, de vez em quando, tudo
me cobra e eu devo, em iguais proporções, ao Senhor do Ser e
ao do Fazer. O tempo encurta nos bolsos, não tenho como saldar
as dívidas. Afianço certezas sem lastro. Falho com tudo e ao
mesmo tempo (ele de novo). Pensando bem, que grande poder
advém disso de perdoar o tempo. Estabelece-se com isso a
medida de sua reciprocidade. Afinal, é a fórmula: "assim como nós perdoamos os nossos devedores". Meu desperdício por sua escassez. Ficamos quites. E podemos, quem sabe, conciliar o
passo e o sono no gomo invertido da ampulheta.

GANG DA RUA 4 disse...

O texto Fumaça no Tempo foi plagiado por Silvia Mendonça (no facebook pode ser encontrado buscando Silvia Mara Mendonça).
Postando o plágio no blog Confissões de uma Golpista.