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8.15.2011

THE FINAL CUT


ESPELHO QUEBRADO. REFLEXO TRINCADO.



Lídia Martins

14 comentários:

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

O HAVER


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo:
— Perdoai! — eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia de simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do Grande Medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do próprio reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.


Daquele. Do Vinícius de Moraes.


Pronto está o marco. E fincada a bandeira. Aquela. Que hasteio com louvor, pelo êxtase de olhar no espelho, e poder reconhecer-me, outra vez: INTEIRA.

Roberta Mendes disse...

Senti urgência em acolhê-la. Pode parecer estranho, pelo fato de não nos conhecermos oficialmente (embora eu desconfie que saibamos mais uma da outra do que muitas pessoas que convivem diretamente conosco), mas a realidade é que me importo imensamente com você. Gosto de você. Cuido de você. Há coisas que penso em face de você e que gostaria de trocar, por suspeitar que você entenderia. De modo que, mesmo não sabendo que números discar, opera-se a chamada. Ou o chamado, se você preferir. Passados tantos anos, talvez você esteja, finalmente, livre da maldição do espelho. Então trincou-se o reflexo? Ouso dizer: a identificação. A imagem já não corresponde mais ao objeto. Desconfio que você tenha ultrapassado esse homem de tantas formas, Lídia, que estar com você representaria para ele estar sempre um passo atrás de si mesmo. Posso deduzir o medo que ele teve de você: não bastasse você ser uma "mulher feita", ainda por cima você é das estonteantes. Seus olhos são quase uma advertência.: Diretos, engolidores. Sua beleza silvestre, desafiadora. Ouso dizer que este pobre coitado precisaria ter o dobro da idade que tem, da vivência que tem, e diria até do tamanho que tem para dar conta do que você representa enquanto experiência.

Roberta Mendes disse...

Isso me fez lembrar uma peça que assisti no CCBB, aqui no Rio, ano passado. Chamava-se "Tempo de Solidão" e lá pelas tantas (a peça era uma linda alegoria sobre o desencontro) a menina, que passara todo o tempo esperando por uma encomenda, finalmente a recebia. Era uma caixa pequena, com seu homem dentro. Não era uma foto, ou um vídeo ou qualquer outra forma de ancoragem daquele homem. Era ele mesmo, só que em outra escala. É como se ele se houvesse tornado a miniatura de si mesmo. E então tratava-se um interessante diálogo, ele questionando-a porque quis viver fora da caixa, crescer para além dela, enquanto sabia que ele não podia, não conseguia, que ele se desfaria ao deixar a segurança das paredes da caixa, que o mantinham pequeno. Ela, que o amava, entristecia-se, porque também já não caberia mais dentro da caixa. Não se volta a ser pequeno depois de haver crescido tanto. No fim, eles se perdoavam por suas escolhas, ambas legítimas: a de ousar crescer para além da caixa; a de preservar-se dentro dela. O imperativo da evolução e o instinto de conservação. São estratégias diferentes do ser diante do mesmo fenômeno chamado vida. Uns, extrapolam-se. Outros, se guardam. Adiam-se. Cancelam-se. Mas há trocas assim, que valem por uma existência inteira. Que marcam, que dividem a vida em um antes e um depois. Se somos a partir de, é que a coisa será em nós, de alguma forma, sempre presente e atual. Daí porque já não é necessário tê-la para vivenciá-la. Superá-lo não é traí-lo, nem desqualificar o que vocês vivenciaram. Prescrevo, na qualidade de maga, o capítulo da Fidelidade, no Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, do Sponville. E foi exatamente o que você conseguiu em seu último suspiro. Queria que você soubesse que "O Último Sopro de Agosto" foi uma das coisas mais íntegras que já tive oportunidade de ler na vida. Só alguém de envergadura emocional gigantesca conseguiria ser tão terno e tão delicado numa despedida, sem precisar recorrer ao artifício de diminuir as pessoas para superá-las. Você arrancou as vestes do orgulho e ficou nua, a nudez da alma, finalmente plena, finalmente justa. Mas o universo das palavras, em sua infinita sabedoria, veio cobrí-la com o seu manto de magia. Por toda parte escapolem as partes exuberantes de ti, que fazem as pessoas te quererem com violência, com o egoísmo dos que têm pássaros em gaiolas, para ouvi-los cantar em troca de ração. Talvez pior. Desconfio que sofres de um terrível mal: as pessoas te querem ser, mais do que te querem ter. E isso é mesmo muito sozinho. Saquear o corpo é uma forma doentia de tentar expulsar-lhe a alma e ocupá-lo com o próprio vazio. Somos um fio contínuo de amores. Toda alma é povoada por um sem-número de personagens a quem aplaudiremos emocionados e de pé, no final. Te aplaudo agora. É exatamente o que você me disse um dia sobre a sua cultura emocional ser mais vasta do que sua cultura racional. Ainda bem que você é assim. Quem não se constela dos afetos que teve e cresce e desdobra-se e transcende-se e aprofunda-se por eles e a partir deles, desperdiçou deploravelmente o infinito. Já abandonaste a lápide, irmã, atravessaste o portal. Não se tem mais que se deter no limbo dessas lembranças maceradas.
Agora diga-nos, Lídia, concentre-se em sua nova condição: como é a vida após essa morte simbólica? Agora, quem sabe do outro lado não lhe espera, já um tanto aflito, aquele que te saberá guardar, teu (por mim) prometido. O homem com quem casarás será o que entender a diferença entre te guardar e te prender e, assim, impedir que se estabeleça o paradoxo, a forma de aniquilar a parte que canta em ti. É preciso saber ser invisível, quando se ama.

Te abraço invisível, irmã amada.
Roberta Mendes.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Roberta Mendes – pensei que não viria.

Senta-te à minha direita, e sopra o mistério aos meus ouvidos.

QUE HOJE EU PRECISO DE SUA VOZ AUTORAL INCONFUNDÍVEL.


Minha alma impoluta:


Inquietas-me. Teus versos, mastigo-os, todos, entre os dentes. E atiro ao passado a pobreza de caveira do ser ou não ser. Cubra-me com teu manto de sobriedade e habita-me. Faço de ti minha casa, extensão escancarada de mim. Como vês, estou nívea. Com você, é possível dialogar no mato e nas estrelas, o ordinário e o extraordinário da vida. Morda-me a sumarenta carne. E mata-me a fome atávica de pertencimento: ao Verso. Que lhe prometo, irmã minha:


UM DIA DEIXAREMOS DE SER SÓ PALAVRA, PARA SERMOS SÓ POESIA.


Do que dissestes, certo foi que.


Partistes-me em cheio o paladar auditivo.

E disto, jamais me recuperarei.


Roberta Mendes,

No espelho. Eu. Você. E aquele olhar avesso. Que parece refletir sempre, o outro lado das coisas.



Pipa. Aquela. Constelada e cravejada de brilhantes, por tua alma transitiva.


Ilumino-te. Iluminas-me. Brilhamos.

::::FER:::: disse...

nossa que palavras deliciosas de ler. Queria ter esse dom!

:::FER:::

Rachel Nunes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rachel Nunes disse...

Ah, eu amo o Edward mãos de tesoura. *-*

Que blog lindo!
Sempre pousarei as borboletas da minha alma aqui.

Beijos

Leo disse...

"Por toda parte escapolem as partes exuberantes de ti, que fazem as pessoas te quererem com violência, com o egoísmo dos que têm pássaros em gaiolas, para ouvi-los cantar em troca de ração. Talvez pior. Desconfio que sofres de um terrível mal: as pessoas te querem ser, mais do que te querem ter. E isso é mesmo muito sozinho. Saquear o corpo é uma forma doentia de tentar expulsar-lhe a alma e ocupá-lo com o próprio vazio."

Pipa querida, o que Roberta Mendes comentou é maravilhoso, e me remete à um trecho de Dostoiévski, olha:

... Mas saiba que é perigoso para você passear sozinha comigo. Muitas vezes sinto a tentação de lhe bater; desfigurá-la, estrangulá-la. E pensa por acaso que não serei capaz disso? Você me faz perder a razão! O escândalo não me atemoriza. Tampouco sua raiva me amedronta. Que me importa sua raiva? Amo-a sem esperança, e sei que a amarei mil vezes mais ainda. Se eu a matar, deverei matar-me também. Pois bem, hei de me matar o mais lentamente possível, só para sentir sem você a dor incomparável de perdê-la. Você sabe de uma coisa incrível? Amo-a cada dia mais. O que é quase impossível. E depois disso tudo, como não quer que eu seja fatalista? Você deve lembrar-se do que lhe murmurei no ouvido anteontem, no Schlangenberg, quando me desafiou: "Diga uma palavra e me atirarei lá embaixo". Ah, se você tivesse pronunciado a tal palavra, ainda duvida que eu não me tivesse despenhado?

(O Jogador, P51)

Já se viram homens a tentarem se delicados com uma flor na mão direita. E já se viram outros homens a tentarem ser delicados com um martelo. E ambos os métodos falharam. (G.M.Tavares)

Te sopro um beijo, pega no ar!

Luzia Medeiros disse...

E enfim saiu de si mesma, despiu-se dos trapos, de pele que ainda te restava. Esfolada viva tu estavas, frágil, irreconhecível, alma vestida de carne, massacrada pela fome incessante das respostas que jamais te chegariam aos ouvidos. Saiu de si, enlouqueceste, ate que a saturação chegasse ao fim, do ar soprar tuas feridas, do coração te aquecer com as batidas, e viva sobraste. Não há mais lagrimas pra chorar, nem tempo pra esperar, o relógio invisível da alma contou seus minutos, a morte se deu deixando-te simples, em tua mais doce beleza. A beleza de estar só contigo, abandonando tudo aquilo que nada era alem de ilusão e palavras que o vento partiu sem dó. És tua de novo, toda tua, recomposta, inteira, e tão forte, que a morte, se esgueirou pra levar o que nao te servia. Tudo cansa, Pipa, cansa ate de restar. Ate que o nada é bem vindo! Porque como diz Gil na canção, um copo vazio esta cheio de ar.
Voe Pipa! Vamos voar!
Bjs e te vejo no ar!
Luzia

Rafaelle Melo. disse...

Lembras, Pipa, quando um dia comentaste no meu blog que havias escutado um grito na madrugada e tinha vindo até mim? Pois foi o que me ocorreu desta vez. O grito veio de lados diferentes e dei um passo para trás para tentar ouvir bem o que ele queria dizer-me. Cheguei aqui e como já não precisava gritar, te ouvi falar calmamente da tua epifania. Ouvi com dor, e por essa mesma razão entendendo a dor que tu me confessou em outros ares.

Essa tua liberdade é bonita, o espelho trincou e entre o vidro escorre a tua vida, nova, antigamente roubada. Mas ser livre está longe de ser apenas essa alegria pintada. Ser livre dói, como um parto para expulsar do ventre a nova vida. Nascer dói, nascer de novo dói mais ainda.

Mas isso a de passar. Talvez o que mude seja a expansão da tua alma para compreender isto, que te era inalcansável no teu cansaço vicioso.

Sabe, Pipa, te toco por vezes tão de perto que por um segundo penso estar falando com uma amiga ao meu lado.
E hoje, como amiga, abstenho-me de mais palavras e te coloco no colo, abraçando em ti um pouco de mim. Um abraço que festeja a liberdade almejada de ser inteira, sorrindo contigo. Um abraço que te afaga. A dor vai passar...vai passar...passar...

Te cuido. Me cuidas. Caminhamos para ressureição.

Sara disse...

coração reinventado ♥

1 abraço

R.D.S. disse...

visitando o seu cantinho.ESTÁ ÓTIMOOOOO

cris photos disse...

Adoro o filme do Edward mãos de tesoura, gosto da frase e tambem gostei do seu blog. bjus

z i r i s disse...

Um dia o Velho Santiago me contou algumas palavras de banco de praça, sobre a imagem no espelho... Não lhe escreverei tudo, apenas o que entendi de tudo. Nem sempre o que vemos no espelho é a real imagem do que vai por dentro. As vezes um aúnica imagem é duas, é mil. Sossega o peito, 7 anos de azar é lenda urbana, já nos basta o amor.


Um beijo