6.06.2011

Acerca de mim






 Imagem: Deviantar't





Baixei os olhos. Mas antes, girei o pescoço com a destreza de um contorcionista de circo como se quisesse satisfazer um capricho íntimo: testar minha flexibilidade diante do vazio emocional que eu estava sentindo. Naquela tarde me vesti como se fosse a um funeral de filmes norte-americanos. Um vestido escuro e assombroso emprestava-me a fantasia de dama negra, mas com delírios de princesa. A caminho da universidade, avistei um casal de namorados que se abraçavam de um modo que parecia ofender os olhares de quem os observavam. Nunca tinha tratado uma cena com tanta delicadeza. Detive-me um segundo para observar se me convenciam a forma como suas coxas escorregadias o procuravam e as dele as recebiam. Emprestei toda a minha atenção àquele festival de faíscas que saíam de seus olhos antes do desfecho eletrizante do beijo. Talvez pelo fértil impulso de algum tesão vespertino que nos provocam aquelas chicotadas no estômago, eles se mordiam como se sentissem uma fome indescritível. A destreza como as pontas dos dedos roçavam seus mamilos, embora interditados por aquela pele élfica de retalhos que os protegiam. Ela se entregava com uma proclamação exaltada, não só de corpo, mas também de alma.  Agateei o olhar, como quem deixa escapar uma pose felina, de expectativa. Levei os dedos até os lábios sem saber se eram as unhas ou as esperanças que eu roia. Às minhas costas, um automóvel cochilava com a graça e o equilíbrio de um flamingo. Segundos depois, o estrondo da buzina soou atrás de mim como um aviso. Arranquei o carro e os olhos da avenida, mas arrastando comigo a alegria que havia no semblante daquele casal, sobretudo, daquela menina. Uma alegria-crime da qual agora eu me sentia a única testemunha, e que  foi capaz de esvaziar toda tristeza que eu carregava naquele dia.  Contudo, não encontrei um modo de explicar as lembranças que passei por cima naquela hora, naquela pista. Se eu paro, me fixo. Tapei os ouvidos imediatamente antes que pudesse escutar o grito rouco daquele caminho. Entre a dúvida de lhe escapar e a certeza de, em algum momento, ter lhe pertencido. 




Pipa.

23 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Muito melhor.

Anônimo disse...

queria ter coragem o suficiente pra não voltar para os braços dele, toda vez que
ele vem e me procura,queria mesmo,mas não consigo, não dou conta,sou uma covarde que perdeu o amor propio Lídia.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Anonymous,

Se uma imagem mental for tudo o que você tem para prosseguir, deixe-o ir.



Abraços.

Leo disse...

Muito bom texto para os dias que virão, o segredo é esse, roer as unhas e pisar fundo no acelerador, fujir de tudo que devora nossa esperança.

Te encontro lá, no comecinho da estrada de terra.

Beijos com abraços!!

Velho Santiago disse...

Pipa. Conheces Campos de Carvalho? Aconselho o "A lua vem da Ásia". Amei.

Wilson disse...

E o ponto? Era morto ou cego?

Seria justo entender que o texto ficou exatamente como a autora o concebeu: ERÓTICO. Não é o livro que que tens que deixar aberto Pipa, é o coração, a vida. A dor de se forçar o esquecimento é tão grande quando a de relembrar a cada momento. Ainda bem que a saciedade triste de uma obra primorosa faz de de você uma vencedora. Você suprime, você emenda, você muda, e nesse click, tudo sobrevem ou sobrevive?


Wilson, seu amigo o terceiro homem.

Long Haired Lady disse...

uma vez eu disse para ele:

eu não quero que você seja meu, eu quero ser sua...

Etiene disse...

uau, que texto.
Ultimamente eu tb tenho visto tantos casais, e essa data proxima já vem me deixando nostalgica.

Sonhando acorada ou não.

sorte no amor pra todas nós.

beijussss

Roberta Mendes disse...

Tudo que fomos, se de corpo inteiro e com o transbordamento de alma que a paixão é, fica plasmado aonde fomos. Por isso, na cidade que já não é a minha, há uma menina para sempre sentada sobre as tábuas da ponte, com as pernas balançando sobre o mar.

Fernando disse...

Curti muito seu blog, achei os posts bem interessantes. Já estou te seguindo... =)

Sara disse...

um beijo
um sorriso :-)
uma flor @>--,'--
para você muito carinho e amor

Cristiano Guerra disse...

Pipa,

Às vezes penso em você como alguma espécie de divindade, daquelas que flutuam no ar e nos dizem as coisas mais bonitas. Você já não é fatástica, moça, é uma lenda.


Um abraço.

Baby disse...

Perfeito!

Pollycléssio Mota Sá disse...

"Se uma imagem mental for tudo o que você tem... deixe-o ir..."
Mas eu vejo muita projeção nesse teu momento de parar no trânsito e observar dois amantes.
Tente abrir novamente as portas do amor, acho que não vai se arrepender.
Polícleto

Rockson Pessoa disse...

Saudade de ti Pipa, na verdade... Saudade de nós!! Bjooo

Giovanna disse...

que texto linda
beijos
likehappydream.blogspot.com

Anônimo disse...

apartir de hoje
eu deixo o caminho livre pra vc,
definitivamente livre!
seja feliz Lídia.

Zoey disse...

emocionante

:$ Carloos ' disse...

Estou passando aqui pra fazer uma visita :]
gostei muito do #blog, volto aqui sempre que puder visita o meu blog, segue ou comenta :} eu sigo de volta, seja bem vindo (a) : http://carlosyurii.blogspot.com/ *--*

Fanzine Episódio Cultural disse...

O Fanzine Episódio Cultural é um jornal bimestral sem fins lucrativos, distribuído gratuitamente no sul de Minas Gerais, São Paulo (capital), Salvador-BA e Rio de Janeiro. Para participar basta enviar um artigo sobre esporte, moda, sociedade, curiosidades, artesanato, artes plásticas, turismo, biografias, livros, curiosidades, folclore, saúde, Teatro, cinema, revistas, fanzines, música, fotografia, mini contos, poemas, etc.
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z i r i s disse...

Porque é nas pontas dos nossos dedos que a poesia de qualquer passado ou presente cristaliza-se.

Em nossos ouvidos a anêmica trilha que animava os tempos. No peito um poder sobrenatural de aterrizar sobre as lembranças sem agredir nossos pés.

Eu ainda não sabia Lídia querida, que tínhamos/temos um vida mais bonita que a dos monges nos altos montes.


Amor, Ziris

z i r i s disse...

Mariquita, dá cá o seu pito. No seu pito está o infinito.

Drummond

rs

placco araujo disse...

Eu sei que eu me repito, mas eu gosto MUUUUUITOOOO das imagens que você cria para descrever os seus "sentires", doce pássara do agreste!!!