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5.31.2011

O Degelo das Lágrimas




Imagem: We heart it





“Mas se você apurar o ouvido reconhecerá que chamo.” Escutei uma inconfundível voz autoral balbuciando.  Foi como uma repentina agulhada de luz a espetar as espessas camadas das trevas. Se era certo que a sua pobreza de haste afilada pudesse não vencê-las, era certo que daquele dia em diante, ressignificasse o sol a estender ondas de claridade sobre as cabeças. Roberta pousou em mim o mesmo olhar com o qual tinha me recebido naquele dia longínquo em que eu tentava limpar as manchas de sangue que, por um infausto motivo, coagularam sob os retalhos flutuantes do meu vestido e nunca mais saíram. Do outro lado, tinha escutado um barulho de vidro contra vidro se contorcendo em formas mutantes atrás das vidraças, num brinde despropositado que só fazem as almas que se sabem estilhaçadas. Embora a hora não me parecesse adequada, fantasiei que se eu parasse diante daquela exuberante torre de mágica sobre a qual se erguia um labirinto de eras e tijolos toscamente dispostos, eu encontraria seu reflexo escavando retinas e fazendo buracos onde não devia. Às vezes tinha a impressão que poderia gritar seu nome de onde quer que estivesse, que o eco da minha voz não seria devolvido, ela me escutaria. Peguei as chaves de um dos automóveis que estavam na garagem e deixei para trás a confusão ruidosa daquela cidade. Passava da meia-noite quando cheguei à porta do edifício senhorial em que ela se refugiava.  Fui sem avisá-la, mas como a luz não estava apagada, aquele foi o sinal a indicar-me que minha visita já era esperada.  Parei diante daqueles portões cristalizados que faziam as vezes de vidraça. Contemplei-me longamente em silêncio. O reflexo me mostrava um corpo abandonado, como se a alma que o habitasse tivesse se evaporado. Subi lentamente acreditando escutar sua voz vibrar no vazio. Seu eco parecia desenhar degraus em forma de espiral convidando-me a fazer a passagem de acesso à claridade. Como eu havia suspeitado Roberta não tinha  deixado o quarto. Auscultei o olho mágico da porta tentando aproximar-me do orifício. Meus dedos fizeram menção de acionar o pesado batedor de metal, mas hesitei um instante como se temesse levantá-lo e não encontrar ninguém me esperando do outro lado. Dei alguns passos para trás, desconcertada.  Toquei a campainha e esperei. Tive que insistir duas ou três vezes até ouvir o rangido da porta e constatar que Roberta aparecia no extremo da sala. Ela parou diante de mim e ficamos nos olhando como dois espantalhos. Tentei reunir coragem para lhe dizer qualquer coisa, mas a saliva havia secado e os pensamentos foram incapazes de formular um único parágrafo. Percebi que algo gelatinoso e turvo gotejava de sua face. Lágrimas.  Como se acreditássemos que a cura viesse por aquelas pérolas  escorregadias que nos entrecortavam as retinas, ajoelhamos abraçadas até implodimos aquele  silêncio maldito, e esquecermo-nos do tempo em que aquelas  feridas se abriram.  Ficamos abraçadas até a luz do dia metralhar as vidraças e formar riachos de claridade nas cortinas da sala. Senti na alma o verdadeiro degelo das lágrimas. Deixamos a luz morna do amanhecer nos emprestar  sua luminosidade, até que a temperatura subisse e devolvesse nossa sobriedade. Na manhã seguinte, nossas almas amanheceram quaradas, como se quisessem se prontificar ao uso, agora, sem aquele cheiro enjoativo de umidade prolongada. Pela manhã, deixamos o apartamento e fomos velejar nas cordas daquele antigo balanço e nos entregamos às iluminâncias daquele céu pasteurizado, desses que só existem quando estamos sonhando, sobretudo, se acordados.  Voa...Voa...Voa... Soprava o vento enlouquecendo os meus cabelos, como se quisesse me conceder num embalo a passagem de volta para a eterna juventude da alma. Levantei a palma da mão num gesto de rendição e perdi-me naquelas alturas. Quando quis descer,  do nada, ela empurrou o balanço ainda mais alto como se quisesse ouvir minhas gargalhadas. Compreendi que os paraísos perdidos estão gravados nas retinas dos  que sonham o voo e acreditam que a luz possa ser alcançada até num sorriso. Falo desses que nos arrancam as pessoas amadas quando querem alforriar nossas asas. Mesmo naquelas noites em que a vista fica molhada  sob o pára-brisa das pálpebras e nenhum limpador parece capaz de desembaçá-las. Sempre que escrevo um texto e  o deito ao lixo, sinto que sou eu quem ali fico. Então fiz o que ela havia me pedido. Retirei-me de lá, desamassei as bordas e reciclei    o grito. Com Roberta aprendi que o gelo é uma forma tão precária como as outras. Ela dizia que sua aparente solidez é uma catedral de transparência, em suarenta ruína. As lágrimas são um estado inevitável, uma latência dessa nossa solidez, por vezes pesada, mas necessária para relembrar o que  nos falta - completei fazendo mais uma de minhas pausas dramáticas. Deixei que escoassem. Deixei que lavassem. Deixei que levassem. Sob a luz intensa que daquele sol interior emanava, levantei os olhos para o céu e detive-me  durante alguns segundos. E o que vi ao abaixá-los, não foi mais aquela ferida negra e sem fundo, o que vi, meu Deus, foram minhas pernas voltando a balançar sobre o mundo. 



P.S.: Com um abraço interminável e a promessa de estrelas que é um céu de manhã, lembra?


Pipa.

12 comentários:

Vanessa Mendes disse...

que palavras *-*

Leo disse...

Gostei da alegria que aqui encontrei, E fizeste o que é certo, as pernas foram feitas pra balançar, dançar...
tem uma frase que se encaixa aqui, é assim:

"Quando tudo estiver em silêncio é que escutarão de verdade e só quando a terra reclamar seus braços e suas pernas é que então dançarás de verdade."

Eis que chegou a hora de dançar, então dance e dance que eu toco uma canção.

Um abraço meu. Um abraço teu.

Fabi Anselmo disse...

E que balancem em belas danças e doces melodias com as quais a vida ainda há de lhe presentear...

Wilson disse...

É só alguém te dar um porque que você já enfrenta qualquer como.
Já dizia Quintana, um bom texto é aquele que nos dá a impressão de que ele está lendo a gente, e não a gente a ele. Seu blog é um ambiente de sublimidades, vibra em tantas energias distintas que não acredito quem venha parar aqui o faça por acaso.



Você é um milagre Pipa.

Anônimo disse...

http://letras.terra.com.br/the-beatles/195/traducao.html

Minha amiga ainda não terminei de ler tua reedição.

Fico feliz por ver que não parou.

Entra nesse link que coloquei e veja minha música preferida dos Beatles.

Quando vi a tradução lembrei de você.

Ah, surpresa. Quero que pela música descubra quem sou e se comunique comigo.

Bjão.

Asas que ultrapassam os domínios do Sol disse...

Pipa, menina e cada vez mais mulher... Nunca vai deixar de ser menina embora elabore o seu jeito de ser mulher. Lágrimas caem como chuva que precisa renovar o céu. . . assim! É assim! Então por isso vejo esse texto como um diamante que não quer deixar a rocha, como aquele que precisa antes de ser uma pedra preciosa, o preciosa da pedra. Lindo vôo e perfeito planagem.
Vc nem precisa ter asas maiores do que estas que são configuradas pelas tuas penas.
Hilda Freitas (agora) Niterói

Roberta Mendes disse...

Por dentro da fachada do título, tanto da cor mudara! Mesmo os espaços, ficaram mais amplos, de modo que meu nome ecoava nos olhos, toda vez que o lia. E o susto de encontrar minhas palavras, tão naturais entre as tuas, apropriadas. Estranhamento do espelho. De me saber criatura tua, tua personagem, eu assimilada à tua imagem e semelhança, senti-me bela e me orgulhei de ser. De nós fez-se profícuo o verbo, a substantivação desta tão rara fraternidade de palavras. Crio a partir de ti. E me recrias.

z i r i s disse...

"Compreendi que os paraísos perdidos estão gravados nas retinas dos que sonham o voo e acreditam que a luz possa ser alcançada até num sorriso."


Percebi que não há outra chance ao curar-se que o abraço fraterno. O nos abraçar ou o nos abraçarmos, duas, três ou mais almas doidas. Nem as estrelas são solitárias. Nem a canção dos grilos, menos ainda suas palavras.

É interminável o sentir, porém mutável.

Abraço

Amanda Lemos disse...

Muito interessante o blog !
É bom ver cada dia que passa mais originalidade nessa Blogosfera
HAHA ;) !
Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir...;

www.bolgdoano.blogspot.com

Muito Obrigada, desde já !

::::FER:::: disse...

Olha sinceramente eu li tudo duas vezes mas não entendi nada.. mas li, sempre leio um dia vou entender se Deus quiser.


:::FER:::

Lais disse...

seguindo aqui *-----
adooorei

Anônimo disse...

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