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6.15.2011

Arranjos do silêncio






 Imagem: Deviantar't




E assisto lenta, essa descontinuidade das retinas... Em mim, tudo o que cala fundo, oxida. Recolhida à prateleira intransponível dos dias, estava olhando, assim distraída, para esse jardim que chamam de vida. Como se a insensibilidade exigisse treino,  pouco a pouco, sem que eu percebesse, meus sentidos  foram  adormecendo. No quintal, a forma estranha como todas as sarças, eras e musgos foram crescendo, devolveu-me uma suspeita que nunca deixou de rondar meus pensamentos. As flores do canteiro  estão morrendo. Até então, não tinha compreendido o quanto desejavam continuar  respirando,  sentindo, e, sobretudo, continuar florescendo. Viver era isso mesmo. Reconhecer a beleza murcha daqueles dias vestidos em cem tonalidades de cinza. Se proteger dos espinhos  secos e modelar no silêncio um grito sem êxito. Esperar que com a mudança das estações se reinventasse a cura, a força, o renascimento. E me deixo. Qual  semente atirada ao vento, que mesmo mudando a direção,  cumpriu  seu destino de germinar o grão. Disfarço a desordem dessas lágrimas, que de tanto entornadas, deixaram as rosas cálidas. A dor de não poder mais florir, era o aviso do momento. Nos olhos, dois espantalhos pousados onde, outrora,  costumava passar a voz deposta do vento.   Dói-me até as entranhas limpar as feridas do ego. Os dedos eram agora agulhas. Costurando em segredo, os rasgões da pele com a infinita linha do tempo.




Pipa.

24 comentários:

Alê disse...

Você 'costura' as palavras de modo que me é impossível desprender os olhos delas...

E as minhas entranhas ficam impregnadas delas


Doce! Doce! Doce!

Cabral disse...

:) que bom é ver o seu formão desgrudar as cascas das letras, deixando só aquilo que cola aos olhos e às almas. Que sua lâmina não perca o corte nem a ponta. Continue afiada menina. Um beijo.

z i r i s disse...

C´est vrai!

É o mesmo silêncio que antecede o amanhecer, este teu silêncio de lábios. Não há que disfarçar a lágrima quando ela é testemunha de um passado que ainda que por vias doridas, faz-se lembrança. Rega tuas rosas com sua prosa cheia de aroma. Viver é ainda maior. E você contornou todos os becos que eu mesma acorvardei-me em visitar. Vida!


"Meu verso é minha consolação" Drummond


Ziris

Wilson disse...

Diz aí Pipa, como está a sua preparação física para as olimpíadas?


Lídia, exercer seu poder sobre a literatura para manter vivas pessoas que já se foram pode não ser uma boa saída. Mas aplaudo a tentativa de reecrever-se das cinzas e estabelecer uma nova escala de valores, ainda dessa história, apenas você participe. Dar voz ao passado Lídia, não é uma obrigação, é uma opção. Sei que as dúvidas sufocam, mas há situações em que as perdas são irreparáveis e isso é evidente em todos os seus textos. O incômodo que causas é sempre um ponto a mais. Talvez a favor. Eu já me escondi atrás de aparências para manter vivas esperanças que no fundo no fundo, aos olhos da sociedade eu queria esganar. Agora minha fia, tou chegando a conclusão de que voce escreve para camuflar o prazer masoquista de ver o leitor agonizar. É sufocante ver essa sua britadeira dinamintar pedra na montanha. É um sufocamento prazeroso. Mas cá pra nois fia, pra melancolia, ando sem fôlego.


Wilson, seu amigo, o terceiro homem.

Fabi Anselmo disse...

"A dor de não poder mais florir, era o aviso do momento. "
Compartilho da tua dor, garota das nuvens! Que o alívio não tarde, pois sei que ele vem!

Te vejo lá em cima!

Bjus

Roberta Mendes disse...

Mesmo as dores se irmanam no vidro da alma com que nos cortamos, sempre que nos trincam emoções assim. A lágrima mina das rachaduras, tua flor líquida de sal: brotando.
Te abraço desde os olhos,
RM.

Pollycléssio Mota Sá disse...

Quando andamos à beira do precipício, temos medo, mas não de cair, e sim de termos vontade de pular. Penso que assim acontece quando observamos uma semente morrer para germinar.
"O argumento decisivo que impediu as pessoas de tomar um veneno, em todas as épocas, não foi que o veneno matasse, mas que tivesse um gosto ruim" F. Nietzsche.
Por que temos tanto medo da passagem?
Eu vejo o modelo da semente como um "argumento" natural de que existe eternidade. A semente morre mas gera um vida nova, uma espécie de continuidade.
Não faço apologia à morte, mas falo da consequência natural dos seres vivos...

Mima disse...

Poxa... a gente sabe que um texto é bom quando a gente o lê e deseja tê-lo escrito. Vou voltar outras vezes e ficarei te seguindo.

Parabéns.

Amanda Lemos disse...

Gostei bastante do Blog.
Muito interessante !

É bom ver a cada dia que passa mais originalidade nessa "blogosfera". :)

Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir..;
http://bolgdoano.blogspot.com/

Muito Obrigada, desde já !

Cris . disse...

ai que falta que senti da Pipa,
to voltando aos pouquinhos com o blog, preciso da tua ajuda pipaaa, rs.
abraaço meu *-*

Mariane Braga disse...

Olá! Sou seguidora do seu blog e meu blog mudou para um novo endereço: http://blogcognicao.blogspot.com/



Obrigada, abraços!

Ana C. disse...

passando pra ler um pouquinho
e desejar um bom feriado...
beijos... e flores

Mulher Vã disse...

A gente some, a gente volta e encontra as coisas do mesmo jeitinho. Ou seja, voce se banhando em lágrimas metafóricas e se arranhando em cacos de coração despedaçado!
Ahn vá!
Será que ainda não deu o cu pra passar?
-

Seu texto parece uma perfeita obra de Munch, quando li, vi na minha frente talvez o final de uma primavera dolorida, ou sei lá um outono em que as flores estão mais secas.

(...)Dói-me até as entranhas limpar as feridas do ego(...)

Ego ferido é isso aí fia!
-

Voce continua linda e poderosa, como sempre.

Um beijo e não acostuma senão te pego!

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Querida Vã,


Acharão, algum dia, a cura para mentes perversas? arrisquei timidamente.

Vou falar com a sua família para tentarem denovo lá no hospício. É que te deram alta quando você ainda achava que era um porco-espinho. O uso indiscriminado de adjetivos deixa claro que ainda não superou o passado, continua cuspindo e dizendo palavrões, de preferência, os mais baixos. Sua volta milagrosa, (escandalosa) aos ares devolve-me a suspeita de que está totalmente curada. Você é uma espécie de maldição. E dessa vez, sentada no alpendre da minha casa.



Te abraço com horror.

JasonJr. disse...

Doninha Pipa, eu adorei "as meninas querem sonhos" aqui ao ladinho. :D :D :D
Ótimo feriadão!

Leo disse...

E eu aqui, já não consigo conter as pálpebras, elas se fecham, como quem sente queimar a dor por dentro. Mas eu, que tenho asas degradês, não consigo deixar de ver que a esperança ainda vive entre as linhas, e do tempo, se farão presente em nossos sorrisos.

Beijos, mais que queria Pipa!!

Mulher Vã disse...

Hahahahaha!

Saudade sua, broaca!
Mas agora nem posso conversar, acabei de chegar e tô indo acabar de vez esse bendito feriado!

Beijos ;)

Ps: Rô Mendes, tambem é deliciante te verrr! Vou responder seu email!

Fernanda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernanda disse...

É a primeira vez que passou por aqui e já adorei o primeiro texto que li. Você escreve muito bem!
O meu jardim ainda está em desenvolvimento, mas já sinto umas ervas daninhas aparecendo aqui e ali. Espero encontrar um jardineiro disposto a tirar todos esses males que carrego.

E o tempo vai passando...

Blogueiros Literários disse...

O projeto Blogueiros Literários fora criado no dia 15 de novembro de 2010 com um intuito: Divulgar blogs literários. Com nova moderação e idéias renovadoras, o Blogueiros Literários está aqui para divulgar escritores que possuem magníficas escritas, mas estas pouco conhecidas ou até mesmo descartadas por tantos internautas. Dentro deste projeto, fazemos alguns concursos, semanais e mensais.Informe-se e tenha seu blog divulgado, qualquer dúvida, entrem na comunidade e deixem sua dúvida no tópico direcionado ao mesmo ou no orkut, além de poder realização sua inscrição para o concurso literário .

Blog: http://blogueirosliterarios.blogspot.com/

Comunidade do Orkut : http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=109408320

Fé Fraga disse...

Pipa flor querida,
Há tempos não passo por aqui, e vejo que seu cantinho continua com o mesmo encanto que me arrancou pela primeira vez ao ler-te.
Sabiamente vc tece a alma com as palavras.
Te abraço com ternura.
Fé Fraga.

Ceres disse...

"Quem sabe, a vida é não sonhar..."

Chorar faz parte, mas que você fique triste "por um dia e não o ano inteiro".

Eu ando pelo mundo prestando atenção, nas pessoas e tentando entendê-las e ver pessoas pensando e fazendo coisas boas, feito você, me faz acreditar que ainda há coisas boas que eu ainda tenho que entender e eu tenho a impressão que aí as coisas ruim que me deixam triste agora não vão mais fazer sentido.

Beijos, Pipa.

Shuzy disse...

Se florisse o ano todo, a primavera não seria tão especial...

(*=

Flávia Escarlate disse...

Parafraseando a Mima, eu diria que sabemos quando um texto é bom quando o lemos tendo a nítida sensação que poderíamos tê-lo escrito. O primeiro texto que li seu foi este, o último postado. Também compartilho de sua dor. E te entendi perfeitamente quando disseste que "viver era isso mesmo. Reconhecer a beleza murcha daqueles dias vestidos em cem tonalidades de cinza. [...] Esperar que com a mudança das estações se reiventasse a cura, a força, o renascimento."
Profundeza é o que vejo aqui, de cima. Bom vôo! Beijos escarlates.