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Deviantar't
Carta de Roberta Mendes para mim.
Blogue: Palavra em Fuga
"Desde
os olhos, mas só quando deixavas a alma ficar debruçada no parapeito dos
cílios, olhando perigosamente o abismo de pessoas que cruzam a rua erma em que
vivias. Sem ainda levantar os olhos para os teus, para certificar-me de que
eras tu e de que me vias, eu intuía a densidade de tua presença, com as
ramificações periféricas do órgão do sexto sentido - o sismógrafo que registra
a intensidade dos mais sutis movimentos interiores, sejam próprios ou alheios.
Era uma perturbação sutil na superfície do copo d'água, como se o remo que o
provocava ainda estivesse longe. Com um olho fechado dos que perscrutam,
aproximei o outro da abertura do copo: uma minúscula borboleta, quase apenas um
grão de voar, de asas não inteiramente eclodidas, debatia-se na superfície. Eu
sabia o quanto era insuportável viver na superfície e por isso empurrei-a com a
ponta do dedo para o fundo do copo, onde ela poderia, finalmente, respirar,
como de fato observei que fazia, pela efervescência que, pouco a pouco, tomava
conta da água. Primeiro, pequenas bolhas, como se hesitasse em levantar
fervura. Depois, bolhas maiores, que se desprendiam do copo e revoavam janela
afora, estourando, no mais das vezes, a pequena distância, tão logo entravam em
contato com a transparência azul. Assim, corri à rua, ao encalço da bolha
maior, esta que a borboleta-grão tomou como nave para escapar à estreiteza do
copo. Suas asas incipentes propulsionavam desgovernadamente o voo da bolha por
dentro, a alguns, poucos palmos da minha cabeça. E foi assim que vi, por trás
das asas cintilantes da borboleta, tua alma-irmã debruçada à janela. Como soube
que eras tu, perguntaste-me depois. Brinquei que ninguém fazia silêncio assim,
com tanto estardalhaço, tentando quebrar o gelo. Mas teus olhos se estilhaçaram
de lágrimas e eu entendi que não era ainda a hora do riso. Mostrei, então, no
pedaço amassado de papel que trazia no bolso, a parte da palavra que estava
comigo. Foi aí que lembraste que, quando despertaste à beira do Rio, numa
pequena canoa em que vagaste à deriva por muitos e muitos anos, trazias em
volta do pescoço um pingente-relicário, que entesourava um recorte de palavra.
Cada pedaço era uma palavra inteira e, ainda assim, a irregularidade das bordas
rasgadas do papel imploravam uma complementaridade de encaixe. A mim tocava uma
constância escura. A ti, ai de ti: o turbilhão. Abrimos, ao mesmo tempo, a
palma da mão, com a palavra-pedaço que carregávamos dentro. Eu, sempre. Tu,
viva. "
Roberta Mendes

Um comentário:
Saber que você existe
E que posso contar contigo
É o suficiente para saber que
Não estou sozinha.
Amizade é isso:
Doar-se sem reservas.
Amizade sem fronteiras é:
Sentirmos espontaneamente
Que o outro não é uma simples pessoa
Mas um ser muito especial
Que chamamos de amigo(a)
Não por chamar mas por de fato o ser
Quer seja no virtual ou no real
Sempre é bom o ter.
Tenha uma linda semana bjos.
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