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4.10.2011

Do Encontro




Imagem: Deviantar't





"Desde os olhos, mas só quando deixavas a alma ficar debruçada no parapeito dos cílios, olhando perigosamente o abismo de pessoas que cruzam a rua erma em que vivias. Sem ainda levantar os olhos para os teus, para certificar-me de que eras tu e de que me vias, eu intuía a densidade de tua presença, com as ramificações periféricas do órgão do sexto sentido - o sismógrafo que registra a intensidade dos mais sutis movimentos interiores, sejam próprios ou alheios. Era uma perturbação sutil na superfície do copo d'água, como se o remo que o provocava ainda estivesse longe. Com um olho fechado dos que perscrutam, aproximei o outro da abertura do copo: uma minúscula borboleta, quase apenas um grão de voar, de asas não inteiramente eclodidas, debatia-se na superfície. Eu sabia o quanto era insuportável viver na superfície e por isso empurrei-a com a ponta do dedo para o fundo do copo, onde ela poderia, finalmente, respirar, como de fato observei que fazia, pela efervescência que, pouco a pouco, tomava conta da água. Primeiro, pequenas bolhas, como se hesitasse em levantar fervura. Depois, bolhas maiores, que se desprendiam do copo e revoavam janela afora, estourando, no mais das vezes, a pequena distância, tão logo entravam em contato com a transparência azul. Assim, corri à rua, ao encalço da bolha maior, esta que a borboleta-grão tomou como nave para escapar à estreiteza do copo. Suas asas incipentes propulsionavam desgovernadamente o voo da bolha por dentro, a alguns, poucos palmos da minha cabeça. E foi assim que vi, por trás das asas cintilantes da borboleta, tua alma-irmã debruçada à janela. Como soube que eras tu, perguntaste-me depois. Brinquei que ninguém fazia silêncio assim, com tanto estardalhaço, tentando quebrar o gelo. Mas teus olhos se estilhaçaram de lágrimas e eu entendi que não era ainda a hora do riso. Mostrei, então, no pedaço amassado de papel que trazia no bolso, a parte da palavra que estava comigo. Foi aí que lembraste que, quando despertaste à beira do Rio, numa pequena canoa em que vagaste à deriva por muitos e muitos anos, trazias em volta do pescoço um pingente-relicário, que entesourava um recorte de palavra. Cada pedaço era uma palavra inteira e, ainda assim, a irregularidade das bordas rasgadas do papel imploravam uma complementaridade de encaixe. A mim tocava uma constância escura. A ti, ai de ti: o turbilhão. Abrimos, ao mesmo tempo, a palma da mão, com a palavra-pedaço que carregávamos dentro. Eu, sempre. Tu, viva. "


Carta à Pipa.

Noite. Domingo. Abril. 2011.

Daquela, a Roberta Mendes. 

 

P.S.: Eu teria aberto o peito com uma faca, não fosse o antídoto que trouxestes no frasco, para devolver-me a pena e a palavra. Viestes e fostes, mas não sem antes compreender que a única maneira de vencer a minha porta, seria derrubá-la. Limpastes a ferida negra e sem fundo com toda calma. Ficastes. Quando todas as outras pessoas teriam fugido apavoradas. Nunca saberei se para sempre ou por um tempo. Mas naquele momento, tua presença me bastava.




Pipa. A que. (perdeu a fala).

Um comentário:

Julliany kotona disse...

Saber que você existe
E que posso contar contigo
É o suficiente para saber que
Não estou sozinha.

Amizade é isso:
Doar-se sem reservas.
Amizade sem fronteiras é:
Sentirmos espontaneamente
Que o outro não é uma simples pessoa
Mas um ser muito especial
Que chamamos de amigo(a)
Não por chamar mas por de fato o ser
Quer seja no virtual ou no real
Sempre é bom o ter.

Tenha uma linda semana bjos.