4.06.2011

Desde os olhos





Imagem: Deviantar't




Caía a tarde sobre a cidade e com ela a esperança de que os desejos soprados aos dentes-de-leão se realizassem. Mas isso não foi possível. Uma eternidade mais tarde, o outono cobriu as ruas de folhas e flores que se desprendiam das árvores e rodopiavam nos ares como um furacão bíblico. Ao longe, se ouviam os gritos de crisântemos antigos que nem suportar o peso das pétalas conseguiam. Os pulmões do ar se expandiam como se quisessem libertar a terra daquela fantasia de aquarela. Comecei a suspeitar que com apenas um sopro, o mundo viesse abaixo indiferente à memória das pedras. As notícias do outro canto do mundo eram de fome e frio. Entre catástrofes sobrenaturais e ameaças nucleares, as guerras eclodiam, assentindo aos sinais de heróis que mandavam jovens e velhos para a morte em nome de um Deus que sequer acreditavam que existiam. Como se nunca tivessem dormido, as ruas sonâmbulas convergiam possuídas por uma fúria indizível, povoadas apenas por uma reverberação de insetos com maus hábitos, que apareciam e desapareciam do nada, como em um truque tenebroso de mágica. Como se alguém tivesse aberto todas as portas e janelas, as cortinas ondulavam como peixes de papel numa maré de ventos e restos. Nas horas em que conjecturava se o mundo não estaria acabando, muitas vezes parava para pensar se o encontraria no toque de um estranho. Ledo engano. Sempre que outro alguém me procurava os lábios, lia neles uma sílaba indecifrável, pecando pelo excesso de verbos no passado. Quando as últimas folhas do outono caíram, comecei a suspeitar que eu tivesse acontecido. Desde os olhos, desde o início, era pelo seu nome que eu chamava antes que a realidade me adormecesse os sentidos. Tal qual o outono, uma estação tão inóspita, que todas as coisas deitam ao chão, como se estivessem mortas, e não precisassem mais do que de um ombro amigo para amenizar seu luto antigo. Era assim que eu estava me sentindo. Da varanda de meus olhos frios, um desconhecido busca um amor irrefletido. Entregue às eucaristias de afetos passageiros, entre confidências e promessas que jamais se cumpririam, o destino ia prosseguindo vez ou outra desviando sua rota. Quando percebi que ele não tinha o mesmo cheiro do príncipe de minhas histórias, fui embora. Sempre que outra mão me toca, despetalo como uma rosa que o vento deflora. Fez-se uma pausa no momento. Ao virar a esquina, dei uma última olhada naquele céu cinzento, como se pudesse dobrá-lo com todo cuidado para não amarrotá-lo. Caminhava devagar, arrastando-se pela sombra dos sonhos que inventava. Nos braços do tempo, aos poucos, esquecia a pressa. Mas não tinha perdido na espera, a tremura invisível das pernas. Como um verso que se confia às mãos de um escritor altivo. Tentei em vão lhe oferecer palavras que não existiam. Procurei pela minha caneta. Ela tinha desaparecido. Nos passos perdidos de meus versos, o que tem fome de olhar aparecia para reconhecer os seus, como se tivesse escapado das páginas de um livro do qual passou a vida inteira fugindo, para me devolver a caneta prodigiosa de uma história, ou um conto indeciso que só ele poderia dizer como e quando poderia ser escrito.Vi quando pousou suas mãos em meu peito, como se esperasse encontrar nele o seu paradeiro. Depois foi embora com as sombras do mesmo jeito que veio.  Não aceitar a perda. Foi esse o meu erro. Você me ama? - improvisei. Essa é a última vez que pergunto. Fez-se um silêncio mortal. Fiquei apenas com as contas e os números.


P.S.: Título de autoria:Roberta Mendes.

Texto: Pipa.

16 comentários:

JasonJr. disse...

:D Voltou! :D

Anônimo disse...

Não consigo acessar meu email, então vai anônimo mesmo.

Depois de ler este texto senti um frio que congelou todas as partes do meu corpo, inclusive os ossos. Já vi de tudo em minha vida, mas advogados que abandonam seus trabalhos para escrever versos para os quais não ganham nem dinheiro, é desespero. Você voa alto demais Pipa, e pra quem se atira, guarda isso: o tombo é feio.

Como está o tempo hoje, querida Pipa?


Wilson,seu amigo, o terceiro homem.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Exatamente como descreveu: para picadeiro.

Walquiria disse...

"Não aceitar a perda. Foi esse o meu erro."

E a gente segue errando quando as perdas acontecem... É natural.


Bjs doces


P.S. Sou tua eterna admiradora. E é aqui que encontro beleza...

z i r i s disse...

O fim é vertical. Mas estamos pelas extremidades de dois hemisférios, ligadas. Não diga nada, apenas me abrace. Eu te dou a mão. Todos se enganam. Chora. Mal não faz. E escreve. Se cura.

Te amo!


ziris

::::FER:::: disse...

FORMIDÁVEL... EU SOU DESCABELADO PEO VENTO SEMPRE QUE CHEGAM( muitas vezes sou derrubado), muitas partes de mim vão a esmo...


>>>FER<<<

Alicia disse...

Eis que perdemos as perdas, um dia.

Alvaro Vianna disse...

Leio até as bulas. Esses seus textos bem que podem ser bulas, mesmo. De remédios fabulosos. Só que para um mal sabidamente sem cura.

Pena.

Bjs

Roberta disse...

Ufa, ainda bem que voltou! Eu já estava com o bico torto de soprar ;-) Por um instante, pensei: ué, ela não disse que era para nos vermos no ar? Tsc tsc, não vale deixar os convidados esperando ;-)

Esfreguei os olhos ao ver o título, pelo susto do efeito espelhado. Eu? Você.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Roberta? - chamei.


Você está deslumbrante neste corselete de escamas de peixe. Da sua alta torre, escuto o concerto de tantos pássaros diferentes. Estive pensando em fazer um safári e ocorreu-me a ideia de perguntá-la se não queria vir junto. Ando dada ao esporte de caça. Podemos caçar um novo Monstro, o que acha? Damos um tiro em sua cara, arrancamos a língua, os ouvidos, os olhos, e por fim, o recheamos de palha.



Diz aí se aquele de cacau não ficou bom em minha parede laminada?

No espelho,

Eu.Você. E aquele olhar avesso.

Que parece refletir sempre o outro lado das coisas.

Ju Fuzetto disse...

Pipa. O vazio está lá, por entre as sombras. A perda é uma prece perdida. Um eco sem direção que se desintegra no mar. No abismo.
E cala.

Um beijo linda

Roberta Mendes disse...

À taxidermia do monstro, então! Cantando, é claro, a plenos pulmões a catártica "Eu não sonho mais".

É impressão minha ou seus olhos ganham brilho de faca-só-lâmina enquanto grita:

-- "E tinha justiça nesse escarraaaar!"

Juliana Matos. disse...

Pipa
suas palavras e a imagem se encaixam perfeitamente..
lindamente!
Um beijo da Ju"!

Francy´s Oliva disse...

Acredito com as perdas sempre ganhamos alguma coisa!
Ah, adorei os blogs Poesia na madrugada e palavras em fuga.
bjs

Julliany kotona disse...

Gostei do blog,e estou a te seguir eu sempre estarei por aqui a te lêr e comentar bjos de bom domingo.

Dona Cor disse...

'Quando percebi que ele não tinha o mesmo cheiro do príncipe de minhas histórias, fui embora.' Adorei essa parte =)