4.06.2011

Do que me faz acreditar





Imagem: Deviantar't




"Pipa querida, tire imediatamente esse travesseiro do rosto e saia já desta cama! Eu sabia que você andava dormindo mal e por isso te aliviei, acionando muitas vezes o snooze do seu despertador. Agora, porém, quem anda alarmada sou eu: vc deixou há dias comentário no Palavra em Fuga, caudaloso como só o seu céu sabe ser, e anunciou, paradoxalmente, bloqueio literário. Lá me ponho eu em vigília, a checar a temperatura do seu blog, hora sim, hora não. Vi de cara que a sua pressão estava baixa, logo decidi aumentá-la, ou pelo menos aumentar a pressão sobre a sua volta. Nesses casos, o chá é mais recomendável que o café. Beba devagar, que ainda está assoviando por um eco de chaleira, Evitei trazer um chocolate quente, para não invocar a memória proustiana do seu monstro de estimação.  A propósito de café, não sabia que vc tinha treinamento de investigadora. No meu tempo, não ofereciam essa eletiva na faculdade de Direito. Talvez até vc possa me explicar qual a vantagem estatística desta técnica de acender um holofote perante as íris contraídas do investigado, quando é sabido que, no escuro, as pessoas revelam tanto mais de si. Agora me diga se não ficou fashion essa franja repicada que improvisei no macaco. Acho até que disfarçou o prognatismo da mandíbula, concorda? Sabe que nunca investi em minhas habilidades manuais? Estou considerando abandonar o direito e a escrita para me dedicar só a isso. Pronto, vou deixar a bandeja na sua mesinha de cabeceira. Se gostar dos amanteigados, volto amanhã para trazer mais. Mas em formato de estrela. Hoje, só os de coração. " Abraço-curativo, Roberta Mendes.




P.S.: Essa é a dona do Palavra em Fuga. http://www.palavraemfuga.com/ Uma leitura que faço com prazer. Ela usa esse nome, porque as palavras se encondem dela, sabem como é: por medo do que ela tem a dizer. Coitada, foi levar flores no túmulo da Pipa, mas nem sabia onde ela estava enterrada. Roberta, são sete mil oitocentos e setenta e três metros nessas paredes. Eu já contei um punhado de vezes. Sobre o holofote, queria me perdoar, eu só queria propor um duelo entre a luz e a treva, já que nem eu nem você nos separamos dela. Sobre a franja que improvisou no macaco, nem pense em investir em suas habilidades manuais, olha só que estrago! Ei, me traga  brioches para o café de amanhã de manhã, esses amanteigados deixam na boca um gosto amargo. Se não gostou do comentário, basta rasgá-lo. Vou arranjar outro Monstro de estimação pra mim. Vou sim. Sabia que  (aquele de quem não falamos, rs) me perguntou se você era solteira? Decidi matá-lo antes que a resposta chegasse aos meus lábios.



Me salvas.
Te salvo.

4 comentários:

Roberta disse...

Pipa, Pipa, você é única :-)

Vamos ver se da cartola saem, além de coelhos e pombos, uma fornada de brioches! Tchan-naaaaan!

Desculpe, só croissants :-(

Mas com recheio de luz e trevas, isto é, chocolate branco e amargo, bem como vc gosta ;-)

Cócegas na alma! Agüentas? (as sobrancelhas arqueando, em ameaça galhofeira) Tenho um clown dentro de mim que se alimenta dos risos provocados. Agora, sim! Vou de barriguinha cheia ;-)

Abraço-te aos pulos, numa grande alegria reencontrada.

- Roberta

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Roberta,

Jogue fora esta cartola.

Nada estará bem, enquanto não passarem os efeitos dessa "voltarem com vodka."

Obrigada por ter tentado. Mas não vai conseguir sorrisos. O Monstro me arrancou os dentes. Tenho só uma cicatriz no lugar dos lábios.



Um suspiro desamparado.

Roberta disse...

Só mesmo a minha sensibilidade de elefante para me fazer trazer essa cartola despropositada quando é tão claro que o caso é para torniquete. Perdão, irmã minha.

Venha logo morar aqui. Assim, cuido de vc mais de perto. Se é que se pode ser mais íntimo de alguém do que pelas entrelinhas,

Escreva, escreva, escreva. Que é uma forma de exudar os cortes. E de reinventar as terminações dos nervos depois das amputações.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Bem, agora que ela foi embora, vejamos o que tem nesta cartola:


Um saltimbanco de dentes encouraçados, um malabarista de seis braços, 250 gramas de pó de pirlimpimpim para ficar invisível diante de situações embaraçosas, um pombo correio com uma corrente de ferro no tornozelo, um coelho desdentado, um pandeiro, uma galinha que bota ovos de brinquedo, um colírio de estrelas, um fogão aceso, uma chaleira sem chá, um LP da Maria Bethania – Excepcional... me deixa escutar – “Acorda. Vem ver lua, que dorme, na noite escura.” Não. Não. Essa não... Pode parar. Quem nunca tomou um porre escutando essa música? Eu já. Acho que não vai sair mais nada. Espere. Um pedaço de papel. Está em branco. Será um enigma a ser decifrado?

O silêncio é necessário. Não para esquecermo-nos, mas para nos lembrarmos.


Te abraço com grandeza.