19.3.11

Devotos da Santa Paciência





Imagem: Deviantar't





A começar pelo ânimo e a terminar pela sola dos sapatos, a espera tem propriedades sulfúricas. Está mais do que comprovado. Uma eternidade mais tarde, depois que o tempo corroeu sua paciência e sua  boa vontade,  nessa ordem, o Monstro de Chocolate compareceu ao encontro marcado.  Após estudar as agravantes de duas horas de atraso (recito aqui o adjetivo da maior engenhosidade literária, desculpe,  ordinário), conjecturei se aquele anteprojeto aristocrático  não refletia o mesmo aspirante a latifundiário dos anos passados. O motivo do encontro: um simples almoço para confraternizar uma reunião de trabalho. A espera se converteu em pânico, quando ela viu o que ele tinha colocado no prato. No princípio,  pensei numa espécie de lavoura chinesa em que a alface e o tomate eram os operários que se juntaram às cenouras  e aos brócolis para encabeçar o movimento dos legumes que não foram devidamente higienizados, na esperança de reivindicar ao rolinho primavera (parente espiritual da família de pasteis com legumes fritos, mas sem qualquer formato), que lhes proporcionassem melhores condições de trabalho. Recordo-me especialmente de um exército de cones de algas recheadas barrando a entrada  do garfo, tendo em vista que um camarão decidiu bancar o Sensei Ortodoxo, usando golpes sofisticados de artes marciais depois de ter sido mesclado com uma tarja preta de molho shoyu, sendo que, ao final, o macarrão acabou levando a melhor por ser o mais rico em carboidratos. No canto superior direito, havia um polvo descansando seus tentáculos junto a um broto de alho refogado. O palmito, lançava a todos um olhar de hostilidade, bancando o juiz dos pesos pesados, sabendo-se feliz por ter sido deixado por último, tendo em vista que ele poderia ser a chance daquele esfomeado morrer entalado e dar a todos um Grand Finale digno, para não dizer, desejado.  O Monstro de Chocolate começou dizendo que não aguentava mais chegar em casa, pensar na Pipa escrevendo poesias  e ouvindo  música para mortos  no volume máximo. Ele veio como um messias bíblico, em outras palavras, um beato entediado, ao argumento de que havia encontrado uma solução para as suas vidas e que triunfaria (no singular) aonde todos haviam fracassado. "Está testando minha  paciência?" Ela começou, mordendo os lábios como se fosse arrancá-los. "Não. Estava pensando em como conseguiu este cacho..." disse ele com os  dedos entre seus cabelos.  Ele deixou escapar um sorriso forçado, sabendo que ela decidiu esperá-lo, mas seu estômago não teve  a mesma discrição eclesiástica, oportunidade em que recitou: "E então, o que você  comeu minha Capitu? Dando linha à situação, a Pipa soltou: "Cinco fatias de namorado - fresco, que além de demorar duas horas para chegar ainda foi servido totalmente cru."  Eram raras ocasiões em que ele se abria. Na última,  tive a impressão de que ele começou a se apaixonar. Desta vez,  mais do que gostaria.



 

Pipa

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