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1.15.2011

Post Mortem







Imagem: Deviantar't





Não era eu - dizia às vezes. Tinha o aspecto de quem passava as noites em um caixão de vidro, ouvindo as queixas do cristal se contorcerem de frio. A  pele  parecia  calcinada por uma palidez doentia. Como se tivesse sido despertada de um sono perpétuo, acordei com a sensação de ter a cabeça cheia de manteiga. Os pensamentos derretiam. As palavras chegavam até a garganta e eram estranguladas por um sorriso distorcido, sem retorno possível. Tinha a impressão de que agora falava sozinha, lutando para não dar voz aos pensamentos, que tinham a habilidade de um punhal gelado nas mãos de um lunático. Quanto maior o ódio, mais forte era o desejo de afundá-lo. Mais uma vez os pesadelos haviam voltado e com eles o temor de ver aberta aquela ferida negra e sem fundo, escondida num vestido branco esfarrapado que usava para esconder a angústia secreta daquela espera interminável. Fiquei sozinha no quarto, cercada por um espetáculo de silêncios, que fazem jus todos aqueles que se dedicaram à uma existência fantasmagórica. Abri as cortinas para deixar sair o ar opressivo daquela câmara mortuária. Tive a impressão de que os quadros se moviam e as paredes falavam com aquele tom catedrático de quem está acostumada a ser ouvida, mas se perguntava se era escutada. Um asa de luz prateada levantou vôo acima da névoa acinzentada que sepultava a cidade, pousando em cima do telhado. Era um raio. O tempo havia devorado as memórias, que desapareceram sem deixar nenhum rastro, para colocar no lugar delas uma sensação de abandono e enfado. O passado comemorava meu retorno ao mundo dos mortos, brindando a minha rendição incondicional com sabor de infinta ironia. Tinha os olhos e o coração congelados. Meu olhar ausente se distanciava pela noite,  fantasiando que se eu os fechasse, não iria perceber que as poucas alegrias tinham se evaporado. Tive o espírito violentado. No lago escuro e turvo das ilusões, afundam e passam os desgraçados.  Rosas negras descansam sombrias sobre um esqueleto metálico. Não fui capaz de distinguir o que coloquei no lugar de minhas emoções.  Não tenho lembranças, tenho alucinações.



Pipa.

18 comentários:

Ludielma Laurentino disse...

Que ótimo te ler. Sinto que voo, mesmo sabendo da gravidade.

Alvaro Vianna disse...

A angústia que senti quando assisti a "Os Outros".
Agora sei o que inspira os roteiristas de filmes de terror.

Bjs

♪ Sil disse...

E apesar de todos os maremotos, terremotos, enchentes, vulcões aqui na minha nada mole vida, passar aqui (mesmo que demore), e te ler...me faz um bem danado!

Um beijooooooo Pipa.

A que sempre encanta!

Winny Trindade disse...

Querida Pipa,
Ao ler meus sentimentos se misturaram com os seus.Suas palavras sempre tocam bem fundo meu coração não tão grande.

Abraço meu.

M. L. disse...

Pipa, seus textos são de sentimentos delicados, porém, intensos. Adorei!
Seguí-la-ei!
umbeijo

JasonJr. disse...

Senti sua falta senhorita Pipa! A mocinha ai anda meio adormecida. Beijocas, abraços e "uma caxôlha fervilhando"!!!
:D

WILSON disse...

Cheguei tão rápído quanto pude. Deu pra sentir o cheiro de queimado alagando os ares de fumaça. Está esgotada Lídia, tome esse lenço e seque essas lágrimas.

Deslumbrante a sua imagem de maldição e remorso refletida neste espelho de ausências.

Mas...

É sinistro. Está dizimando emocionalmente inúmeras pessoas. Não me diga que agora vai fazer parte da Confraria dos Maus? Na prova de inteligência estou certo de que passaria. Mas na emocinal, você age como uma selvagem, totalmente por instinto. Mas não vejo mal algum. A perda do controle das emoções é o seu distintivo.


Tenho um volume de Naema a Bruxa, você não costuma devolver livros, mas posso lhe emprestá-lo se for preciso. Ao contrário de você, eu não quero terminar sozinho.


Agora vou embora, tem uma mulher esperando pelo seu ex-marido.


Wilson, seu amigo o terceiro homem.

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Wilson,

É uma sábia decisão. Quando se arranja uma companheira a gente tem que ser leal. No seu caso, grato. Se pretende não terminar sozinho, experimente não ver as mulheres como um pedaço de bolo - De acordo?

Naema a Bruxa! E o que eu faria com esse livro? Um cursinho intensivo de magia negra dedicado a mentes perversas para fazer parte do arraial de penitências? Perdoe-me socorrista do espiritismo, mas a vida já tem carrascos suficientes para que gastemos tempo castigando a nós mesmos. A propósito, o que você colocou no lugar da sua consciência? Um pedaço de torresmo?
Não devia sair por aí se empanturrando com essas leitoas literárias, sabe como é...elas enjoam e logo perdem a graça.


Adeus seu porco chauvinista

Gislãne disse...

já eu possuo boas lembranças!

gostei do texto.

:)

Pollycléssio Mota Sá disse...

Uma amiga minha uma vez me mandou uma msg de celular dizendo: "Às vezes, por mais que a gente faça coisas doces, a vida nos apresenta limões. Então temos duas opções; ou fazemos caretas ou fazemos uma limonada..." Quero ver a pipa da limonada, quero ver esperança em teus olhos e em tuas palavras... Quero te ver sorrindo...
bjao polícleto
Obs: Faz um tempão que vc não passa lá ...

francysoliva disse...

Sabe o mais complicado que lendo seu post Mortem sempre tenho a sensação que há pessoas que "vivem" assim, e completamente com olhos e coração congelados, parado em um tempo.
Sinistro não acha! Gostei desta leitura.
bjs

Juuh Nascimento disse...

Me encantei por esse cantinho, pelas imagens,
pelas escritas.

Tudo é muito belo por aqui! :)
Te seguindo

Bjs

JasonJr. disse...

Selinho pra vc minha linda!
http://jasonjrcajazeir.blogspot.com/p/tem-que-ser-selado-registrado-carimbado.html

Keli Wolinger disse...

"Não fui capaz de distinguir o que coloquei no lugar de minhas emoções. Não tenho lembranças, tenho alucinações."
Dispensa qualquer definição.

Quando a realidade se faz presente, os fantasmas também choram...

Abraços, Keli

Alicia disse...

Porque as vezes, as memórias são mais que lembranças. São formas de reviver.

Júh Albuquerque disse...

Eu fui indicada por um colega blogueiro para receber os selos de qualidade dos blogueiros e como gosto muito do seu blog estou indicando você. O sistema de selos, para quem não sabe, é uma forma de entrosamento entre os bloggers, e funciona como uma troca de elogios. O próximo passo agora é indicar de 5 a 15 blogs que vocês acham que se destacaram este ultimo ano,e repassar para eles os selos. Nao fui eu que inventei as regras, só estou passando adiante. Eu já fiz meu post com as indicações e os selinhos de premiação para você também pegar. Vejam como ficou o meu post – http://devaneioaovento.blogspot.com/2011/01/e-o-selo-vai-para.html

Bjo! Juh!

Dilberto L. Rosa disse...

"... E o meu cavalo só falava Inglês"... Adorei o texto byroniano de algo ora pungente poeticamente falando, ora assustador como num filme de Terror (das antigas, da Hammer ou coisa assim...)! Bem editado, tal como um bom filme! Quantas vezes já me senti assim (literalmente), acordando num quarto trancado e tentando abrir as cortinas (eram marrons, o que fazia a diferença quanto à claridade) para recomeçar... E até hoje não consegui, rs! Melhor ainda terminar citando o Mestre Chico! Abração!

Tiago Betel disse...

Quando um sonho esquecido decide fazer cara feia, é difícil não tentar enforcá-lo...
Uma realidade bruta passa dar lugar ao que de longe vislumbrava um simples desdém,
O prazer é incerto e o pavor passeia,
Até que vem.