3.1.11

A moça do lago


Desapareci do mundo no espaço de uma temporada a fim de que o tempo apagasse as feridas e a raiva, circunstância que aproveitei para aproximar-me da maior estufa vegetativa já construída pelo senso de brasilidade de um ex-humano e atual fantasma. Enquanto caminhava pelo mausoléu edênico do paisagista Burle Marx, como fossem agulhas suspensas por um novelo de nuvens carregadas, a chuva caia lentamente, deixando para trás a silenciosa cidadela de begônias, antúrios, gladíolos, tinhorões e muitas outras espécies que se espalhavam entre as ruas repletas de magia e graciosidade. Uma névoa tênue e cálida enchia o peito e soprava vários degraus à minha passagem. Meus olhos mergulharam naquelas telas esverdeadas cujos semeios de almas eram tão pessimistas quanto abstratas e a medida que eu me aproximava as plantas pareciam selar meus lábios com as mãos indicando cuidado para que minhas duras palavras não se esbarrassem nos segredos daquelas paisagens intocadas. Por um instante cheguei a pensar que meus dedos roçavam no passado, mas senti que suavemente ele se afastava. A companhia do cavalheiro Monteiro Mattos havia limpado todo o enfado e ausência de meus olhos. Deixei-me guiar pelas suas mãos, embora sentisse que meu calor e minha força minguassem a cada passo. Diante de mim abria-se uma penumbra acinzentada. Duvidei se não teria feito um cruzeiro imaginário, pois, ao contemplar todas aquelas plantas, pensei ouvi-las chorarem baixo. Por um instante, fechei os olhos e agucei os ouvidos para escutá-las, completamente fascinada. Elas, confundindo-me talvez com uma anciã catedrática, começaram a desfolhar um missal semioquímico sobre vasos comunicantes e segredos enterrados a sete chaves nos labirintos da alma. Burle Marx era filho pródigo da mãe natureza. Vivia num casarão no alto da torre transformada num oásis operístico, sobre o qual repousava imagens de santos e um piano negro.  Um vilão que lutava para recuperar a honra e a coragem perdidas, e na qual aos poucos se descobria  a alma de  um amor amaldiçoado cuja lembrança o acompanharia por toda vida. Fazia questão de usar o que havia de mais incendiário nas vanguardas artísticas, contrariando as expectativas mais pessimistas. O cérebro do submundo orgânico que seduzia suas vítimas com paisagens enigmáticas, cujo método preferido era liquidá-las com o perfume envenenado das flores que cultivava. Tentou passar por um inventor de jardins à espera de sua borboleta, quando na realidade era um adorador de totems, santos e relíquias macabras. Algo se destacava em meio àquelas fontes de sofrimento orgânico. Olhos. Avancei alguns passos e cheguei até um tanque de carpas, ignorando que tinha cruzado com ele por acaso. Com as duas mãos apoiadas no coração, qual não foi minha surpresa. Emergiu a moça do lago. É verdade sim. Reza a lenda que o paisagista mergulhou neste lago para buscá-la e nunca mais saiu. Vi isso nos olhos dele quando seu último suspiro se apagou em seus braços. Ao contrário do que dizem, não foi o câncer que o matou, foi a vertigem de carregá-la dura e fria para o seu quarto. No lago  escuro e turvo das ausências, afundam e passam os desgraçados. Nenhuma verdade poderá libertá-lo.  Porque nem mesmo cultivando um jardim de mentiras, ele estaria se sentindo tão culpado.


P.S.: Claro, o texto é fictício.  Foi a maneira que encontrei de registrar a magnitude daquele jardim encantado.


Pipa.

3 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Vou passar essa noite pensando em amores sem vida. Afogados. E da culpa que possamos sentir.

Té mais

Beijos

Asas que ultrapassam os domínios do sol disse...

Oi Pipa,
gostaria de te desejar bons ventos para suas penas criativas e que em 2011 possamos voar bastante.
Espero que esta temporada deixe apenas bons frutos para seu talento e que cada vez mais Deus te abençoe.
Um abraço

Wilson disse...

Os jornais da época noticiaram insuficiência cardíaca. Outros acusaram câncer. Eu arriscaria dengue, dada a quantidade mosquitos cultuados como reis naquele cemitério ecológico esparramado sobre a mata atlântica.

“Um inventor de jardins à espera de sua borboleta.”

Era muito além de um jardim, boa tentativa essa de filho pródigo da mãe natureza. Porque se tem uma coisa que ele esbanjou foi talento, ele foi assertivo ao mostrar com o olhar o que não podia dizer em palavras.

Entendo esse esforço para buscar uma verdade emocional, embora ninguém esteja preparado para recebê-la.

É preciso ter em mente uma coisa

Todo projeto ambicioso carece de um motivo.

Achei gloriosa a sua iniciativa de arrancar um por trás de tudo aquilo, e se quer saber a verdade, quando li o titulo achei que fosse me remeter a lenda de narciso, outra vez fui surpreendido.

Por outro lado Lídia, os relatos são de que ele morreu sozinho.

Ainda bem que a cultura predatória foi recompensada pela generosidade da natureza, e claro, da sua caneta.

Belíssima homenagem prestada

Wilson, seu amigo, o terceiro homem.