Às vezes ainda volto ao antigo endereço em que vi aquela menina partir para sempre. Afasto as cortinas do quarto, e me sento sobre aqueles lençóis amarelados e a espero, como se quisesse acreditar que algum dia ela pudesse voltar. Abro a torneira da memória e deixo as lembranças escorrerem entre meus dedos. Nunca saberei de nada, a não ser da água estagnda no fundo de meu próprio mar. Lavo o rosto com as mãos e observo meu reflexo talhado entre as paredes descascadas sobre qual ela havia rabiscado com um giz de cera a promessa de que ficaríamos bem, onde quer que estivéssemos. O passado já se desenhava debaixo daqueles arvoredos ondulantes, fazendo-me lembrar que eu sequer havia tido o cuidado de trancar as portas daquele mundo secreto em que nos refugiávamos quando a barra começava a pesar. Recordo-me de uma flecha que abriu caminho pela sua testa e a derrubou entre as lâminas infinitas daquele céu de cristal líquido que se derramava sobre a colina imersa em seus silêncios. Gosto de pensar que ainda possuo sua inocência, Pipa. Às vezes me pergunto se está bem, se conseguiu ganhar aquela boneca que você tanto queria ou se a mamãe resolveu não gastar tudo o que tinha com aquele tabaco e te presentear. Não tiraram fotografias nossas, mas eu me lembro perfeitamente de como você era e achava seu rosto engraçado. Lembra das histórias daquele suposto fantasma que o papai disse que viria recolher nossas almas se ficássemos acordadas até tarde? Deus como você roncava. E quando ele aparecia pela janela e nos assustava com aquela longa barba e fisionomia cansada? Parecíamos cobaias quietas em suas gaiolas de vidro, rindo dos mil e um feitiços que ele iventava. De minha janela, ainda nos vejo crianças correndo entre as chuvas de arco-íris líquidos. O bote de sonhos vem junto e nos agarra pelo pescoço, na esperança de nos salvar. Às vezes monto nele e saio à deriva até onde desponta a esperança e a tristeza desaparece de vista. Isso vai doer. Mas eu tenho que te falar. Não vim perguntar a você a mulher que eu deveria ter sido. Embora me ingore, eu sei que você viu as línguas de fogo vindas da chaminé antes do teto desabar e, sei, sobretudo, do tanto que você correu antes que seus joelhos começassem a dobrar. Vi as lágrimas nos seus olhos quando virou a cabeça para dar uma última olhada no que restava. Te escrevo agora. Continuo sentada nesta escrivaninha com a mesma caneta azul que me presenteastes um dia. Mas ela não se move desde a sua partida. Eu sei que é só um quadro sem molduras o que vejo agora. E sei também que você não vai poder se virar. Mas gostaria que sobuesse que ainda tenho aqueles antigos cadernos com a caligrafia minúscula que você tanto adorava. Lamento que o tempo não tenha encontrado uma maneira de aperfeiçoar.
Pipa.

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