11.03.2010

Sobre vozes e ventos









"Se quem chegou partiu, se quem virá já foi,

só pra quem fica, os dias

são todos iguais."




Leila Pinheiro.






Houve um tempo, em que dava para ver o mar da minha janela. Às vezes ainda volto àquele antigo porto à procura daquela menina que velejava comigo. Me sento em frente ao mar, deixando que as brisas lunares me soprem a sua imagem. Construo castelos de areia e a espero, como se quisesse acreditar que algum dia ela pudesse voltar. Tenho saído à sua procura, embora saiba que jamais iremos nos encontrar. Abro a torneira da memória e deixo as lembranças escorrerem entre meus dedos. Penso-te com toda ternura que consegui reunir, mas temo que nunca saiba de nada, a não ser da água estagnada no fundo de meu próprio mar. Lavei o rosto com as mãos e observei meu reflexo mergulhado entre as águas salgadas. O passado se desenhava debaixo daqueles escombros líquidos, que ondulavam como desfiladeiros submersos, fazendo-me lembrar que eu sequer havia tido o cuidado de fechar as comportas hidráulicas, para que aquele mundo aquoso de lembranças não pudesse nos afogar. Recordo-me de um pássaro que abriu caminho pela sua testa e a derrubou entre as lâminas infinitas daquele céu de cristal líquido que se derramava sobre a rocha imersa em seus silêncios. Gosto de pensar que ainda possuo sua inocência. Às vezes me pergunto se está bem, se conseguiu ganhar aquela boneca que você tanto queria ou se a mamãe resolveu gastar tudo o que tinha com aquela nuvem betuminosa de alcatrão até seu pulmão se incendiar. Não tiraram fotografias nossas, mas eu me lembro perfeitamente de como você era e achava seu rosto engraçado. Lembra das histórias daquele suposto fantasma que o papai disse que viria recolher nossas almas se ficássemos acordadas até tarde? Ele era o único que te fazia roncar. E quando ele aparecia pela janela e nos assustava com aquela máscara plástica? Mal sabia ele que o mais assustador é quando ele a tirava. Lembra daquela longa barba e fisionomia cansada? Parecíamos cobaias quietas em suas gaiolas de vidro, rindo dos mil e um feitiços que aquele aprendiz de bruxo inventava. Te escrevo para te recordar. Continuo sentada nesta escrivaninha com a mesma caneta azul que me presenteastes um dia. Mas ela não se move desde a sua partida. Eu sei que é só um quadro sem molduras o que vejo agora. E sei também que você não vai poder abrir os seus olhos e nem se virar. Mas gostaria que soubesse que ainda guardo aqueles antigos cadernos que você tanto adorava. Uma caligrafia que de tão minúscula, eu tinha que colocar contra a luz para conseguir decifrar. Já se passaram tantos anos. Lamento que o tempo não tenha encontrado uma maneira de aperfeiçoá-la. De minha janela, ainda nos vejo crianças brincando debaixo das chuvas de arco-íris líquidos. Aquela embarcação de sonhos vem junto e nos agarra pelo braço, na esperança de que possa nos salvar do naufrágio de nossas vidas. Éramos sobreviventes em todos os sentidos. Nada restou à velejadora, senão seguir adiante. Às vezes subo até a proa pra ver que rumo vai tomar o navio. Embalada pela promessa de um novo horizonte, deixo que o vento sopre as velas e saio à deriva na calmaria tempestuosa das águas, até onde desponta a esperança e a tristeza desaparece de vista. E te escuto entre os estalos das ondas, achando que você continua por aí em algum lugar desse porto, correndo em direção àquela praia de areias incertas que agora parece se distanciar. E quase vejo seu rosto emergindo das brumas, numa maré de luzes e cores que arrebenta secretamente do outro lado do cais.






Pipa.

10 comentários:

JasonJr. disse...

Isso que é uma caxôla pensante e imaginativa! :) :) :)

JasonJr. disse...

Isso que é uma caxôla criativamente imaginativa! :) :) :)

Marília Gabriela disse...

Querida Pipa,

rsr vc pegou minha música emprestada...
FAlando de ventania... solta... chamando o azul do dia...

Quem dera eu tivesse força igual!!

Quem dera eu fosse tudo isto e nada do que insisto em dizer... é pq quando me olho no espelho eu já nem sei mais o que vejo!

Já sentiu isto???

AS palavras ficam presas.. aí sopra um ventinho, venho parar aqui... e encontros parágrafos que parecem tão meus....

Deixo um beijo grande.

Mademoiselle disse...

Um mar de poesia vindo refrescar esse mormaço de problemas, preocupações, chateações, desilusões e mais alguns "ões". Obrigada mais uma vez por dividir isso conosco.
Salvou minha noite. ^.^

Bjoo querida.

Shuzy disse...

Escrever para recordar é o feito mais lindo!

Thammy disse...

Me senti navegando em lembranças, quase a flutuar pelo ar! Aqui é acolhedor, sempre. Lindo querida Pipa.
Um beijo!

Roberta Mendes disse...

Me muni de meus paramentos de escafandrista e desci a rampa do seu navio: memórias ao mar! Os marujos correram à proa para escutar o tchibum, fizeram aquela algazarra observando a espuma... Depois voltei e fiquei nadando por ali mesmo, de costas, como o urso polar bonachão de um zoológico da infância. Meus dedos se embaraçaram em sargaços. Ou eram teus cabelos nadando rente a mim, flutuando?

Mulher Vã disse...

Com os olhos deslizando no texto, um sorriso desenhou no meu rosto enquanto me arrepiava.

Te abraço com emoção.

Beijo

Alvaro Vianna disse...

Entre dois amores e suas odes fico absolutamente encantado pelo que leio. Acho que se está criando uma "Sociedade das Poetas Mortas".
A Poesia sobrevive e agradece.

Beijo

Rúbia disse...

Menina!que texto lindo!!
Emociona quaqlquer um!!