9.17.2010

Solidão







Arte: © Agócs Írisz






"Hoje estou vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse

para morrer.






E não tivesse mais irmandade com as coisas.

Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua."






aquele, o Fernando Pessoa.







A solidão e eu trocávamos olhares. Às vezes eu a esperava e nós conversávamos. Ela acabou por se afeiçoar a mim de tanto me encontrar, e, a sua maneira, resolveu me pedir em casamento. Assinei o contrato. Eu estava ciente, e, pela falta de opções, decidi continuar. Muito embora as pautas de negociação tenham sido cada dia mais complexas - devido a inflação do ego, os reajustes emocionais estiveram sempre nos centros dos conflitos. As sucessivas campanhas para que ela me contasse o que se passava, que frequentemente eram acompanhadas por greves de "verdades", terminaram derrubando o que eu pudesse estar pensando. O que falta é um pouco menos de silêncio e isolamentos limítrofes - protestei. Cedendo às pressões do hábito de ócio, ela retrucou: O que falta é um pouco menos de tempestades que façam cair alucinados os pássaros dos ninhos de seus quintais - escutei.  Imaginem só o cenário, concluímos. A essa altura, o céu havia se jogado em cima de nós, tentando consolar-nos com um terno abraço. Havíamos passado a noite contemplando uma constelação de estrelas ateias que nos interrompiam para que não brigássemos outra vez. Vimos astros vestidos de farrapos, sem as máscaras de encantadores nem as bijuterias finas. Devaneios de muitos sobreviventes. Pena que a gente não os entenda antes de nos ferirmos. A razão entrecortava nossas conjecturas, famosa por sacudir os nossos pensamentos com a força de furacões destemperados. Nossos espíritos desorganizados soluçavam como michês das madrugadas frias. Pelas causas perdidas, pelo credo não respeitado, pelas nacionalidades e idiomas, que naquela situação, nada tinham de estrangeiro. O medo nos seguia de olhar agateado, com passos invisíveis de expectativas. Num mio rouco que cochichava e ria. Por um instante, ocorreu-me a ideia de que se conseguíssemos abandonar nossas fantasias, não sem antes dar oportunidade a realidade, deixaríamos cair nossas máscaras de pele. A minha, de carrasco reconfigurado. E a sua, de fada madrinha de aparência chinfrim. Inseparáveis. O destino deixou-nos manusear a caneta o quanto quiséssemos, para que reescrevêssemos a nossa história. E a que encontramos em torno de nós já não era aquela que havíamos deixado.







Pipa.

20 comentários:

vpaulics disse...

oi, pipa, vocë conhece esta página:
http://nadaestaacontecendo.blogspot.com/2010/09/solidao.html

solidão era o tema do dia.
bj. v.

Sara disse...

PIPA, por vezes é necessário voar para estes cantos solitários de nós, mas não se deixe ficar por muito tempo por aí...por mais alegre que uma pessoa seja, em algures está a parte solitária pronta a aprisionar, mais um defeito humano, que as vezes pode ser uma salvação...beijinhos

Gislãne disse...

A solidão é boa, na edida certa (se é que ela tenha medida)

lindo texto.

bjs

Vozes de Minha Alma disse...

Pipa querida...
Vou te contar, viu?
Ela, a Dona Solidão, antes de se casar contigo, era, e ainda é, minha amigona!
Preciso dela... Outro dia fomos, com sua licença, visitar um túmulo.
Saímos em silêncio... Eu chorando, ela me abraçando...
Amei tanto sua companhia, que hoje bato à essa porta, e não menos ciúmento, peço licença para ler tua alma, juntos os três!
Quem me acompanha aqui? A Sra. Saudades... (mas ela já se foi! que bom!)
Me despeço, mais alegre.
Beijnhos, do teu leitor, um afetuoso abraço.

Willyan Luemi disse...

Lendo lembrei da dor.
Não sei de fato se era dor o que passava pelas veias de teu corpo e transpassava de tinta o papel.
Mas doeu, dói em mim a sua solidão.

E o que me consola,
É o eterno reinventar da nossa mutante condição, que as vezes nos faz aspirantes ao desespero,
as vezes faz de nós matéria mais leve que particula de algodão.

Ilusão ou não,
Boa ou ruim
Ainda assim,
Prefiro esta realidade,
não a que nos cerca.
A que nos preenche.

Um beijo,
no encontro do escuro.

Pelos caminhos da vida. disse...

Estou dando uma volta pela blogsfera para conhecer novos espaços, interagir e porque não fazer novas amizades e foi assim que cheguei até aqui.

Fica o convite para vc conhecer o meu espaço, será um prazer te receber.

Bom domingo.

beijooo.

z i r i s disse...

Sabe... Por muito tempo tive compaixão por mim e sinto muito, prima do meu coração, por ti também.

Hoje vejo a matéria de onde nascemos e suspiro de tanta satisfação.

Eles? Sempre tiveram tudo ao alcance das mãos! Nós? Somos as meninas que construíam brinquedos de latas e bonecas de sabugo de milho. Podemos tudo Pipa querida, tudo! Temos o dom de transformar. Porque só mãos judiadas podem perceber a sedosidade de uma pluma e vê-la já pássaro! Ninguém teceu sonhos em nosso lugar.
Sou grata!

Te abraço, forte e te faço companhia. Estamos só e mais juntas que nunca!

Há de as cor se decidir...

Denise disse...

Tecer sonhos é pra poucos.
Fortes q somos.............construiremos outros.......e novamente os realizaremos.

fica com meu carinho..........de alguem q mesmo sem mergulhar(por hora) sabe q é preciso............ousar

Angélica Lins disse...

Tuas palavras dixaram-me num silêncio reverberante.

Beijos
Adorável lugar!

Dan disse...

wow...voce escreve muito bem... gosto da linguagem...

solidão... como li certa vez... "o que faço com ela? curto, aproveito e deixo ir"

sempre com a gente ...

http://inskyscraper.blogspot.com/

Ana Luz disse...

É meio dolororso mesmo sentir isso na pele: ver que o destino nos dá uma chance, nos oferece, caneta, lápis, borracha e até tintas coloridas pra gente reescrever tudo que é capaz, de um jeito mais bonito, ou simplesmente diferente.
Mas quando olha em volta, cadê?
O que vê?
Tudo estranho... A história mudou.

***

Belo texto, Pipa!!!
Parabéns e boa semana...
Bjs de LUZ

Ana Luz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
so sad disse...

nunca tive medo de ser só, até gosto um pouco da solidão.
o ruim é ficar só quando amamos alguem...
beijo!

Thalita Santos disse...

Pois é Pipa, vez ou outra a solidão pode ser boa e mesmo quando não é, eo menos nos faz refletir.

saudade daqui.
grande beijo!

WILSON disse...

Eu te devolvo a voz.
E você me devolve a palavra.
Mas antes, vou pedir que ele devolva-lhe a vida.


Queria abraçá-la;
Mas não posso,

porque também estou morrendo...



Perdoe a cara de sopa aguada e essa disposição virulenta, mas seu texto é o momento que estou vivendo.

O que acha de tirar esse triturador de gelo das mãos?

Leo disse...

eu queria dizer algo bem agora, que espantasse a solidão pra longe, mas só me veio o silêncio, porque nessa hora a vontade é de te abraçar forte e te proteger, porque a força vem e a solidão vaí.

Ponho-lhe a mão na testa, como se quisesse acalmar o mar.

*

Sabiana M. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sabiana M. disse...

Tenha a solidão como amiga. Só não permita que se torne a melhor.


abraços de céu!

Keli Wolinger disse...

Pipa,

A solidão é uma amiga sábia.Precisamos desses momentos que asfixiam a mente algemando o coração.
Isso torna-se sabedoria que possibilita sermos escravos alforriados de culpas do passado.

Bjos,

Keli

Rafaelle Melo. disse...

Já vim até aqui ler esse post 3 vezes, e nessa 4ª vou tentar postar um comentário.

Pipa, Pipa, já não é a primeira vez que vc entra no meu peito com pé na porta. Não te culpo, pois sei bem que tu tens feito isso contigo também.

A solidão é o fantasma com que nos casamos pra depois querer divórcio.
É uma relação pesada demais para suportarmos.

Não nascemos para sermos sós, mesmo quando estamos.

Penso que a solidão é apenas um capítulo da história, mas eu posso estar equivocada.
Pode ser só uma prova falsa para adiantar o andamento da burocracia de separação.

Caso precises de uma advogada para teu divórcio é só falar.

Beijo doce, pra aquecer teu coração.