9.21.2010

O Regador de Covas








Arte: © Agócs Írisz









"O homem não morre quando deixa de viver,

mas quando deixa de amar."





e dentro, bem Quintana






Uma tarde sol encostou-se em meu peito. Nossos corpos se encontraram no reflexo. Minhas lembranças estavam sepultadas a vinte metros daquele bosque de cruzes e lápides. Foi doloroso desenterrá-las. As ondas do mar se debatiam com tristeza, e, à minha semelhança, haviam caído em desgosto. Ancorei os olhos naquele homem de aspecto funesto, escorado na neutralidade de uma pá esculpida do tronco de um carvalho sem qualquer polimento, e o fitei sacando dos bolsos um cigarro que não havia se  importado em acender.  Ele estava sempre sozinho. Tudo o que se sabia é que ele sofria de um delírio paranóide relativamente bem organizado. Por muito tempo evitei escrever sobre ele, mas as palavras se rastejaram atrás de mim e se auto transportaram para o papel. Muitas vezes parei para pensar em qual seria o momento, tentando imaginar o que ele teria sentido ao comprovar que sua vida havia acabado antes mesmo que ele se fosse. Apertei os lábios tentando transpor os dentes entre uma parte e outra da boca, antes e vê-lo inalar aquela fumaça gloriosa que parecia ensaiar uma desalinhada dança flamenca nos ares. Ele me observava com um olhar preventivo, balançando a cabeça, como quem indicase que não queria ser alvo de uma possível agressão. Alguns achavam que ele já havia morrido e o que estava por lá era apenas a sua alma que ficou para trás. Os mais otimistas, preferiam acreditar que ele havia se tornado o grande mestre das sombras e causas perdidas. Vivia do cultivo de uma vasta coleção de túmulos, ao argumento de que preferia lidar com os mortos, a fim de que se livrasse de todas as canseiras que lhe causavam os vivos. Talvez ele não estivesse de todo errado. Eu me empenhando em resgatá-lo daquela cidade dos mortos e ele fazendo o contrário. Fiz que não, e ele tomou emprestado o chocalho de uma serpente que sibilava enroscada num falo e me lançou seu veneno. "Acha que procuro alguma coisa?" - escutei. Afastei as cortinas da coveniência e me espreguicei sob aquele autêntico gramado de trevas. Então cada vez que rega uma cova a pessoa renasce? comecei, com a boca sem saliva. "Não. Cada vez que rego uma cova o espírito da pessoa se fortalece. Há formas de amor, que não necessitam de intercâmbio físico". Tem certeza de que está vivo? ponderei. "Vai precisar de um caixão de seis alças, o de quatro não vai suportar o meu peso." completou o regador de covas voltando de si com um sorriso reptiliano. Naquele instante, meus cabelos, ou o que restou deles, de prateados foram promovidos a branco nevada, mas sem qualquer ressentimento. Começo a achar que o que não quer ser penetrado, deve temer o que tem por dentro. O regador de covas deitou-se no chão de um jeito que não era possível ler sua alma. Naquela tarde,  o sol partiu do céu escurecendo-o rapidamente, fechando-nos na sombra de um totem com olhar onírico. Seu suspiro, o elo perdido entre o íntimo e o abismo. Emocionalmente morto, mas espiritualmente vivo. À essa altura eu já havia emudecido sobre a escrivanhia chamando por um Deus com quem até então nunca havia estado, pensando em outras formas de amor que de outro modo eu não podia imaginar que existiam. Podia apenas recordar.  Eu o contemplei imóvel, alheia à rechia das cigarras, aos guizos de cobras e esturros das suçuaranas. Havia gritos de chacais, houve grasnos de corvos. E minutos depois, um horrendo silêncio.





Pipa.

28 comentários:

H. Machado disse...

O peso está fora, menina, está fora. Lá onde mora o silêncio.

so sad disse...

esse é para pensar profundamente...

Maria Fernanda Probst disse...

(pra registrar que li. Mas aqui, deixo todo meu silêncio)

Ju Fuzetto disse...

E desde então o silêncio virou o grito mais alto - mudo. mas vivo!!!


beijo doce

WILSON disse...

Nada é tão ruim que não possa ficar pior...


rs


Mas tudo bem, manter a amizade com você está cada dia mais arriscado, vc me provoca calafrios...rssss


Ainda bem que as mulheres pensam o contrário do que escrevem...


A propósito, seu escritório ficou elegantérrimo, me lembrou uma casa de veraneio.

Tenho um caso crônico, acha q pode me ajudar?

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

E tenho dito:

É bom ser lida...

Melhor seria se fosse compreendida.


Minha escrivaninha não transpira obssessão Wilson, ao contrário, transpira meticulosidade.


Pingos aqui, tem efeitos tem frases inteiras.


Grata pelo elogio sobre o escritório. Mas não vou pegar o seu caso. À semelhança do amor, tomei uma decisão sobre o trabalho: Não perder tempo com causas perdidas...rs


Um abraço seu ordinário rs

Denise disse...

Causas perdidas......q deixam um aprendizado tremendo.

Oxalá.......tenhamos aprendido

afagos de aprendiz

Alvaro Vianna disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alvaro Vianna disse...

O espanto da existência e o espanto maior que é o não existir só tem descrição possível por artistas verdeiros.
A Arte é o melhor idioma da Metafísica. Talvez o único possível.
Artistas como você, Pipa, democratizam esse saber maior.

Um abraço de conforto. Que não deve ser fácil ter um dom assim; por diversos e merecidas que sejam as aclamações.

z i r i s disse...

A cada luz que se apaga na terra, uma acende no céu! Versinho pobre? Versinho de Vó, elas sabem tudo.

Mais uma letra no papel, mais um pedacinho de alma perdido que volta para o lar...

Emudeci é fato. E tenho a alma escancarada até agora. Espírito arregalado.

Pipa a tratadora de vidas..

Te abraço orgulhosa!

z i r i s disse...

Salvo o medo de me melar de cacau, do mais apurado e original. Confesso estar contente em comentar um texto que não menciona o mostro que tem fome de olhar...

Pode rir agora, que o fio da indiferença começa a desatar...

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Podia ao menos se tratar de indiferença guia espiritual à distância...



Mas nem para ser isso....

O demônio confessou-me:

Uma vez ofuscada a razão, perde-se a emoção...


Pelo bem de todos, sentenciou - Ele quer ver-nos livres de todas as emoções...


Te abraço com louvor.

z i r i s disse...

Uma vez ofuscada a razão, perde-se a emoção...

Penso que se o mundo for assim. Ou assim for decretado um dia, mereço aviso prévio. Pra que eu tenha tempo de carregar todos os meus pertences emocionais e pular fora antes que este teto frágil desabe.

Mas diga-me Pipa, tratou-se da razão ou de ter razão?

Dependendo da resposta, devemos puxar as malas que estão debaixo da cama, e as emoções mais puras de dentro do coração... Um trem espera...

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

E a quem tenho a honra de apresentar?


A Senhora "Ter Razão"

Vem cá me ler Zíris. Assopre a poeira dessas páginas amareladas, já que entende de marcas.


O que são marcas - perguntei - Cortes?



Acho que nunca em toda a sua vida pode examinar uma cicatriz tão de perto. E com tanta precisão.

Ei, pare já com isso. O que você está olhando?

Essas são as menores.

As piores estão aqui dentro.




Te abraço forte. Ainda mais que antes.

z i r i s disse...

Porque ocê é minha prima... E minha instrutora de criatividades... E se te ferem a fundo, quero examinar de perto, perceber a marca das garras, reconhecer a fera ferida que te avançou e te absolver pelo fato de não ter podido fugir antes do bote.

Larga essa trouxa pesada de palavras atravessadas e destoantes. Caminha rápido e o som delas vão evaporando.

No mais, foi só uma fumaça ardida que confundiu as vistas. Não existe poeira em suas páginas, só terra batida por debaixo dos seu pés... E o caminho é bonito até o ribeirão...


E digo mais, se mexer contigo, vai mexer comigo, não sou especialista nas artes das desculpas, mas tenho elucidações de quem viveu parecido e não achou graça nenhuma no formato das costas ao virar-se da vida!

Be Lins disse...

Fico até tonta,
não bastassem as incógnitas colossais do seu post, ainda esses diálogos, densos, precisaria ficar lendo e relendo, e no dia seguinte, na reeleitura, teria a surpresa de sempre.

Eu vim, li e escrevo, só porque não tenho muito senso.

Beijo, Dona.

*

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Hermana - eu cá achando que tu era aquela galinha pacifica que um dia lembrou-se de outrora e bateu com a cabeça na táboa.


Nada disso.

E agora descubro que tu era um galo de briga em pleno torneio.


Santa mãe de Deus - aqui tem mais devaneios do que pau de galinheiro...

Ok guia.

Vá em frente que eu te sigo... rs

z i r i s disse...

Galinha dorme muito no poleiro. E nesse mundão que falta galo, a gente tem que cantar por eles...

Oeeeee...

Devaneios? Tô adorando. A lucidez me fez mal por anos...


Não tenho filhos, menos ainda pra ter um já de bigode. Eu sou a menina aqui. Fora as disputas de bater o pé no chão, prefiro devaniar...


Te abraço virando o rosto pro lado, pra você não sentir o bafo do rum...

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Hermana, não vejo problema em injetar uma garrafa de rum nas veias.

A questão tá no efeito.

Valha-me Deus, em você ele é tão duradouro. rs


Sobre os galos. Nada disso. Somos galinhas. Ou melhor! Somos franguinhas. rs...


Acho q piorei.


Vai tentar cantar de galo pra ver!?

Vão te processar por desacato!!!!

Pâmela Grassi disse...

Escritos, pequenas histórias que nos arremessam a memória de belezas. adorei,

abraços

Juliana. disse...

Nada de silêncio no amor, amar é vida, é viver cada detalhe em esplendor..lindas palavras Pipa! Um beijo
Ju

Celso Andrade disse...

Caio Já dizia que amar é tomar um banho de chuveiro por dentro.

dansesurlamerde disse...

"sofria de um delírio paranóide relativamente bem organizado".

acho que eu sofro disso também. será que tem cura?

beijo.

Santiago Naliato Garcia disse...

Sabe o que é, pensando no que me disse, procuro o menino quando o moço perde um sorriso. Mas menino travesso se esconde bem sumido, atrás de todas as sombra. Engana o moço, mas o velho já sabe: ele se apronta, vai aprontar logo logo..

Gislãne disse...

Oi eu sou gislãne do Blog mudanca.com agora criei outro blog dedicado a textos do meu escritor favorito: Jose Saramago

dê uma olhada lá

bjos

so sad disse...

tem um selinho pra vc no meu blog.
beijo!

Sonhadora disse...

Meu Deus!

Vou voltar aqui e ler esse texto pelo menos mais duas vezes.
Sabe quando tu lê algo que não acredita de tão bom que é?!

Pois é.

Lindíssimo blog.

Abraço.

Rodolpho Padovani disse...

Lídia, eu fiquei encantado com seu blog (que uma amiga me apresentou), sério, gostei muito do seu jeito de brincar com as palavras, de suas metáforas e de suas conotações.

O texto me deixou sem reação, tanto que nem sei o que digo sobre ele, além de "magnífico".

Vou te seguir, certamente, e voltarei mais vezes para te ler, fou uma grande prazer conhecer seu cantinho.

PS: te dei um follow no twitter.

Bjs e até a próxima.