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7.14.2010

O Massacre dos Pretendentes Parte III






Arte de : © Agócs Írisz






Quando achei que o mundo nos houvesse esquecido, me aparece um Monstro de Maracujá cativando a Pipa. Não, ele não é um velho centenário como vocês devem estar imaginando. Mas estava trancafiado na gaveta do passado, carregando uma guirlanda de chaves enferrujadas de uma porta cuja fechadura foi trocada há alguns anos atrás. Talvez fosse hora de reconsiderar, já que aquela poderia ser a última chance da Pipa se engastalhar de vez no fio elétrico do amor. Mas o tempo apaga tudo, salvo a beleza do que ficou. Embora ela ainda pensasse no Monstro de Chocolate, ele estava decidido a viver como um Faraó, cujo corpo repousava serenamente numa tumba real, enrolado numa tira de algodão com centenas de metros de puro orgulho, embebida em um betume de aparência fóbica, revestida de uma saliência aromática maravilhosamente trabalhada em um “me deixe em paz”. Chegou a pensar que fosse o caso de intervenção mediúnica pois, sua fé a fazia acreditar que a qualquer instante ele pudesse se levantar de lá. Lembro-me de algumas noites em que ela rezava em latim com certo fervor, às vezes parando para prestar atenção em alguma letra cuja relevância lhe houvesse escapado. Ocorreu-lhe até mesmo a ideia de carregar o corpo já que o espírito não vinha. Mas a coisa nem se mexia. A vantagem de amar em silêncio é que você pode imaginar todas as coisas que poderia realizar, ainda que não façam qualquer sentido. A caspa de Deus voltava a cair, estreando a "Nevasca do Século" sem saber o que fazer com ela. Era preciso acudir a necessidade de estar em si, já que não podia estar com ele.  Ela se vencia  pelo cansaço de buscar um amor que não fazia outra coisa a não ser esconder-se no sudário de suas inações. O Monstro de Maracujá chegou ofegante por causa da corrida. Queria recuperar o tempo perdido e foi recebido pela Pipa com uma vassoura na mão. Ela queria gritar, mas da garganta não saía nem ar. Ele tratou de acalmá-la, oferecendo-lhe um refresco de maracujá. Queria se desculpar. Lembrou-se com leveza de todas as propriedades calmantes daquela fruta exótica. Ele é loiro, porte alto, lenhoso, vigoroso e de crescimento rápido. Biólogo com Doutorado em “Incidência dos Fungos Comestíveis na Camada de Ozônio”, aos vinte e sete anos de idade.  Ele é libriano. Levando em conta o aspecto esotérico, ela o deixou falar: “Hoje eu sei que peguei o caminho errado e tenho uma longa caminhada de volta para achar aonde foi que eu errei. Ainda encontro a fórmula. Eu não tenho tanta certeza que a encontrarei, porém, tenho necessidade de virar o jogo e achar a saída. Mas como é difícil mudar o jogo. Estou na busca de algo mais palpável algo que não seja utópico demais para não ter solução. A utopia é bom quando não se quer chegar a lugar nenhum, porém são necessárias doses utópicas na vida da gente mas não tanto. A escuridão é negra, porém eu gosto da negritude, do negreiro, do passageiro que passeia na clareira. Pois, debaixo dos caracóis existem mais caracóis. Tenho saudades. Concordo que fui embora cedo, achei que estava preparado para enfrentar o mundo, foi então que me decepcionei. Meus amigos me impediram de agir, hoje na calada da noite vejo brando o vestígio do passado que deixei de existir... Fui covarde em não agir, mas sou corajoso em me redimir. Saí fui ver o mundo girar, e te digo o que encontrei não foi surpresa, mas foi fugaz. Tão fugaz que hoje tento encontrar o caminho nas tiras de pão que tu deixaste. Aqui fora faz frio mas nem o sol nem as estrelas podem me tirar deste frio congelante que entra pela fresta da janela. Guardo lembranças que compactuo com temor e destreza. Mas nem tudo fora flores e cinzas naquele tempo. Lembro me a aurora da minha juventude com saudade... saudade de um tempo que apesar dos borbulhos dos hormônios, era corajoso, limpo, sólido, decidido, maleável, amável, emburrado. Cabelos longos já não usam mais... E eu que fui e não sabia para onde estava indo. Até tive vontade de ter te buscado, porém havia apenas um pára-quedas. Eu o usei. Não me salvei, caí na covas dos leões...Você não me entendeu. Eu não te busquei pois sabia que o lugar que estava indo não merecia sua beleza. Fui adiante. E hoje descobri que não foi o futuro que me enfeitiçou, foi o passado." O destino é uma questão de escolha, está nas suas mãos o caminho que vai trilhar. É um Monstro tropicano de tirar o fôlego de qualquer mulher, uma paisagem suculenta e sem tampa presa no labirinto do mato.  A casca do ego estava menos espessa, mas tinha um elevado rendimento em polpa. Apresentava variação no peso, mas a coloração ainda era mesma. Ela se lembrou dos velhos tempos de infância. A Pipa feia e preguiçosa com uma cabeleira cacheada ao vento. O filme acontecia: Pipa e Monstro de Maracujá: "ele podia ser consumido ao natural ou na forma de sucos, doces, geléia, sorvete e licor.  As folhas podiam ser usadas como chá de passiflorina, um sedativo natural sobretudo de dores no coração." A solidão era tanta, que só a idéia de estar com alguém a seduzia. Seus pensamentos balançavam como a antena de um carro. O estranho é que não estava ventando. Foi quando a realidade a interrompeu: “Pipa, eu a quero com toda força do meu coração. Case comigo e viverei por você. Quero fazer sexo todo dia, acordar de conchinha e reclamar da comida...Andar de chinelo, engordar 20 quilos e beber cerveja pela noite. Nunca mais a chamarei pelo seu nome a não ser de Muiê...Muiê pra cá, Muiê pra lá. Eu não posso esperar mais." A Pipa sorriu com gravidade e o fitou com um olhar incediado. Pensei em lhe oferecer um extintor para apagar as chamas dos olhos, mas as águas que rolavam deles não só liquidificavam as dores como libertavam a alma. Depois desta declaração é ou não é pra chorar? Mas não era esse o caso. O Monstro de Maracujá estava noivo e prestes a se casar. Era um Monstro criança, só precisava do ursinho do perdão para continuar.  Ao contrário do que haviam lhes ensinado, um grande amor a gente só esquece quando reaprende a lembrar.




Ao meu primeiro amor,
Ofereço.


Pipa. 

32 comentários:

Winny Trindade disse...

Querida Pipa, nem tenho muito o que dizer.
O primeiro amor é sim o mais intenso e, talvez, o mais singelo, meigo, doce e ingênuo.

Seja feliz, adorada Pipa.


Abraço meu.

Crônicas do Cotidiano disse...

Mas que estória hein pipa... Lembrei do meu monstro sabor de chocolote! Os antigos amores... Mas é isso, quer dizer que você teima em voar... Acho que você vai encontrar logo;logo o homem sabiá, de certo ele vai cantar e tocar no seu coração.
Bjo na tua alma!!

Lia Araújo disse...

Pipa, pq os monstro de chocolate nunca deixam de nos assombrar?
Me responde, por favor?
Não aguento mais a lembrança, o pensamente e a necessidade do meu... e vc sabe que chocolate demais faz mal.

bjos querida
Ia escrever, quero ser igual a Pipa quando crescer... mas, desisti... quero ser igual Pipa e não lembrar de crescer nunca... conversar sempre a doçura e a ingenuidade, mesmo que isso signifique continuar sendo assombrada pelo monstro de chocolate que eu deixo no armario!


bjos

Marília Gabriela disse...

Eu cai outro dia aqui sem querer... sem saber... sempre escrevi.. como vc... desde mt menina...
E se um dia ler um pouquinho de mim vai descobrir que sempre me chamei de ventania..

Engraçado neh! E eu tinha mesmo que cair aqui... conhecer a Pipa!
E pra mim já é querida!!

Ahh eu leio leio e começo chorar...
Pq ando numa absorvida de silêncio.. e to aprendendo tanto..
Aqui...

Encantada com este jeito lindo de voar.. de empregar poesia.

beijo grande

Salve Jorge disse...

Não sei do monstro
Mas pelo que mostra
Tens em mão boa amostra
Daquelas com um fina crosta
Que vale a aposta
Num doce recheio
E se não acertar em cheio
Vale pelo recreio
Quem sabe tudo não vibra
Só sei que sou de libra
E sempre lembro
Que sempre lombro
E se isso causa assombro
Empurre a pilha aparente de escombros
E deguste tudo no devido tempo
Indevido
Melhor se atrevido
A desdizer tudo isso...

Serena-Cris disse...

.

Meu Deus-do-céu!

A cada dia que passa ocê se torna mais encantadora. Tem um jeito tão, mas tão ensolarado de contar as histórias que dá vontade de pegar travesseiro, chocolate quente e sentar ao lado de uma lareira pra ouvi-la por noites a fio! E é muita verdade quando digo isso ...

te espero na mesa de chá,
com biscoitos de polvilho em mãos. Quuero mais histórias, mais risos, mais sonhos pra nós!


beijo-te!

*

LUZIA disse...

"...um grande amor a gente só esquece, quando reaprende a lembrar."

Verdade mesmo, eu bem sei o que é isso.

Lindo texto Pipa =)
Bjo

Leo disse...

"A vantagem de amar em silêncio é que você pode imaginar todas as coisas que poderia realizar, ainda que não façam qualquer sentido."

isso foi tão...tão lindo.

O primeiro amor a gente carrega pra sempre, mas temos que reaprender a lembrar. Senão as lembranças nos levam como um canto de sereia.


Beijoca doce!

*

Alvaro Vianna disse...

Vejo que até dispensou a ajuda do Brendan Fraser nesse novo massacre. Ele não é tão sutil, né?

Mais assombroso que qualquer monstro, porém, é esta infinita capacidade de criar combinações originais de palavras com pensamentos profundos e igualmente originais.

Beijos

Cecília Braga disse...

"...quando reaprende a lembrar".
Ah, Pipa...perfeita a frase. Lembra Manoel de Barros: "repetir, repetir até tornar diferente. Repetir é um dom de estilo".
Beijo na alma.

Grafite disse...

Adorei!

Be Lins disse...

Ter o primeiro amor por perto,
com amor ainda a ser oferecido,
não é coisa para qualquer um, querida!

Coisas de gente marcante,
feito tu.

[não serão apenas dirfarces, essas carapaças de monstros? Eu queria que fosse.]

Ellen Azevedo disse...

Tudo que envolve amor me encanta, e tenho certeza que é assim com você também!
Eu adoro seu cantinho, sabe disso né?

Beeijos coloridos (:

Ceres disse...

Do jeito que você enuncia parece tão bom que eu chego a duvidar da minha dúvida do amor. Passo a duvidar que o amor seja inviável ("num plano inacreditável")...

Sou um corrompido pela sociedade, um bruto, quase Fabiano do Graciliano; mas me inebrio na tua fantasia e por instantes penso em deixar-me afogar (:.

Mademoiselle disse...

Engraçado que esses dias meu "Monstro de maracujá" tb deu as caras, ainda bem que a primeira vez que ele foi embora foi o suficiente para a vida inteira! Nem três litros de suco de maracujá me conquistariam de novo (acho :S)
Amei o texto querida, Lindo demais ^.^
Bjoo
.

LOU disse...

Pipa... estou feliz!!!! Não se preocupe mais com o passado. O passado passou e levou com ele muitas coisas. Levou meu guarda-roupa, meus discos, minhas botas e muito mais.... agora sou um exército de um homem só, porém nesta guerra de tira e põem a única coisa que não me levaste são as lembranças. Lembranças essas maravilhosas... Lembro-me da chinela arrebentada, situações engraçadas merecedoras de Oscar ou pelo menos do urso de ouro, neste caso é proibido proibir o proibido, pode ser o desencadear da ruptura que existe entre a PIPA e o MARACUJÁ, momento este apertado para PIPA e dúvidas para Maracujá. Na inexperiência sublime, delicada e sincera dos dois sobreviventes da guerra de sentimentos, poderia ter desabrochado uma preocupação no tempo. Hoje eu quero essa preocupação pra mim. Encontros e despedidas marcaram a nossa estória, Haaaaaaaaaaa... e a pizza na casa da cunhada, que delícia fora aquela noite..COMI MUIIITO... Porém fui com tanta vontade no banquete que me esqueci de saborear a sobremesa sobre a mesa... Que idiota fui. O maracujá em pequenas doses pode ser benéfico, porém este néctar dos Deuses naturais em grande quantidade ingerida pode deixar a pessoa numa sonolência profunda, que ao se despertar do sono todo aquele sentimento pode ter sido em vão. É interessante como as palavras exercem uma força de movimento variado... Aquilo que soa para mim talvez não é aquilo que é interpretado pela PIPA, PIPA essa que voa, voa,voa tão alto... Cuidado Pipa com as alturas você pode cair, mas não deixará de voar...Às vezes o vento a favorece ou dificulta o seu voar. Vou pedir para Apeliotes o deus-vento do sudeste, encarregando de fazer soprar o vento que faz madurar as frutas e o trigo, para madurar o MONSTRO MARACUJÁ, para que ele possa recomeçar uma nova safra de néctar que possa novamente voltar a encantar a
PIPA.
Obrigado pelo texto

Assinado o Monstro do Maracujá

Mima disse...

Sempre aprendo sobre amor com a Pipa e seus monstros doces..

O monstro de Maracujá é legal. Ele deixa tudo calmo?? O amor com ele é tranquilo como cantou Cazuza?

Ou é melhor o monstro de chocolate que vicia?

Pipa. Amo isso aqui.

Nane Martins disse...

Pipa, sou sua fã!
bjussssss

Sara disse...

Ah Pipa, isso parece história, não para dormir mas sim acordar e amar...beijinhos!!!

renata carneiro disse...

eu também queria que fossem disfarces...


um beijo!

Alvaro Vianna disse...

E um comentário se perdeu no silêncio há alguns segundos.

Deyse disse...

Fiquei meio sem saber se o Monstro de Maracujá foi massacrado ou acarinhado :)


Sempre leio aqui. Gosto muito \o/

Beijo em ti, Pipa :)

Priscila Rôde disse...

Flor, o que eu faço? Estou sem palavras! Acredite, estou aqui faz 15 minutos tentando comentar e tenho CERTEZA que vai ser um mero comentário diante de tudo que li aqui.

"A vantagem de amar em silêncio é que você pode imaginar todas as coisas que poderia realizar, ainda que não façam qualquer sentido. "

"Era um Monstro criança, só precisava do ursinho do perdão para continuar. Ao contrário do que haviam lhes ensinado, um grande amor a gente só esquece quando reaprende a lembrar. "

Impossível não destacar e destaco na tentativa de demonstrar o quanto gosto/gostei!

Lindo, Lindo. Fiquei aqui imaginando o seu coração e o coração do Monstro. E tenho a certeza aqui comigo, a certeza de que o fim é sim importante mas, os meios são tão lindos justificando ou não o desfecho.. que talvez, nunca exista.

Maravilhoso, Pipa.

Márcio Vandré disse...

"Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi" :)
Pipa traz imensas emoções para quem lê.
Parabéns demais!
Um beijo, Pipa. Continue voando!

Franck disse...

'no fio do amor'...e, se assim, pode aparecer mosntro de maracujá e outros bichos que o amor vencerá todos!
Adoro tudo por aqui, essa saga da pipa é de arrepiar as emoções!

Fabrício Santiago disse...

Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Fabrício e cheguei até vc através do Blog do Mar Íntimo. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir meu blog Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. Estou me aprimorando, e com os comentários sinceros posso me nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs



Narroterapia:

Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.


Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.


Abraços

http://narroterapia.blogspot.com/

Maria Fernanda Probst disse...

Uau, que história, Pipa.
Roubei a frase que encerra este: um grande amor a gente só esquece quando reaprende a lembrar. E te confesso que reaprender é difícil demais.

Um beijo doce de boa-segunda-feira.

C. Diane disse...

Sempre vale a pena ler seus textos!
Tens um dom maravilhoso!!
Bela história..
Tudo aqui é encantador, sempre venho te visitar, suas palavras é de uma doçura sem igual!

Abraçooo.. até o próximo texto! ;)

Deyse disse...

Pipa, não consegui comentar no teu último post "Atravessando desertos", então, vim por aqui.

Só dizer que espero que você sare logo. Às vezes a bagagem é difícil de carregar e temos que parar mesmo. E é dolorido ter que se esvaziar de amor.

Quero prosseguir te vendo no ar. Fique bem.


Beijo na testa :*

Ziris disse...

Era um Monstro criança, só precisava do ursinho do perdão para continuar. Ao contrário do que haviam lhes ensinado, um grande amor a gente só esquece quando reaprende a lembrar.

Pipa, qdo a noite não lhe trouxer o sono, são as palavras insistindo que vc as eternize. São elas procurando onde ser coladas novamente, uma a um ano seu coração... No meu colou.

Te estico um abraço... Daqui até aí...

Velho Santiago disse...

Juro que qqer dia desses eu como todos os seus monstros tão deliciosos e nem te conto!

Crônicas do Cotidiano disse...

Saudade de você Pipa...
Bjkss no teu coração
= )