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7.13.2010

A essência do perdão









Arte:  © Agócs Írisz




Tenho tido visões com um anjo de asas degradê. Só que ele nunca me mostra o rosto. Certa noite, enquanto dormia, fui levada pelas mãos de um anjo que uma vez apareceu aqui e nunca mais foi visto. Acordei num harém povoado de estátuas com rostos de meninas ígneas que pareciam imagens vivas saindo de um quadro aquoso. Muitas flores. Rosas poentas despetalando sobre o chão. Labirintos adornados com arcos de bambu, que se estendiam para quartos dos quais do lado de fora das janelas, seres quase humanos cirandavam pelos ares. Um bosque bandeirolado de árvores peludas que refletiam contra a luz do sol, indicando com um azul celeste que o tempo estava para majestade. A poucos metros dali, a sombra enigmática de suas asas perfilava sobre as paredes do quarto com um olhar libertário. Fixei-a com os olhos, certa de que haveria ali algum mistério a  ser desvendado. Ela me guiou pelo corredor até a galeria  de um teto em pedaços. Uma porta se fechou atrás de nós. Indicou-me com as mãos para que eu a tocasse  no coração.  Eu a vi iluminar-se no que parecia um relicário de madeira, cravejado de pedras consteladas que flamejavam luzes em cores diferentes, cintilando nas paredes em várias direções. Em prece, eu a apertava com força contra o peito para que os jorros de palavras golpeassem os silêncios. Ela me fez calar descansando suas mãos perto dos meus lábios. Descobri naquela noite que só  silencia quem tem muito a dizer. De algum modo, senti que suas mãos cicatrizavam minhas dores, espalhando aromas brilhantes em meus caminhos. Uma ternura infinita me invadia o peito levando embora a tristeza que havia me consumido.  Reconciliei-me comigo e com o mundo, selando aos olhos de Deus  um pacto de paz que nunca mais seria quebrado.  Encontrava em sua luz um jeito de me perdoar por todos os fracassos, cansaços e derrotas.  Embora em algumas noites aquelas borboletas encapuzadas da infância voltassem a me visitar, eu tinha por perto aquele anjo. Tanto mais alto seja o grau de invisibilidade, mais perto a sensibilidade consegue chegar. Ele desapareceu como num passe de mágica. Nunca mais o vi. Mas compreendi que todas as vezes que sumia, era dentro de mim que ele vinha morar. Às vezes o receio é tamanho, que a gente não se dá conta de que as portas da Serenidade só estão escoradas. Cabe a nós empurrar.





Pipa

21 comentários:

Ziris disse...

Esse anjo tem as asas nos olhos, num degradê de muitos voôs que destrancam portas.

O seu voar é de costurar alegria e poder de menina que tudo sente. Só pra gente não esquecer que quando por ventura nos faltar as asas nos olhos, podemos ainda usar as do coração.

E a Pipa estica num laço, um fundo de céu, só céu...


Magnífico!

Que se encontrem no ar...

Bjooo

Serena-Cris disse...

.

De tanta adimiração por ti, me calo. É grande demais.

Agora colhi a paz!

te beijo*

=)

Willyan Luemi disse...

Pipa, confesso que abri a janela de comentários e fiquei olhando para o branco enquanto o branco não olhava pra nada, e não haviam idéias para descrever a brincadeira que você fez com a minha maneira de imaginar o mundo...

Bem, não sei o que estou dizendo.

Mas sei que seu diário, será um clássico da literatura um dia.

Um carinho nos seus sonhos!

Jacson Faller disse...

Excelente texto... Assim como o Blog. Tenha uma ótima semana. Jacson Faller.

Carmen, disse...

delicia de texto. :*

Be Lins disse...

Das Graças que podemos almejar,
a proteção Divina assim, tão particular, poética e amorosa,


se faz a certeza dos milagres cotidianos.



Beijo e Abraço em você.

LUZIA disse...

'Descobri naquela noite que só silencia quem tem muito a dizer.'

Lindo demais Pipa!!

Bjooo

Pollycléssio Mota Sá disse...

Eu não tenho muito a dizer porque quero dizer muitas coisas. Mas quem você diz ter lhe mostrado tantas coisas boas, eu tenho um nome pra chamar, e somente um... MÃE!!! É a ternura de mãe que nos faz acreditar e insistir em nossos sonhos. Nós cristãos católicos temos o privilégio de ter o afeto de duas mães, uma aqui e outra no céu. MAs as duas igualmente tem amor infinito para nos dar. Você merece mais que isso, merece um amor de MÃE.
bj Filopatia.

Ju Fuzetto disse...

"De algum modo, senti que suas mãos cicatrizavam minhas dores, espalhando aromas brilhantes em meus caminhos"

Tudo que nos toca, de forma leve nos cura da dor...

Perfeito!!!

Um beijo flor

Annanda Galvão disse...

Lindolindolindo!

Destacaria muitos trechos, o texto inteiro. Mas, esse em especial me disse mais:
Ele desapareceu como num passe de mágica. Nunca mais o vi. Mas compreendi que todas as vezes que sumia, era dentro de mim que ele vinha morar. Às vezes o receio é tamanho, que a gente não se dá conta de que as portas da Serenidade só estão escoradas. Cabe a nós empurrar.

Perfeito!!!
Parabéns Pipa!=)

Pérola Anjos disse...

Eu sinto esse mesmo anjo de asas degradê cada vez que eu empurro as portas deste seu lindo espaço.

Estava tudo tão cinza, mas de repente tudo se iluminou por aqui. É o milagre das palavras. BjsSs

Leo disse...

Pipa,
assim tu me matas do coração, que lindo texto, nunca ninguém que escreveu algo tão bonito!

Eu fiquei muito emocionado, te digo
que ele nunca vai te deixar e quando desaparece é lá mesmo que ele está.

Muito perfeito, fico até sem palavras.

Eu deixo o meu beijo, daquele
com gosto de sonho.

Ganhou sorrisos! :)

Juliana. disse...

Anjo com proteção divina, algo maravilhoso! Que texto, memória, sonho de delicadeza mil e a imagem, nem digo..rs
Um beijo da Ju

Pablo disse...

Nossa que lindo.
Ameeei!

Por que você faz poema? disse...

Preciso me reconciliar comigo.

Nane Martins disse...

Pipa, querida,

Você é tão leve! você tem asas?

Obrigada pela visita ao meu muquifo.

bjussssssss

Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ NARA CABRAL Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ disse...

ola pipa!!
amei os trechos
Ela me fez calar descansando suas mãos perto dos meus lábios. Descobri naquela noite que só silencia quem tem muito a dizer.
De algum modo, senti que suas mãos cicatrizavam minhas dores, Uma ternura infinita me invadia o peito levando embora a tristeza que havia me consumido. Reconciliei-me comigo e com o mundo, selando aos olhos de Deus
abraço com carinho

Isadora disse...

Pipa que linda história. Quando nos permitimos exergarmos todos os nossos caminhos, quando percebemos nossas fraquezas e fortalezas e aceitamos que nem sempre ganharemos todas e qua ainda assim podemos viver em paz pararemos de nos preocuparmos com as coisas pequenas.
um grande beijo

Vozes de Minha Alma disse...

Amiga Pipa!
Eu confesso que estou prá lá de boquiaberto. Mas quero te dizer que, boquiaberto de uma alegria, que não sei como te explicar...
É tão enigmática essa visão, tão sublime e majestosa, que se eu fosse um pintor, colocaria num quadro essa linda cena. Pelo pouco que nos comunicamos amiga, sinto que tu és uma mulher rica e abençoada!
E isso creio eu, devido a teu coração puro e angelical. Que essas visões sejam um marco do antes e depois na tua vida.
Que essas visões, sejam o símbolo do doce coração de mulher, que por estes dias tem pranteado num chão doloroso, totalmente oposto da visão maravilhosa do teu coração!
Um abraço do teu leitor, beijos.

Nati disse...

E hoje agradeço ao Pai pela oportunidade de ler-te... daqui saiu com esperanças renovadas e com a certeza q logo darei um salto pra dentro e farei o sol irradiar-se pra fora.
beijos pra ti :)

Crônicas do Cotidiano disse...

Oii Pipa...

Só silencia quem tem muita pra falar. Concordo contigo minha leve amiga. Adoro esse resgaste tão doce e puro da infância... E obrigado por compartilhar conosco, um pouco do baún da tua infância, mesmo que imaginária.
Um beijo forte na tua alma minha amiga...