10.30.2009

Sobre quedas e vôos

Eu me lembro dessa parte. Essa vontade de céu já não é de agora. Certa vez a vi imitando um desenho animado de uma tv preto e branco. Tinha um caderno nas mãos. Tomou nota de todos os passos de uma gaivota, que no papel, coloriu de azul. No desenho ela estava pousada sob uma árvore. Abriu as asas farfalhantes, se jogou no ar e esperou o vento levá-la. Pensou a menina: - Eu sou tão pequena ainda, meu Deus. Não é possível que esse vento não me leve também. Mas ela não podia fazer isso sozinha. Precisava encontrar um pássaro que a ensinasse voar. Porque só eles tem o segredo. Aqueles olhos de artilharia não me saem da cabeça. E lá se foi ela materializar o seu plano de vôo. Rasgou as anotações do caderno e as levou ao bolso. Ela tinha tanta certeza que iria conseguir que tirou de um travesseiro uma velha fronha. E dela fez uma trouxa. Colocou dentro um par meias listradas, o colírio de estrelas – presente do avô e um cobertor xadrez, pro caso de o céu estar frio. O colírio. Ah sim. O colírio era pro caso de lá em cima ver alguma coisa que ela não gostasse. Era só pingar e pronto. Mas ela precisava treinar. Subiu numa árvore. Sua mãe sempre a observar aquela vontade. E dizia: - Menina você nunca vai conseguir voar. Porque nós seres humanos não podemos fazer isso. Nós não temos penas. E desça logo daí, antes que você se machuque! Olhar ignorado. Mas mãe era mãe. Quem sabe ela teria razão? Quem sabe todas as tentativas passadas não estavam dando certo, pelo simples fato de que ela não tinha penas? Achou um jeito de resolver. Ela passou um mês inteiro juntando todas as penas que via na frente pra fazer um par de asas brancas. Escolheu-as com cuidado. Juntou também quatro pedaços de papelão que dividiu em duas partes. E os amarou com couros de cores diferentes. E colou as peninhas com um tubo de tenaz. Juntou naquilo tudo uma barra de estrutura de ferro, que fez com pedaços de antenas que caíram do telhado. E finalmente achou um passarinho. Depositou nele todas as suas esperanças. Era grisalho. Pensou ser um passarinho que sabia das coisas. Era esse mesmo. Ela tinha quase certeza. Decidiu perseguí-lo até o alto do morro pra perguntar como ele fazia pra voar. Ela só tinha três anos. E já estava com tudo pronto. Mas voltou triste pra casa. Aquele passarinho não entendia o que ela dizia. Nem mesmo mostrando os rascunhos. É que ela pensou que ele falasse português.
Pipa. A que ainda vai voar.

3 comentários:

Cris disse...

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ocê me espanta, mulher ... de tão bem que me descreve ...

xero!

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Anônimo disse...

Linda mensagem.
Muito forte!

Parabéns, seu blog é fantástico!

Rogério disse...

Parabéns Lídia, um mais lindo que outro. A muito tempo não via alguém com um talento tão maravilhoso como o seu.
Bjo