10.20.2009

É preciso coragem




Venha cá, mãe. Deixe-me ler para a senhora: A mulher se aproximou buscando definição. A menina dilatou o verso e deitou as reminiscências: Da última vez que a vi. Há quarenta anos atrás. Ela estava num altar de duas pontas da vida. E só tinha uma mochila nas costas. O coração estava escondido num vestido de veludo roxo, que havia comprado com o ordenado do mês. Uma alma camponesa e um gênio essencialmente trágico com cara de passado e olhos baixos de misericórdia. Parecia um burro miúdo e resignado com um sorriso jocoso de poeira e farelo, de Guimarães Rosa. Mas tinha uma voz interior que dizia: Tu serás feliz ainda menina. Só que ela nunca acreditou nisso. Com ar de reprovação, a mulher voltou os olhos para menina e certificou-os pensativa. E se lembrou que suas idéias nunca usaram salto alto. E achou por bem deixar passar o tempo. E sua resignação não economizou nisso. Hoje ela está muito idosa. Enquanto penteava os poucos cabelos, se olhava no espelho como quem queria ser descoberta. E se lembrou daquela menina. Abriu uma caixinha de louça empoeirada pelos anos que a pintura escondia. E a levou até o coração fatigado. E de lá tirou um batom vermelho-intenso que jamais poria em si, por relembrar a mocidade. Na parede do quarto, pendurado, um calendário tingido com números de telefone de quem. Ela nem sabia mais. Saltou os olhos ao pêndulo do relógio. E notou uma decrépita distância. Levantou-se mais que depressa. Foi até o quintal e sentou-se à sombra do que havia desejado para si. E chorou convulsivamente por uma mulher que a menina jamais iria conhecer. "A mulher que ela iria se tornar".





Inspiração em Guimarães Rosa In.: Sagarana
E no filme Amor Além da Vida.



Pipa.

Um comentário:

Anônimo disse...

Puta que pariu!

Que isso hein!

Show de bola

Abraços

Afonso