13.3.18

PALAVRA-MESTRA

     
Paul Klee, Angelus Novus, 1920.

"Em pé sobre a visão submersa dos anjos,
nada é tão impossível para que não me dissesses:
entre um barco e outro deves lavar
os teus olhos sempre que voltes a olhar o mar."
    Joaquim Cardoso Dias  
                 

É como se milhares de chaves tremessem nos trincos das portas. Experimentamos palavra após palavra no limiar de acesso. Nenhuma que nos abra. Mas ainda será possível ouvir a martelada surda dos sinos? Certamente, não aqueles cones ocos projetados em video-wall que só ressonam ao serem golpeados aos ouvidos de todos nos picadeiros das catedrais das praças centrais das cidades principais, mas estes aqui, os sinos soltos da teoria de Barsotti: ó tu que, criando-me, te fizeste termo do meu caminho no mundo, diz-me onde estás, para que eu possa aproximar-me. Dei um passo, depois mais outro. A mãe de Forrest Gump sempre dizia que é possível conhecer alguém pelos sapatos, para onde a pessoa vai, onde esteve. Eu não sei se a mãe de Forrest estava certa, se é mesmo preciso sapatos diferentes para cada viagem que fazemos, eu não sei, como quando cheguei outra noite com as botas encharcadas pela chuva que pintou de cinza todas as ruas e avenidas por onde passei com os meus sonhos. Na cidade das luzes estou aprendendo lições que me orientarão pelo resto da vida, entre elas, aparelhar-me para o dia em que terei de enfrentar o mundo sozinha? Tenho agora um caderno e uma caneta só meus, há corujões de plumagem branca, bicos entreabertos e pupilas dilatadas em cada cômodo que entro. Os meus novos ídolos têm a capa de um crocodilo familiar, a mesma que ele usou para se tornar mestre na arte de proteger a indefesa humanidade da fúria dos tigres. Eles me dizem que o único milagre que me fará dominar a travessura de ler almas é a prática reiterada, e neste ponto, o norte não será senão tudo o que um olhar geodésico for capaz de flagrar passando. Caminho um bom bocado a pé até chegar ao trabalho. No entanto, não me doem mais as bolhas dos pés, nem me ardem os calos sangrentos dos calcanhares e já não tenho medo de voltar sozinha para casa à noite. E nem poderia ser diferente, cresci no lombo de um cavalo aquático chamado Queimado e não era sempre que ele fazia questão de ser montado. Aos quatro anos já caçava iambus-bico-de-lacre com estilingues, perseguia tatus-bola nas tocas, jogava sal nas costas dos sapos, corria com os lobos selvagens na superfície espelhada dos lagos, implicava com as maritacas do céu usando longas varetas de pau, encantava serpentes de cores e tamanhos diferentes, chamava todas as vaquinhas de leite e seus bezerrinhos pelo nome, e uma manhã houve, que acabei cúmplice de Barsotti no assassinato de um jacaré ermitão em plena sexta-feira-da Paixão. Pecado do qual fomos perdoados no confessionário da Capela de Ossos de Sonhos Mortos onde vive o gorducho Reverendo Walpod, não sem antes consentir que ele botasse um monte de pedras dentro dos nossos sapatos e nos obrigasse a andar o dia todo com eles. Barsotti por ser um biruta e eu pela extrapolação da ingenuidade de acreditar que o espécime fosse acordar do apagão assim que ingerisse o misterioso líquido que gastamos uma eternidade preparando até fazer com que ele explodisse como uma supernova diante dos nossos focinhos. Todas essas vivências devem ter alguma serventia. Ando pelos lugares tão transparente que, por vezes, quando cruzo com um andarilho, um viciado ou batedor de carteiras, crivam os olhos de abandono em minha direção, duvidam que existo e tomam-me por uma assombração. Assombração... As'sombr'ação. Eu?! Eu não devia ter pronunciado essa palavra. Olha, olha, olha só para o céu! Está escurecendo, vai escurecer, já escureceu... A grande tormenta aproxima-se. Não é uma tempestade qualquer, é a chuva de meteoros perseidas. Vem dos paraísos extintos, sopradas pelas línguas das lamparinas dos eremitas, forjadas no decor finissecular dos Bruxos-de-Sabás. Os demônios de pedra despertaram. Abrem os olhos, soltam-se das gárgulas e partem os vidros de todas as janelas com a incipiência das garras para arrastar as suas cobaias. Aí vem elas: curvadas como um fantasma raquítico e desencarnado sobre a gare dos séculos, chegam assoviando e  pedalando e diante da sua ternura, a escuridão para a qual passamos a maior parte do tempo olhando desiste de continuar nos encarando. Arrebatam-nos para um abismo muito abaixo da superfície do solo e já estamos nas periferias próximas da luz, do alto onde as vozes de todos os pássaros se encontram. As suas bicicletas voadoras saltam sobre muros pichados com iniciais de antigos casais, deslizam cheias de encanto pelo tapete que o pôr-do-sol estende,  seguem pelos telhados da cidade antiga e erguem, faceiras, a indestrutível ponte de rodelas, de onde brotam agora dezenas de embarcações trazendo inesperadas riquezas, vindas dos grandes mares do Ocidente, América, Europa, Ásia, Oceania e Antártida para, em seguida,  tornarem a desaparecer debaixo dos viadutos aquecidos pelas labaredas do puro versus fogo cuspidas pelas ventas dos grandes hippies, e depois reaparecerem com piruetas impossíveis sobre os tetos dos carros apressados que se acumulam como ruínas azuis no tédio dos cruzamentos, vá saber de que calendário. As brejeiras recém-nascidas das lodacentas savanas imaginárias sorriem-nos com a graça aérea das crianças de asas diabolicamente abertas, vem dançar nos telhados das casas, prédios, ruas, avenidas, praças, parques, pátios de supermercados, portões de escolas, portas de bares, entradas de festas e suas cores quentes penetram no fundo frio das almas para nos fazer enxergar exatamente o que elas enxergam. Quem emancipou as pipas que brincavam magníficas no sol-da-meia-noite? Quem apagou a luz dos olhos dos nossos corações radiosos? Quem saqueou os reflexos de dentro dos espelhos e fugiu com o trompe-l'oeil dos nossos ângulos? Estou pensando em água, terra, vento, bambu, cola, linhas, papel-de-seda, sol, céu, estrelas. Outra noite, estava sentada no banco da praça XV, olhando para todas essas coisas que ninguém mais olha, quando Walpod, o Reverendo gorducho da cidadela que reza o dia todo, anuncia castigos esmagadores e só come costela de porco, veio me falar que o meu Barsotti não existe. Soah, soah, soah — falei mordendo os lábios como se fosse arrancá-los e exibi um sorriso de canto, deixando nos lábios aquele brilho cintilante de significados. Continuei de costas viradas para ele. O anjo da minha história jamais apareceria para o Reverendo Walpod. O anjo da minha história sorri, desperta a inveja e a cobiça de todas as substâncias viscosas que se derretem como borrões de aquarela na sua presença e é curiosamente alheio à sua grandeza. O anjo por mim adorado é sem nascimento ou morte, não fala a língua dos homens e sabe exatamente para que lado fica a eternidade. Barsotti, a minha girafinha de pelo amarelo-tostado é feiticeira, moleca, brincalhona, têm nos olhos dois topázios azuis e carrega o mundo no sopro de uma flauta de luzes e cores que giram caleidoscopicamente no psytrance dos seus infinitos braços e mãos.

por pipa, a pipa dos Ventos
lídia martins

Um comentário:

Milene disse...

Sempre me fazes sonhar, conhecer um pouco do profundo de todas as coisas, cada frase parece um pedaço do mundo.