Paul Klee, Angelus Novus, 1920.
"Em pé
sobre a visão submersa dos anjos,
nada é tão
impossível para que não me dissesses:
entre um
barco e outro deves lavar
os teus olhos
sempre que voltes a olhar o mar."
Joaquim Cardoso Dias
É como se milhares
de chaves tremessem nos trincos das portas. Experimentamos palavra após palavra
no limiar de acesso. Nenhuma que nos abra. Mas ainda será possível ouvir a
martelada surda dos sinos? Certamente, não aqueles cones ocos projetados em video-wall que só ressonam ao serem golpeados aos ouvidos de todos nos picadeiros das catedrais das praças centrais das cidades principais, mas estes aqui,
os sinos soltos da teoria de Barsotti: ó tu que, criando-me, te fizeste termo
do meu caminho no mundo, diz-me onde estás, para que eu possa aproximar-me. Dei
um passo, depois mais outro. A mãe de Forrest Gump sempre dizia que é possível
conhecer alguém pelos sapatos, para onde a pessoa vai, onde esteve. Eu não sei
se a mãe de Forrest estava certa, se é mesmo preciso sapatos diferentes para
cada viagem que fazemos, eu não sei, como quando cheguei outra noite com as
botas encharcadas pela chuva que pintou de cinza todas as ruas e avenidas por
onde passei com os meus sonhos. Na cidade das luzes estou aprendendo lições que me orientarão pelo resto da vida, entre elas, aparelhar-me para o
dia em que terei de enfrentar o mundo sozinha? Tenho agora um caderno e uma
caneta só meus, há corujões de plumagem branca, bicos entreabertos e pupilas
dilatadas em cada cômodo que entro. Os meus novos ídolos têm a capa de um
crocodilo familiar, a mesma que ele usou para se tornar mestre na arte de proteger a indefesa humanidade da fúria dos tigres. Eles me dizem que o único milagre que me fará
dominar a travessura de ler almas é a prática reiterada, e neste ponto, o norte não será senão tudo o que um olhar geodésico for capaz de flagrar passando. Caminho um bom bocado a pé até chegar ao trabalho. No entanto, não me doem mais as bolhas dos pés, nem
me ardem os calos sangrentos dos calcanhares e já não tenho medo de voltar
sozinha para casa à noite. E nem poderia ser diferente, cresci no lombo de um
cavalo aquático chamado Queimado e não era sempre que ele fazia questão de ser
montado. Aos quatro anos já caçava iambus-bico-de-lacre com estilingues,
perseguia tatus-bola nas tocas, jogava sal nas costas dos sapos, corria com os lobos
selvagens na superfície espelhada dos lagos, implicava com as maritacas do céu
usando longas varetas de pau, encantava serpentes de cores e tamanhos
diferentes, chamava todas as vaquinhas de leite e seus bezerrinhos pelo nome, e uma
manhã houve, que acabei cúmplice de Barsotti no assassinato de um jacaré
ermitão em plena sexta-feira-da Paixão. Pecado do qual fomos perdoados no confessionário da Capela de Ossos de Sonhos Mortos onde vive o gorducho Reverendo Walpod, não sem antes consentir que ele botasse um monte de pedras dentro dos nossos sapatos e nos obrigasse a andar o dia todo com eles. Barsotti por ser um biruta e eu pela extrapolação da ingenuidade de acreditar que o espécime fosse acordar do apagão assim que ingerisse o misterioso líquido que gastamos uma eternidade preparando até fazer com que ele explodisse como uma supernova diante dos nossos focinhos. Todas essas vivências devem ter alguma serventia.
Ando pelos lugares tão transparente que, por vezes, quando cruzo com um andarilho,
um viciado ou batedor de carteiras, crivam os olhos de abandono em minha
direção, duvidam que existo e tomam-me por uma assombração. Assombração...
As'sombr'ação. Eu?! Eu não devia ter pronunciado essa palavra. Olha, olha, olha só para o céu! Está escurecendo, vai escurecer, já escureceu... A grande tormenta aproxima-se. Não é uma tempestade qualquer, é a chuva de meteoros perseidas. Vem dos paraísos extintos, sopradas pelas línguas das lamparinas dos eremitas, forjadas no decor finissecular dos Bruxos-de-Sabás. Os demônios de
pedra despertaram. Abrem os olhos, soltam-se das gárgulas e partem os vidros de
todas as janelas com a incipiência das garras para arrastar as suas cobaias. Aí
vem elas: curvadas como um fantasma raquítico e desencarnado sobre a gare dos
séculos, chegam assoviando e pedalando e diante da sua ternura, a escuridão para a qual passamos a maior parte do tempo
olhando desiste de continuar nos encarando. Arrebatam-nos para um abismo muito abaixo da superfície do solo e já
estamos nas periferias próximas da luz, do alto onde as vozes de todos os pássaros se
encontram. As suas bicicletas voadoras saltam sobre muros pichados com iniciais
de antigos casais, deslizam cheias de encanto pelo tapete que o
pôr-do-sol estende, seguem pelos
telhados da cidade antiga e erguem, faceiras, a indestrutível ponte de rodelas, de onde brotam agora dezenas de embarcações trazendo inesperadas riquezas, vindas dos grandes mares do Ocidente,
América, Europa, Ásia, Oceania e Antártida para, em seguida, tornarem a desaparecer debaixo dos viadutos
aquecidos pelas labaredas do puro versus fogo cuspidas pelas ventas dos grandes
hippies, e depois reaparecerem com piruetas impossíveis sobre os tetos dos carros apressados
que se acumulam como ruínas azuis no tédio dos cruzamentos, vá saber de que calendário. As brejeiras recém-nascidas das lodacentas savanas imaginárias sorriem-nos com a graça aérea das crianças de asas diabolicamente abertas, vem dançar nos telhados das casas, prédios,
ruas, avenidas, praças, parques, pátios de supermercados, portões de escolas, portas de bares, entradas de festas e suas cores quentes penetram
no fundo frio das almas para nos fazer enxergar exatamente o que elas enxergam.
Quem emancipou as pipas que brincavam magníficas no sol-da-meia-noite? Quem
apagou a luz dos olhos dos nossos corações radiosos? Quem saqueou os
reflexos de dentro dos espelhos e fugiu com o trompe-l'oeil dos nossos ângulos? Estou pensando em água, terra, vento, bambu, cola,
linhas, papel-de-seda, sol, céu, estrelas. Outra noite, estava sentada no banco
da praça XV, olhando para todas essas coisas que ninguém mais olha, quando
Walpod, o Reverendo gorducho da cidadela que reza o dia todo, anuncia
castigos esmagadores e só come costela de porco, veio me falar que o meu
Barsotti não existe. Soah, soah, soah — falei mordendo os lábios como se fosse arrancá-los e exibi um sorriso de canto, deixando nos lábios aquele brilho cintilante de significados. Continuei de costas viradas para ele. O anjo da minha história jamais apareceria
para o Reverendo Walpod. O anjo da minha história sorri, desperta a inveja e a
cobiça de todas as substâncias viscosas que se derretem como borrões de aquarela na sua presença e é curiosamente alheio à sua grandeza. O anjo por mim adorado é
sem nascimento ou morte, não fala a língua dos homens e sabe exatamente para
que lado fica a eternidade. Barsotti, a minha girafinha de pelo amarelo-tostado é
feiticeira, moleca, brincalhona, têm nos olhos dois topázios azuis e carrega o
mundo no sopro de uma flauta de luzes e cores que giram caleidoscopicamente no
psytrance dos seus infinitos braços e mãos.
por pipa, a pipa dos Ventos
lídia martins

Um comentário:
Sempre me fazes sonhar, conhecer um pouco do profundo de todas as coisas, cada frase parece um pedaço do mundo.
Postar um comentário