1.2.18

DE PÉ, um homem.

  
Arte: Rafal Olbiński
"Quando eu morrer, enterrem-me num campo de golfe. Assim, sempre posso ter esperança de que o meu marido me venha visitar." jim bishop


No que pensa um homem enquanto segura um taco de golfe? Em mim? Ido dormie... Desligo-me de você, com todos os fios da minha existência sendo retirados, apago-me.  disse o improvável bicho da estrada naquela tarde de sábado, enquanto tomávamos, sabe Galileu a quantos anéis de Saturno um do outro, o mesmo café preto, nas mesmas xícaras fumegantes, e observávamos o mesmo sol torrar os telhados das casas e prédios do bairro com seu amarelo inventado. Estamos no automático  falei mastigando melancolicamente uma bala de goma. Deve existir uma razão para que os homens tanto apreciem partidas de golfe — pensei com meus botões. Pouco se sabe sobre a sua origem. Reza a lenda escocesa, uma ocasião houve, que um Deus irado estava agachado em meio a uma moita de capim-navalha, na esperança de atocaiar um lobo esquálido, indômito e imundo que teria espalhado todo o seu rebanho, até que perdesse o foco desta singela parábola que não está no pastor, mas na graça das ovelhas em ver o seu guia bater pequenas pedras arrendondadas com seu cajado, e ao repararem que a pedra havia caído acidentalmente dentro da toca das lebres, as ovelhas teriam descoberto o golfe. E, acredite ou não, a certidão de nascimento desse jogo acabou surrupiada pela agilidade estática das lebres, heroísmo que teve um fim prematuro, pois tornaram a perdê-la para o lobo, parte tão familiar do antigo mundo.  Os desejos por esse esporte não se manifestam à toa. Embora seja um exercício de alta sociabilidade, o golfe é uma atividade unilateral, e exige dos seus praticantes um elevado nível de ceticismo, conduzido à epokhé, seguido da ataraxía, não uma qualquer, mas uma absoluta, seja ela qual for. Eu, por exemplo, parei de jogar faz alguns anos. Os velhos amigos que fiz na confraria golfística acusaram-me de novata, ingênua, descuidada. O cavalheiro Sexto Empírico entenderia a minha recusa em conceder o benefício da minha confiança a um jogo que coloca a própria dúvida em dúvida. Estou tentando de novo. A esperança de encontrar o equilíbrio dos tendões das pernas, dos ombros, dos braços, dos pulsos, me devolve um swing que há muito perdi, nem procuro. Quem é aquele senhor que acabou de chegar? Hole in one. É como uma bola de golfe prestes a cair no inevitável green. Não raro, somos confrontados pelos falhanços dos próprios campos, nunca iguais aos outros. É difícil prever o comportamento da bola, indecisa se vai para trás, para frente ou para o lado, a sensibilidade do jogador na pancada curta, média ou longa, os principais shots, as zonas irregulares onde se traçam as estratégias de defesa e ataque. A força com que se agarra o cabo, a rotação do corpo para que ganhe balanço na hora da pancada, a tentação de levantar a cabeça para acompanhar a curva pronunciada e descontrolada da bola. Todos esses ritmos nos advertem sobre tendências perigosas, e nesse fairway, não somos tão habilidosos quanto pensamos. Ou somos? As cigarras tornaram a matraquear nos quintais. Caracóis minúsculos imprimem trilhos entre os aglomerados de vasos de calêndulas. Um louva-a-deus, com seus torsos retesos, olhos mordidos, e mãos cruzadas para esperar ou rezar, entra resfolegando pela janela do apartamento, sem entender o que está acontecendo. Despisto-o com uma tigela repleta de asas de libélulas, o seu reflexo se alonga no piso escorregadio em que o demônio desenha a sua sombra, e se perde na triste hesitação das páginas viradas. Estou pensando em cordeiros. Tento contá-los. Eles são tantos. Levanto-me em meio ao rebanho que sobe pela encosta relvada do meu sonho, e somos longe, muito longe. Estou rodeada por todos eles. Olhamo-nos como se fôssemos somente olhos, quadros de um só Hopper, um só Olbiński, um só Atkinson, irrecusavelmente íntimos da solidão uns dos outros. Tanto faz se estamos sós ou acompanhados nesta estúpida bolha de competições, a bola lançada violentamente da ponta do taco numa vida em pleno voo, dificilmente encontrará o seu encaixe. E ainda insistimos nos lances, nem que seja pelo prazer de vê-la desaparecer por detrás do bunker.

lídia martins

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