Edward Hopper, Drug Store
Instrumental: John Stockton Slow Drag, Chris Zabriskie
Às
vezes, sair para comprar aerolin® spray não tem mais volta. Poetas são
semeadores de estrelas. Não aquelas já contadas, mas estas, que ainda estão por
contar. Eis-me aqui, vagando pelos corredores das noites insones. Se estamos
condenados a viver fingindo, devíamos, no mínimo, questionar qual o sentido de
tudo isso. Quem sou eu? Quem és tu? Quem são eles? — perguntam-me. Poes de uma
Baltimore inexistente?
Recordo-me,
quando criança, de subir no telhado da velha casa no campo e arrancar um pedaço
da antena em formato de espinha de peixe. A ideia era forjar um canudo que
durasse pela eternidade. O dia estava abafado, impossivelmente cinzento, e os
únicos ruídos que se faziam ouvir eram os dos ratos, aranhas e morcegos. Olhei
para o filtro de barro, suspenso na extremidade do corredor, e improvisei uma
escada feita de tamboretes de tamanhos diferentes, de tal forma que eu
conseguisse alcançá-lo. Após cerrar as pontas do canudo que extraíra sem
dificuldade, em um tijolo, enxaguei-o em um baldinho vermelho e tornei escalar
o meu pequeno Everest. Agora, com o copo e o canudo de alumínio, que pareciam
feitos um para outro, de tanto que combinavam, abri a torneira, curvei-me
diante daquela cascata que os fios de água formavam, e esperei pacientemente
até que transbordasse. Fiz uma dúzia de borbulhas sorrindo à saúde daquela
descoberta, afinal de contas, eu tinha sido a primeira criança a inventar o
canudo mais resistente do mundo. A sede e a vontade de beber fizeram com que a
água subisse com urgência do copo para o canudo, e a boca, seca como os
girassóis que havia colhido para colocar na jarra três dias antes, foi
milagrada por aquela pouca de água. Quando finalmente sorvi a última gota, toda
aquela engenhoca desabou comigo, incluindo o filtro de barro que eu havia
abraçado para me proteger. Lembro-me de fechar os olhos e tentar, em vão,
pronunciar a palavra ar. Os meus gemidos afogados pela tormenta que arrancou parte
do telhado para avisar que havia chegado, sinalizaram onde caí. Encontraram-me
por baixo das saias do filtro de barro, soterrada por centenas de meteoritos de
cerâmica, segurando nas mãos uma espécie de vela breu, que diante do meu olhar
infantil, não fazia muito sentido.
Horas depois, sob uma chuva de partir os
ossos, cheguei ao pronto-socorro da cidadela mais próxima, com uma barra de
alumínio atravessada no céu da boca. Não me esqueço de um menino maltrapilho
com uma das pernas encostada na parede em frente ao corredor. Os olhos eram-lhe
como dois pratos brancos e rasos, e as pupilas, em formato de garfo, estavam
prontas para espetar qualquer coisa viva que cruzasse aquele círculo invisível
de fogo. Olhámo-nos como se olhássemos, não um caminho, mas um atalho sufocado
por onde pudéssemos escapar de nós próprios. Perto dele havia uma menina de
pouco mais de quatro anos, com alma e corpo de bailarina, sem lábios nem olhos,
segurando nas mãos e próximo ao pescoço o que parecia um laço, um fio, ou uma
corda. Não sorriam nunca, e eu sorri de volta. Frankenstein's — pensei.
Levaram-me às pressas para a sala de emergência, e fiquei ali, imóvel,
assistindo ao cortejo silencioso de tesouras, alicates e bisturis, que mais
parecia um carrossel de cavalinhos cruéis, esquecidos de que eram só imaginação
a simularem um galope real em minha direção.
Passado
o espanto, boquiaberta de medo de me terem desmanchado inteira para consertar o
estrago, abri um olho, depois o outro. Por um momento, tive a sensação de que o
meu olho esquerdo foi colocado no lugar do coração, e o coração havia sido
pregado no alto da minha cabeça, como um chapéu. No entanto, o pequeno espelho
ao lado da cama mostrou-me que nada disso acontecera. Deslizei a ponta da
língua pelas suturas na esperança de mover os maxilares desencontrados, e senti
que as costuras ainda sangravam. Deixei escapar um suspiro profundo, sorrindo
para o enfermeiro de dentes muito brancos e nariz pontiagudo, e caí em um sono
pesado de esquecimento, na certeza de que, cedo ou tarde, o tempo se
encarregaria de suavizar aquele incômodo. Não tardei descobrir que aquelas
duras linhas eram a garantia de que eu havia sobrevivido a mais um tombo, e,
talvez, com sorte, sobrevivesse a outros. Seis anos, seis pontos, seis
estrelas. Elas estão bem aqui, ainda estou contando.
Demorei
muito? Trinta e dois anos, seis dias e onze horas. Foi o tempo que a memória
daquela tarde precisou para que voltasse a me procurar. E não foi para fazer as
pazes.
Uma
ocasião houve, completamente esquecida no balcão de um café, que conheci um
estranho. Um afiador de facas e machados. É como gosto de imaginá-lo. Devia ser
por volta das seis da tarde quando, a passos lentos, uma sombra colossal
estacionou a bicicleta com uma pasta de livros presa na traseira, adentrou a
cafeteria e sentou-se do outro lado do balcão. Logo após a sombra, veio o
homem, um pouco menor que ela. Não me esqueço dos cabelos, fios de um
alaranjado muito vivo, que serpenteavam como labaredas ao redor do pescoço,
dando a impressão de que aquela criatura estava pegando fogo. O cometa Swift
Tuttle — pensei. Vestia uma camisa xadrez de mangas dobradas, de um algodão
tingido de verde, azul, creme, e cinza, e tinha no rosto um par de óculos
quadrados. Pediu à garçonete que lhe trouxesse um suco de laranja, procurando por
um canudo familiar que, para a minha surpresa, tinha a mesma cor transparente
do copo, e o tomou de um só trago. Abriu a maleta, sacando um tinteiro com a
ponta amassada e um livro despedaçado, com todas as páginas todas em branco.
Negro fumo, polímero, solvente e goma-laca. Fissura, fissura, fissura, a bruma
exalante da mais potente droga já inventada. Eu poderia sentir aquele odor
peculiar de tinta fresca a quilômetros de distância. Aquelas mãos e braços
cheios de inscrições e símbolos exóticos diziam tanto ou mais que os olhos.
Conjecturei se Charles Baudelaire não o teria imaginado...
Volto
àquele instante para sempre perdido e paro rente aos seus olhos. Estamos frente
a frente, mas ele não vê meu rosto. Eu devia dizer alguma coisa. Que o amo? Mas
ele nem me conhece, vai rir de mim, e ainda por cima, pode achar que estou
delirando. Por um segundo, fantasio sua barba por fazer, de fios muito grossos,
roçando lenta e dolorosamente a superfície do meu rosto. Pergunto-me se retribuiria
o gesto. Não tenho respostas, qualquer palavra-peixe que atire em meio a esse
oceano de sensibilidade seria uma isca envenenada, poderia saquear dele a
profundidade e ser facilmente carregada para a margem. Eu poderia dizer que
somos almas siamesas, coladas umas às outras, com quatro únicos olhos de não
ver tudo, mas revelar esta tibieza poderia ser perigoso. Ele continua não
olhando. Ele não vai olhar. Ele não olhará. Entre içar ou não as velas do barco
que ancorei na superfície dos seus olhos, mudo de ideia a cada trinta segundos.
Haverei eu, depois de tantos desencantos, de inventar outro tom de azul para
seguir navegando? Estou falando com você, da lonjura muda dessas palavras,
enquanto imagino-te a lê-las, agitando a corneta ensurdecedora desse spray para
asma.
Ar, ar, ar, eu poderia encher páginas inteiras com esta palavra. No mês passado tive lepra, catapora, diarreia, esquizofrenia, sarampo, caxumba, rubéola e bactéria. Antes disso, tinha saído para cortar os pulsos, pular da ponte e beber veneno para matar camundongo, por causa de um abscesso na garganta que me fez perder a fala há pouco menos de cinco semanas. Sem contar que está tudo acabado entre mim e o meu estômago, e já não durmo e nem como direito devido a um refluxo gastro-esofágico que tornou impossível o nosso convívio. Este sábado atacou a rinite e a otite alérgica que obstruiu as vias aéreas, devido a exposição a um alérgeno inalável, que de acordo comigo mesma, se deu por meio de uma resposta imunológica mediada por StR ou foi do IgE? Eu sempre confundo as siglas. Tenho de ministrar três baforadas a cada duas horas. Ela piora se não for adequadamente tratada. Respiro um ar que já não é só meu e há sempre as noites
em que ele me falta.
É
como um pé de vento que se quebra no rosto e depois de fazer festa entre os
cabelos nos devolve o fôlego. Gosto de pensar que o Tempo seja um caprichoso
retratista à espera do nosso melhor ângulo. Este aí, com novíssimos olhos,
acabados de nascer, que sabe ser invisível e, nos finais de tarde, passeia
distraído pelas ruas e avenidas desertas, olhando o sol mergulhar no horizonte,
esperançoso de encontrar figuras humanas nas fachadas douradas dos prédios, nos
portões coloridos das casas, nos bancos de madeira das praças, nos cafés
repletos de revistas e jornais antigos, nos carrinhos de pipoca e barracas de
cachorro-quente apinhados nas calçadas dos mercados públicos, nas rodas
gigantes dos parques suspensas por torres acesas como candeeiros de fé, entre o
azul do dia e o escuro da noite, mas em tamanho contraste com eles, que parecem
pertencer a mundos distantes. E ele sim, ele sempre haverá de passar por nós,
logo que passemos por ele, tanto quanto haveremos de passar uns pelos outros,
assim que passarmos por nós próprios.
Tudo isto, pelo milagroso instante em que observador e observado deslizarão pelo corrimão da imobilidade que há em toda
tela e em um salto sem rede, os pés se entregarão gentilmente aos passos
aprendendo e ensinando que, talvez, o melhor desfecho seja respirar respirando,
perdoar perdoando, esquecer esquecendo, caminhar caminhando, abraçar abraçando,
recomeçar recomeçando, e, sobretudo, assombrar assombrando.
O
céu está riscando relâmpagos em todos os ângulos, de alto a baixo. Deslizo as
mãos no pelo arrepiado do meu gato, que dilata as luas dos olhos, exibe as
garras retráteis e salta do meu colo. Um susto reconhece o outro.
lídia martins

Nenhum comentário:
Postar um comentário