7.19.2017

PROXIMITÉ

Main, xilre, 2017.
                                                                  As ruas desta cidade me fazem meio Wood Allen.  A lapiseira de grafite era agora uma saudosista e a ponta suja de realidade, letra a letra, torna a reconhecer a primavera com que a vida vai compondo suas armadilhas. Ajeito uma vez mais o casal de namorados que adquiri em uma loja de desenhos. Penso na ponte que rabisquei e, tempos depois, aqueles que amo atravessam pela primeira vez. Aproximei-me do vão da janela e, com a ponta do indicador, afastei a cortina. Pequenos clarões recortam a vidraça e formam um buquê de luzes que dançam suspensas no cômodo anonimato da sombra. Azul, verde, âmbar, cores que viajam perdidas como os zepelins da minha infância. Pétalas de poeira explodem e apagam e imagino aquelas nebulosas do cosmos, infinitas, indecifráveis, lux aeterna, fotos de um telescópio. Corpos-naus deslizam pelo mar do asfalto levados apenas pela vela dos cabelos. Daqui, posso ver os skatistas se emparelhando para praticar street style. Acima deles, atrás do monte, a lua está surgindo e bate nos prédios altos, nas agulhas dos pinheiros, nos guidões das bicicletas, nas cadeiras dos balanços que o vento empurra sozinho. Há porque sair de casa. Há porque catalogar nuvens. Há porque fixar miragens. A formatura da escola está próxima. Fiquei de recuperação em administrativo. Perdi oito quilos e o espelho anda zombando das minhas pernas em formato de graveto. Troquei os óculos com a haste quebrada por outros com estampa tortoise, e, pelas contas que meus amigos fizeram, fiquei com 65 anos a menos. Apaixonei-me pela terceira vez só neste semestre e me declarei apenas para o Guilherme, para o Gabriel e o Gustavo ainda estou reunindo coragem. Pintei os lábios com o batom heroine e imprimi mil beijos num papel de carta para enviar a uma amiga, ela saberá por quê. Assisti a um filme do francês Patrice Leconte, lendo apenas as imagens e me diverti bastante. Ainda tenho duzentos gramas de marshmallow, caso a saudade de casa aperte. Descobri o nome do cobrador de ônibus que acha graça da minha caligrafia tremida. Uma procissão de estudantes com cartazes suplicando por mais afeto abraçou-me enquanto caminhava distraída pela rua Felipe Schmidt. Fotografei um mendigo deitado ao sol, e suspirei com a transparência das asas de uma libélula pousada no seu cobertor de papelão. Ofereci balas de goma a um saxofonista que se exaltava em meio à multidão por terem amassado uma velha lata de chá com as moedas que recebeu. Deixei um poema no banco da Praça XV, na esperança de fazer o dia de alguém feliz. Um desconhecido veio falar comigo sobre uma tartaruga gigante com quem se cruzou, mas não soube dizer se ela era real. O inverno está menos rigoroso que em julho passado. Tenho pouco tempo para ver o mar, apesar de morarmos perto. Da última vez que entrei naquelas águas, um cavalo marinho surgiu com a maré. Segurei-o delicadamente entre os dedos e devolvi-o na mesma corrente que o trouxe. Às vezes, escuto o riso zombeteiro dos Deuses, vem dos muros altos, dos cadeados indecisos, do horizonte regrado. Sigo me perguntando onde estão, onde vão parar todas essas ruas que a gente não cruza, todos esses sonhos que a gente não sonha, todas essas histórias que a gente não conta. Escrevo em meio a uma profusão de livros antigos e as páginas se viram de um lado para o outro. Letras pretas traçam um grande círculo e requebram feito odaliscas sobre o fundo branco. Eu estou no meio, e é para mim, e só para mim que elas dançam.

Lídia Martins

5 comentários:

Carlos Roberto disse...

Eis como o imperecível sonho se desarticula da memória para dar lugar ao incontornável mundo da realidade. As palavras são, agora, a cidade, as ruas, o olhar, o movimento, a prosa inteira metida num tecido vivo, que a autora despe do próprio corpo, para deixar aqui, assim, na esperança de fazer o dia de alguém feliz.
Como disse Eugénio de Andrade, “nunca ninguém me chamara assim”.
De tão longe, acrescento eu. E nunca é demais repetir, Lídia, foi te conhecendo por dentro que vi que você não tinha fim.

Nei Duclós disse...

Por trás da cortina, tua palavra. Tua alma é o clima que empresta humanidade à paisagem impregnada de bruma, tua poesia, que nos transporta. Aí respiro, no inverno em desencanto mas sonhador. Es o que mostras com o talento maior, o dom da criação

placco araujo disse...

"Letras pretas traçam um grande círculo e requebram feito odaliscas sobre o fundo branco. Eu estou no meio, e é para mim, e só para mim que elas dançam."
Sinto te contrariar... tais letras saltaram de sua página direto para a nossa imaginação, dançando e desenhando o storyboard de um filme, misto de woody allen e fellini. Só você mesmo para enxergar toda esta poesia numa simples noite de inverno, onde meninos travessos se tornam navegantes e bonecos de madeira - bailarinos ao sabor de seus dedos.
E o nome é perfeito. PROXIMITÉ.
Um texto leve e penetrante, que nos faz mergulhar neste mundo tão real e tão onírico que vive aí.
Sim, estamos próximos.

Wendel Valadares disse...

Não sou G., mas também me reconheci nas tuas palavras. Elas atingem lugares em mim que há muito não experimentam a poesia. Me sinto acordado agora.

Lídia, você é pura poesia.

Gratidão por se dividir conosco.

Um beijo.

Wendel.

Asas da palavra disse...

Depois de 5 anos voltar a encontrar com vc neste céu é uma perfeita dádiva! De volta aos trabalhos de escrita como sempre gostei de ser e estar.