As ruas desta cidade me fazem meio Wood Allen. A lapiseira de grafite era agora uma
saudosista e a ponta suja de realidade, letra a letra, torna a reconhecer a primavera com que
a vida vai compondo suas armadilhas. Ajeito uma vez mais o casal de namorados que adquiri em uma loja de desenhos. Penso na ponte que rabisquei e, tempos depois, aqueles que amo atravessam pela primeira vez. Aproximei-me do
vão da janela e, com a ponta do indicador, afastei a cortina.
Pequenos clarões recortam a vidraça e formam um buquê de luzes que dançam suspensas no cômodo anonimato da sombra. Azul, verde, âmbar, cores que viajam perdidas como os zepelins da minha infância. Pétalas de poeira explodem e apagam e imagino aquelas nebulosas do cosmos, infinitas, indecifráveis, lux aeterna, fotos de um telescópio. Corpos-naus deslizam pelo mar do asfalto levados apenas pela vela dos cabelos. Daqui, posso ver os skatistas se emparelhando para praticar street style. Acima deles, atrás do
monte, a lua está surgindo e bate nos prédios altos, nas agulhas dos pinheiros,
nos guidões das bicicletas, nas cadeiras dos balanços que o vento empurra
sozinho. Há porque sair de casa. Há porque catalogar nuvens. Há porque fixar
miragens. A formatura da escola está próxima. Fiquei de recuperação em
administrativo. Perdi oito quilos e o espelho anda zombando das minhas pernas em
formato de graveto. Troquei os
óculos com a haste quebrada por outros com estampa tortoise, e, pelas contas
que meus amigos fizeram, fiquei com 65 anos a menos. Apaixonei-me pela terceira
vez só neste semestre e me declarei apenas para o Guilherme, para o Gabriel e o
Gustavo ainda estou reunindo coragem. Pintei os lábios com o batom heroine e
imprimi mil beijos num papel de carta para enviar a uma amiga, ela saberá por
quê. Assisti a um filme do francês Patrice Leconte, lendo apenas as imagens e me diverti bastante. Ainda tenho duzentos gramas de marshmallow, caso a saudade de casa aperte. Descobri o nome do cobrador de ônibus que acha
graça da minha caligrafia tremida. Uma procissão de estudantes com cartazes suplicando por
mais afeto abraçou-me enquanto caminhava distraída pela rua Felipe Schmidt. Fotografei um mendigo
deitado ao sol, e suspirei com a transparência das asas de uma libélula pousada
no seu cobertor de papelão. Ofereci balas de goma a um saxofonista que se exaltava em meio à multidão por terem amassado uma velha lata de chá com as moedas que recebeu. Deixei um poema no banco da Praça XV, na esperança
de fazer o dia de alguém feliz. Um desconhecido veio falar comigo sobre uma tartaruga gigante com quem se cruzou, mas não soube dizer se ela era real. O inverno está menos rigoroso que em
julho passado. Tenho pouco tempo para ver o mar, apesar de morarmos
perto. Da última vez que entrei naquelas
águas, um cavalo marinho surgiu com a maré. Segurei-o delicadamente entre os dedos e devolvi-o na mesma
corrente que o trouxe. Às vezes, escuto o riso zombeteiro dos Deuses, vem dos muros altos, dos cadeados indecisos, do horizonte regrado. Sigo me perguntando onde estão, onde vão parar todas essas ruas que a gente não cruza, todos esses sonhos que a gente não sonha, todas essas histórias que a gente não conta. Escrevo em meio a uma profusão de livros antigos e as
páginas se viram de um lado para o outro. Letras pretas traçam um grande
círculo e requebram feito odaliscas sobre o fundo branco. Eu estou no meio, e é
para mim, e só para mim que elas dançam.
lídia martins

5 comentários:
Eis como o imperecível sonho se desarticula da memória para dar lugar ao incontornável mundo da realidade. As palavras são, agora, a cidade, as ruas, o olhar, o movimento, a prosa inteira metida num tecido vivo, que a autora despe do próprio corpo, para deixar aqui, assim, na esperança de fazer o dia de alguém feliz.
Como disse Eugénio de Andrade, “nunca ninguém me chamara assim”.
De tão longe, acrescento eu. E nunca é demais repetir, Lídia, foi te conhecendo por dentro que vi que você não tinha fim.
Por trás da cortina, tua palavra. Tua alma é o clima que empresta humanidade à paisagem impregnada de bruma, tua poesia, que nos transporta. Aí respiro, no inverno em desencanto mas sonhador. Es o que mostras com o talento maior, o dom da criação
"Letras pretas traçam um grande círculo e requebram feito odaliscas sobre o fundo branco. Eu estou no meio, e é para mim, e só para mim que elas dançam."
Sinto te contrariar... tais letras saltaram de sua página direto para a nossa imaginação, dançando e desenhando o storyboard de um filme, misto de woody allen e fellini. Só você mesmo para enxergar toda esta poesia numa simples noite de inverno, onde meninos travessos se tornam navegantes e bonecos de madeira - bailarinos ao sabor de seus dedos.
E o nome é perfeito. PROXIMITÉ.
Um texto leve e penetrante, que nos faz mergulhar neste mundo tão real e tão onírico que vive aí.
Sim, estamos próximos.
Não sou G., mas também me reconheci nas tuas palavras. Elas atingem lugares em mim que há muito não experimentam a poesia. Me sinto acordado agora.
Lídia, você é pura poesia.
Gratidão por se dividir conosco.
Um beijo.
Wendel.
Depois de 5 anos voltar a encontrar com vc neste céu é uma perfeita dádiva! De volta aos trabalhos de escrita como sempre gostei de ser e estar.
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