Fotografia: Musicista: Luca D'Alberto
A paixão é um assunto de alta nomeada para se esgotar em palavras. Eu não
tenho uma teoria e, se calhar, nenhuma prática. Quantas páginas serão
necessárias para que a literatura cumpra sua vocação e converta esta maldição encadeada de clamores
metálicos em uma história que valha à pena ser contada? O
arco feriu as cordas por uma, duas, três vezes e não descansou até fazer
com que as notas se elevassem nos ares como lâminas transparentes. Em
silêncio, fui percorrendo com a ponta dos dedos os cortes
que elas haviam me feito no interior das coxas, braços, seios, rosto, lábios,
e as lágrimas vertiam dos meus olhos como sangue derramado. Despertaram rios,
peixes, árvores, flores, pássaros, dando à luz a um prematuro caos de sons que
retumbavam no espaço como um fim prenunciado. Não era um violino, era meu
corpo, o que aquele homem estava tocando. Ajoelhada em um canto,
intercalei fervorosas preces nos lábios rogando ao imaculado Cristo de pedra
manchado pela fuligem, pela pátina e pela miséria para que tivesse clemência
daqueles que, vendo a luz, sucumbiram à tentação das coisas não reveladas e
enveredaram-se pelo caminho das trevas. É como se um tornado, um terremoto, a erupção
de um vulcão em uma determinada região onde eles nunca aconteceram me tivessem
espatifado e todas as minhas partes desencontradas gravitassem em torno de mim
como um cadáver planetário. O mundo está de cabeça para baixo e sinceramente
acho que ele voltou à posição da qual nunca deveria ter se afastado. Tenho desejos que nem eu mesma suspeito de
tão secretos. O que está escutando? O Trinado do Diabo. Tartini foi
testemunha ocular de que o demônio não é nosso inimigo. É, antes, nosso aliado.
Enganam-se os que acreditam que a humanidade está em busca de salvação, ela
sempre esteve em busca da perdição e todas as crenças do mundo não se
resumem senão em encontrar uma religião que concretize estes rancores
absurdos. Agora já não era para os outros, mas, apenas para mim que ele
estava tocando. Em uma coreografia de suores e salivas, desejoso de
ser, meu corpo respondia a cada toque e vibração do arco. Sinto calafrios
toda vez que imagino aquele homem nu, cercado de misteriosos violinos, sob o
clarão apocalíptico dos tratados de regência e circunspecção diante dos meus
olhos estáticos. Sonhei que caminhava sobre brasas segurando nas mãos o
cetro da paixão com sua chama medonha. Entre um silêncio e outro
a música toca. Há muita memória sem palavras.
Lídia Martins
3 comentários:
Isso não se faz, poeta. Mexer tão fundo e nos deixar boiando no abismo, enquanto voas para o fogo de uma paixão secreta. Palavras desconcertantes, transgressoras, de quem nada tem a perder a não ser a falsa inocência. Caindo em si mesma, plena, doloroso enigma, verbo e gesto. Não sabemos onde ficar depois de chegar ao fim desse mergulho. À dor maior do poema, contraído enquanto nos distraimos? Procuras o que há sob a neblina do amor, algo maior que talvez tenha nos gerado e hoje cobra a conta? Não sabemos. Só sabemos da existência do teu coração impiedoso e belo.
É este um conjunto diabólico de acordes sentimentais que se estendem para os olhos. Sons que gravitam na orla das palavras e nos trespassam silenciosamnete. Como se palavras fossem a mergulhar na superfície aquosa dos sentidos, sem nunca se molharem. Como se nada fosse dito, tendo-se dito tudo.
Realmente a paixão, fica difícil de ser descrita em palavras, mas a ver pelo estado que te encontras, há que ter sido avassaladora!
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