9.04.2015

AVIÕES DE PAPEL

 
 
 
                                            Inverno. Setembro. 2025.
                                            Querido R.,
 
                                           Estou escrevendo para você debaixo deste céu de chumbo novamente. O homem com quem partilho meu leito é um milionário de hábitos excêntricos. Casei-me com um cineasta britânico que cismou de fazer filmes com as besteiras que escrevo. Recentemente lançou seu primeiro filme, vencedor de oito Óscares: “A Morte dos Amantes”, gravado nos quatro maiores cemitérios de Londres. Imagino que você já tenha assistido. Não se fala em outra coisa nesta cidade. Foi baseado em um dos contos que escrevi para você quando ainda éramos jovens. Esta manhã ele trouxe, como de costume, meu chá de tílias. Recordo de estar com os olhos perdidos no horizonte sentindo a brisa de setembro agitar as cortinas. À direita da bandeja de prata, sobreposta na colcha de rendas, havia um botão de rosas e uma pequena caixa de veludo azul em formato de cisne. Outro anel de diamantes. Todos os dias Peter afirma seu amor por mim cobrindo-me de jóias e pedras preciosas. Esta tarde, olhando no fundo dos meus olhos ele viu o seu rosto, isso fez com que Peter... Oh céus Ricardo! Contra todos os prognósticos e mesmo sabendo que isto lhe doeria até os ossos, disse a Peter que é você o homem que amei desde o começo e que ainda continuo amando. Esperei pelo instante em que ele cravasse a estaca de seu ódio em minha cara, mas nada disso aconteceu Ricardo, nada! Peter se ajoelhou aos meus pés e disse que perdoaria minhas duras palavras, disse que sempre soube que amei você, que não se sentiu enganado e que ainda tem esperanças de que possa fazer com que eu o esqueça com o passar dos anos. Sequei suas lágrimas e beijei seus lábios com uma ternura infinita, e isso fez com que eu me sentisse uma mulher ainda mais mesquinha. Pedi o divórcio mas, Peter disse que prefere estar morto à ficar longe da mulher de seus sonhos. Fiz as minhas malas e parto amanhã mesmo para a Costa Amalfitana. Na parte Sul da Península de Sorrento há um navio à minha espera. Devo velejar pelas ilhas gregas e entregar ao mar Tirreno os meus tormentos. Eu preciso esquecê-lo.


Tua, para sempre, L.
 
Lídia Martins
 

6 comentários:

Marga Cendón disse...

Belíssimo texto, Lídia. Parabéns!

Carlos Roberto disse...

Uma autêntica viagem aos olhos de quem lê.Saudades de ler um texto seu, Lídia. Quem sabe não esquece e a inspiração acaba sempre por fazer das suas. Gostei e não consegui deixar de sorrir sob esse cenário de um romantismo quase trágico.

fjunior disse...

Às vezes, nos pegamos aos apelos do passado, às lembranças dos amores findos, à paixão não correspondida, ao desejo de ter aquilo que não se tem, e fechamos a mão para o que havia de vir. Achamos que amamos de verdade o que ficou no passado e nos esquecemos do que a vida nos deu agora, aqui no presente. Como naquela canção do Chico "Nos seus olhos tristes / Guarda tanto amor / O amor que já não existe" e aí então nem vemos a hora que o "nosso barco partiu", quando a nossa rosa morreu. Às vezes, só nos damos conta do amor alheio quando ele já se foi. Aí é tarde!

"Eu bem que mostrei a ela / O tempo passou na janela / Só Carolina não viu".

placco araujo disse...

Este tom gracioso que escrevestes a tal carta, me faz lembrar Woody Allen, que faz graça com as tragédias de sua vida e sempre deixa no ar que apesar de parecer autobiográfico, é tudo uma mera coincidência. Também não me lembro que ele tenha nunca usado um pseudônimo com um nome começado em W.

Nesta carta, assinada por L, terias cometido este deslize?

rogerio saboia disse...

já li 2x, na verdade 3...gostei muito... teve o condão de me levar no tempo e me atirar de braços abertos em plena era vitoriana.. ... com quem partilho meu leito.... chá de tílias.. pequenas caixas de veludo azul.. entregar ao Mar Tirreno os meus tormentos....lindo Lidia!

rogerio saboia disse...

..além do que me veio rápido à mente um belo filme... somewhere in the past.... em algum lugar do passado e .os diálogos entre Richard Collier e Elise MacKenna ( a maravilhosa Jane Seymour).....perfeito...