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3.05.2014

ENTRE OS DEDOS

Desisto de ser invisível, seguirei existindo — começou ela meio séria, meio sorrindo. Dir-se-ia que o excesso de lucidez a enlouquecera. Vendo aquele amontoado de rabiscos desconexos, de suspeita em suspeita, cheguei a uma incerteza. A vantagem de ser sensitivo é ter um par de antenas ao invés de um par de ouvidos. A desvantagem é ser atrativo de raios que acabam por nos atingir nestas tempestades sem aviso. Quantas voltas pode dar uma história quando a onda de tensão passa a ter uma inversão? Perdera a conta das horas em que passou elaborando aquelas construções arquitetônicas para a passagem da trama. Atormentava-lhe a razão pela qual aquelas pontas tão eclipsadamente ligadas estavam agora desencontradas. Todas as lições de física em que fora reprovada ao longo da vida ressurgiram como pontos de interrogação reclamando solução. Deixou arrastar-se por aqueles impulsos faiscantes como se soubesse que aquelas correntes a levariam para um novo horizonte. Encharcada de tantas ausências, erguia a sua espada invisível para aquele céu sempre chuvoso à espera do improvável sopro de fogo. Relâmpago com que se cortava e, ao mesmo tempo, se consolava. Sofria constantes surtos de impaciência. Não com os outros, mas consigo mesma.  Pergunto-me se estas construções aéreas que tantas vezes erigimos sobre o invisível não seriam delírios de quem idealiza, mas no caso dela, é coisa de quem apenas imagina. Existe uma sutil diferença entre imaginar e idealizar. Há os que conseguem diferenciar isto ainda. Atrás das grades daquelas janelas sempre fechadas, brincava horas sozinha com aquela inoportuna criança que a habitava. Repetidas vezes girou o compasso em busca de novos contornos. Deve haver um modo de chegar até o outro. Uma passagem secreta que nos leve a transpor as fortalezas internas. A vida é engenharia — pensou ela com os olhos esquecidos na prancheta. Subitamente, ergueu-se a menina soterrada pelos grafites da história ainda sem formas. Pegou seu giz de cera e saiu construindo pontes pelas paredes da casa inteira. 

Lídia Martins

5 comentários:

Pedra do Sertão disse...

Super legal. Lembrei de uma vez que cheguei em casa e dei de cara com uma árvore azul, feita de giz de cera, bem na parede de frente à garagem...quase infartei. Depois dei um nome: Pintura Rupestre!

Abraços,



Araceli Sobreira

venha nos visitar também:

www.pedradosertao.blogspot.com.br

Jason Jr. disse...

Há muito eu não comento aqui Senhorita Pipa, PORÉM, estou sempre por aqui (claro!) :)

Deixando aquele
abraço na inspiração
bem caloroso
que vai
da mente ao coração.
*-*

JasonJr.

http://jasonjrcajazeir.blogspot.com.br/?zx=c4147cfc5ce51700

Bel Lobato disse...

Amei o texto, estou voltando a escrever e é bom ver que não paraste. Abraço =D

Nei Duclós disse...

Poesia zipada, densa,em cada verso um salto, um mergulho. Noção profunda do poder da palavra. Criação total de uma autora que cresce com suas incertezas e dúvidas e que nos traz a água limpa da inspiração, do talento e da árdua faina da literatura em carne viva.

Carlos Roberto disse...

Texto repleto de inspiração. Forjado sob as nuvens mais densas que nos habitam, e que teimam em não se dissipar. A confidência do emocional que quase violenta, de tão profundo que vai. Profunda foi também a dádiva da autora à arquitetura das palavras. Sempre e sempre bem esculpidas. Que mais dizer?! Bravo, Lídia!