Desisto
de ser invisível, seguirei existindo — começou
ela meio séria, meio sorrindo. Dir-se-ia que o excesso de
lucidez a enlouquecera. Vendo aquele amontoado de rabiscos
desconexos, de suspeita em suspeita, cheguei a uma incerteza. A
vantagem de ser sensitivo é ter um par de antenas ao invés de um par de
ouvidos. A desvantagem é ser atrativo de raios que acabam por nos atingir
nestas tempestades sem aviso. Quantas voltas pode dar uma história quando
a onda de tensão passa a ter uma inversão? Perdera a conta das horas em
que passou elaborando aquelas construções arquitetônicas para a passagem da
trama. Atormentava-lhe a razão pela qual aquelas pontas tão eclipsadamente
ligadas estavam agora desencontradas. Todas as lições de física em que fora
reprovada ao longo da vida ressurgiram como pontos de interrogação reclamando
solução. Deixou arrastar-se por aqueles impulsos faiscantes como se
soubesse que aquelas correntes a levariam para um novo
horizonte. Encharcada de tantas ausências, erguia a sua espada invisível
para aquele céu sempre chuvoso à espera do improvável sopro de fogo. Relâmpago
com que se cortava e, ao mesmo tempo, se consolava. Sofria
constantes surtos de impaciência. Não com os outros, mas consigo mesma. Pergunto-me
se estas construções aéreas que tantas vezes erigimos sobre o invisível não
seriam delírios de quem idealiza, mas no caso dela, é coisa de quem apenas
imagina. Existe uma sutil diferença entre imaginar e idealizar. Há os que
conseguem diferenciar isto ainda. Atrás das grades daquelas janelas sempre
fechadas, brincava horas sozinha com aquela inoportuna criança que a habitava. Repetidas
vezes girou o compasso em busca de novos contornos. Deve haver um modo de
chegar até o outro. Uma passagem secreta que nos leve a transpor as fortalezas
internas. A vida é engenharia — pensou ela com os olhos esquecidos na
prancheta. Subitamente, ergueu-se a menina soterrada pelos grafites da história
ainda sem formas. Pegou seu giz de cera e saiu construindo pontes pelas paredes
da casa inteira.
4 comentários:
Super legal. Lembrei de uma vez que cheguei em casa e dei de cara com uma árvore azul, feita de giz de cera, bem na parede de frente à garagem...quase infartei. Depois dei um nome: Pintura Rupestre!
Abraços,
Araceli Sobreira
venha nos visitar também:
www.pedradosertao.blogspot.com.br
Há muito eu não comento aqui Senhorita Pipa, PORÉM, estou sempre por aqui (claro!) :)
Deixando aquele
abraço na inspiração
bem caloroso
que vai
da mente ao coração.
*-*
JasonJr.
http://jasonjrcajazeir.blogspot.com.br/?zx=c4147cfc5ce51700
Poesia zipada, densa,em cada verso um salto, um mergulho. Noção profunda do poder da palavra. Criação total de uma autora que cresce com suas incertezas e dúvidas e que nos traz a água limpa da inspiração, do talento e da árdua faina da literatura em carne viva.
Texto repleto de inspiração. Forjado sob as nuvens mais densas que nos habitam, e que teimam em não se dissipar. A confidência do emocional que quase violenta, de tão profundo que vai. Profunda foi também a dádiva da autora à arquitetura das palavras. Sempre e sempre bem esculpidas. Que mais dizer?! Bravo, Lídia!
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