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10.05.2013

POR UM FIO

A palavra que liberta é a mesma que acorrenta. Estou tão certa disso, quanto de que este café que acabo de colocar na xícara está frio. É céu de Outubro e um manto escuro de nuvens cobre as casas e prédios do bairro, como se estivesse prestes a sepultá-lo. Nem parece primavera. As ruas estão encharcadas e a cidade está deserta. Há dias que não sei se anoitece ou amanhece atrás das vidraças. Espera. Aquelas borboletas ainda pousarão, mágicas, no jardim de nossa história.
Não é preciso dizer onde ficava a casa. É preciso dizer apenas que, a mala, posta do lado de fora, me esperava. Peguei a chave no bolso direito da calça. Não houve como destrancar a porta. A fechadura havia sido trocada. Olhei o banco. Procurei-o. Procuramo-nos. Vultos se sobrepondo aos vultos. De volta àquela mesma estrada. Os olhos, cansados, se perguntam: será que falta muito? A casa era tão velha quanto ela. Havia se mudado tantas vezes. Mas por dentro, seu endereço ainda era o mesmo.
Olhei a placa, mas não segui a direção que ela me indicava. Como quem ficou a mercê de uma agulha e um novelo, em silêncio, crocheteio. Do alto desta tarde sem sol, vigio, então, em que parte deste extenso bordado fez-se o nó invisível da amarração.
Tem sempre um ponto. Um oceano, um barco, um porto. Tem sempre um ponto. Um pôr-do-sol, um horizonte, um banco. Tem sempre um ponto. Uma tarde, uma rua, uma árvore. Tem sempre um ponto. Um bilhete, uma música, uma noite de lua. Tem sempre um ponto. Uma janela, um brisa, uma porta entreaberta. Tem sempre um ponto. Um gesto, um gosto, um cheiro. Tem sempre um ponto. Um olhar, um sorriso, um jeito de mexer o cabelo. Tem sempre um ponto. Um espelho, uma sombra, um reflexo. Tem sempre um ponto.
Estou arfante de tanto gritar seu nome. Os gritos, em que pesem estridentes, foram devolvidos ao remetente. Fiz menção de pegar o telefone. Talvez dissesse alguma verdade. Quis exaltar-me, mas a serenidade pousou a mão em meu ombro, pedindo para que eu me acalmasse.  Por um fio. Era assim que estávamos. Fizemos um nó onde havia um laço.
Não aja como se você já não tivesse ido embora murmurei em voz baixa, enquanto desenhava as inicias de seu nome na vidraça embaçada. Abri as janelas tentando rasgar aquelas cortinas de água que o céu havia costurado durante a madrugada. A chuva continuava caindo lá fora, como um véu de dama enlutada...
Perdemos tudo. Menos a nossa capacidade de significar. O que já era muito.
 
Lídia Martins
 

9 comentários:

placco araujo disse...

A gente chega a prender a respiração ao ler o seu texto.
Como dá vontade de saber o depois...
Prometa escrever um texto no futuro com a continuação deste!

Beijos e_ternos

Rogério Pereira disse...

Teu café escalda... a palavra liberdade não me amarra... teu texto é uma vertigem, é escorreito, denso, mas não altera um palmo daquilo que penso: teu café escalda e todas as palavras libertam

Carlos Roberto disse...

Belíssimo texto! Atrever-me-ia a dizer: vem de dentro, Lídia! Quase mente quando escreve o que sente. Só a voz é pouca para calar um coração que entorna pela boca...

AC disse...

Divagando pela blogosfera, à boleia de um GPS intuitivo, acabei por parar aqui. Ainda bem, pois a qualidade da escrita impôs-se de imediato.

Annie disse...

Lindo texto consegui enxergar-me nele.

Nei Duclós disse...

A poeta escreve o que sente, não o que quer. Não sufoca, não divaga. Não é poesia de derramamentos, mas uma forma amorosa de deslocar-se da dor, apontando-a. Incorporando o que dói mas criando abismos para que possamos voar. Ponte entre mundos, sua palavra soa como se soubéssemos do que se trata, mas é uma voz original que planta o futuro. Ainda não chegamos lá, mas sua poesia nos pressente. Ela é nosso passo adiante.

Anônimo disse...

Tem sempre um ponto”, minha irmã! Esse trecho de seu texto encantou tantas pessoas qua andam, como você diz, doloridas demais como nós. E também traz esperança. E como é bom ler a sua verdade… e a nossa! Lendo os comentários em seus textos, sempre me deparo com as pessoas falando que você escreveu para elas, cada um com sua ilusão… Acho que sempre estamos fazendo nós onde havia laços. Parabéns, Pipa, por não desistir! Obrigada, Pipa, por nos deixar desistir. Abraço apertado. -

Quem escreve disse...

Vi que era primavera e resolvi dar uma volta por aqui, por ai, por cá mesmo, nesse peito enorme e por vezes vazio. É que café frio me encanta, Pipa, é a vida não aproveitada, não vivida. Enquanto estiver na xícara dá para resquentar e traguear. Olhando flores fica mais gostoso. Saudade, sabe?

Mulher Vã disse...

E então eis que estou aqui e você nem se deu conta heim!
Quem é vivo sempre alcança quem espera aparecer!!hehehehe

Olha que senti falta das suas viagens oníricas cheias de acido!Mas sempre adiava a visita...sabe se lá se você colocava a vassoura atras da porta né!

Sua primeira frase é tão proverbial e ao mesmo tempo tão corriqueira, um sim no altar pode libertar e acorrentar ao mesmo tempo, bem pensei nisso!
Só uma coisa não dá pra entender direito: se ela está do lado de fora ou do lado de dentro da casa, ficou confuso, mas uma daquelas confusoes boas que a gente lê e pensa: poha, sinistro!
Uma coisa percebi: você não perdeu sua capacidade louca de reclamar da vida com tanta poesia. Que dom =)

Saudade de você, veada.