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9.14.2013

AINDA NÃO...

Anoiteceu chovendo acácias. Eu quase pude sentir o perfume das vestes abrumadas junto à catadora de almas. Esta tarde fiquei observando as flores das árvores caírem sobre a rua da velha casa em que meu irmão morava. Uma casa inconclusa, distante, estúpida, mas há nela qualquer coisa que flutua. No céu, as pétalas voavam como hinos de hosana, feito cinzas heroicas ou, talvez, quem sabe, como estas palavras que lhe escrevo agora. Recordei-me das horas em que passava pomada nas feridas de tua pele áspera. Por um instante, em meio a dor, houve um momento de calma. Como é fascinante assistir a passagem de uma estação para outra. Matizes em rosa, azul, verde e lilás misturando-se à paisagem acinzentada. As cores mudam de forma tão silenciosa. Mesmo os caminhos floridos, possuem espinhos. Não creio que tornarei a vê-lo. A mim, talvez, reste admirar esta paisagem que ameaça esfumar-se na linha horizonte. Não muito longe dali, há um lago espelhado. Para além do monte, onde se teriam afogado milhares de clamores náufragos, existe um pequeno barco de madeira encoberto por uma  névoa cinzenta, sulcada por raios que entrecortam a silhueta de um jovem desnorteado. É você ali no canto. Tentando recordar os estranhos que sempre fomos. Venha comigo. Vamos tomar sol entre os álamos, escutar o concerto dos pássaros e dar  um passeio de barco. Eu poderia ficar sem tudo, menino. Sem amor, sem trabalho, sem amigos. Menos sem teu sorriso. Os pulsos cortados de meu irmão. Não pode ser... A foice te libertará do que? perguntei tentando compreender.   — “Da ilusão...” pensei tê-lo ouvido me responder. As coisas mais importantes que já ousastes falar, só foram ouvidas quando te fizestes calar. O teu silêncio nos ensinará a escutar. O tempo transforma tudo em ruínas. Mesmo as coisas que julgávamos solidamente construídas.  Sempre que entravas por aquela porta, abraçávamos apenas tuas roupas, o corpo, você nunca soube nos dizer onde estava. Hoje eu estou de joelhos. As mãos, em punho, se fecham impetuosamente contra o peito, em prece por um mundo onde os acertos se sobreponham aos erros. Assim como a noite, vieste e foste. A manhã despertará sem teus dedos para lhe acariciar os fios dourados de seus cabelos. As tardes continuarão a passear solitárias pela sala, pelos portões das casas, pelas ruas, pelas árvores, pelos parques, pelas praças, até caírem exaustas em alguma calçada. E quando me perguntarem pelo teu rosto fino e longo, o que respondo? Ainda não... Estas pétalas de crisântemos enfeitando teu corpo tornam este instante menos doloroso. A mão invisível da morte está acariciando o rosto de pessoas que amo. E penso no vento... Ele havia estado sempre na janela sussurrando: somos efêmeros, somos efêmeros, somos efêmeros.
 
 
Lídia Martins

6 comentários:

placco araujo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
placco araujo disse...

Doce pássara...
Cada texto que escreve, é um processo de imersão na busca das mais belas palavras pra dizer o que, de repente, não é nada belo...É triste! Mas não hesita hora nenhuma e vai fundo, mesmo que traga junto delas algumas lágrimas e até, algumas gotas de sangue
Mesmo que esculpidas às vezes com dor, as imagens são sempre lindas!

Beijos e_ternos

Amanda Caroline disse...

De vez em sempre pego-me assim: debaixo de uma chuva de acácias, pensando nas mesmas palavras que li em ''ainda não...''

Daíse Lima disse...

Porque tuas palavras me fizeram chorar, tenho que lhe dizer: obrigada por escrevê-las!

Abraços!!!!

Anônimo disse...

Como sempre lindas palavras tocando corações.
Saudades de um futuro que desejamos.
Sempre bela.
Louies

Andrea Colucci disse...

Olá vim de fazer uma visita, espero vc no meu cantinho bjs.
http://drea-amigos.blogspot.com.br/