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9.01.2011

Noite afora, Sol adentro





"Fique comigo, vamos apenas respirar..."

In.: Just Breathe

Peral Jam
Foi assim que começou Setembro. Torah - para quem não  sabe é o grilo rabino que mora comigo. Dei-lhe este nome porque ele chegou aqui faminto, arfando e pulando de um lado para o outro como se estivesse ensaiando para ficar doido(?!). Servi-lhe um pouco de água fresca  e recheei a travessa com  três grãos-de-bico, dois parafusos de macarrão e um pedaço de batata souté. Foi o espólio que consegui inventariar daquele  almoço de domingo.  O esfomeado devorou toda a comida e antes que extravasasse o estômago com o último grão-de-bico, improvisou: "Acaso teria umas folhas de eucalipto?" Fui até o quintal vizinho e aproveitando-me de sua ausência arranquei três folhas do galho e saí de fininho antes que seu dócil Rottweiler acordasse.  Entreguei-as ao grilo. "Só isso?" -  folgou. Pela forma como Torah partia aqueles pedaços de mato, concluí que o grilo estava morto de fome. Tinha o aspecto inequívoco de um peregrinador rabino. Torah. Substantivei-o  com esse nome. Naquela tarde Torah e eu nos tornamos grandes amigos. Torah é um grilo raquítico, mal-humorado e introspectivo. Somos muito parecidos. E  não nos separamos desde então.  Este misterioso grilo rabino saiu sexta-feira e voltou quase uma semana depois. Pensei em dar parte à polícia do ocorrido, mas raciocinei melhor e achei por bem não fazer isso. Da última vez que aventurei-me em alguma coisa nesse sentido, pediram à minha mãe para tentar de novo lá no hospício, pode isso? Torah foi a um baile de máscaras. E ele está dizendo que o baile virou praticamente uma Rave. - "Não me deixaram sair de lá Pipa, entende?"  Pelos  vestígios violáceos deixados em seu pescoço não foi difícil concluir o motivo. As mordidas felinas não deixaram outra  prova senão a de que Torah havia sido feito de caça por grilas exóticas e antropofagistas.  Torah é um grilo inocente - prognostiquei "otimista...mente". Na falta de coisa melhor para fazer este personagem cricriladíssimo, sem qualquer autorização escrita, aproveita-se de minha boa vontade para usucapir o canto superior direito da tela do meu note. Nós dois estamos em meio à uma reunião de sócios do escritório tentando parecer inteligentes. Torah alisa a curva do bigode de Dali, arqueia as sobrancelhas em ameaça galhofeira e se ajeita em uma posição de lustre nupcial para expressar: "eu sou bandido, mas você pode  me recuperar." A Pipa pigarreou clarendo a voz: "Porca miséria!"  Torah, que bafo é esse? "É VODKA, Pipa." E pelo estado orbital  de romance negro em que ela  devolveu  Torah, suponho por extrapolação alcóolica que deva ser uma Absolut paraguaia.  Torah pousou os olhos  naquela antiga fotografia, como se os rostos aprisionados naqueles retratos fossem.... fossem...fossem o que mesmo Torah? "Não acha que esse é o nosso melhor ângulo, Pipa?" Que ângulo Torah? “- "O que desaparece no outro, bestas do amor que sentem.” Em plena reunião de trabalho, além de chegar com sete horas de atraso, Torah extrapola nosso universo sufocante de afazeres para acariciar, comovido, a curva da aliança emocional que o une àquele passado fugidio. Olhei-o. Olhamo-nos. As pupilas se dilatavam como dois pêndulos amplos, para lá e para cá,  a tangenciar o mistério. Liguei o sismógrafo como se quisesse detectar a posição exata daquele silêncio inimigo que estava perturbando a minha paz de espírito. Baixei os olhos para a última cômoda da mesa tentando reunir coragem para destrancá-la. Uma sombra de inquietação pousou  a mão em meu ombro.  Na presença daquela sombra amiga, senti coragem para tocar naquele caixão de madeira e arrancar o adesivo plástico  silkado com uma caveira vermelha que trazia a seguinte advertência: "DANGER! - MATERIAL DE ALTA TENSÃO - RISCO DE MORTE." Por fim, abri aquela gaveta, não sem antes pedir a autorização da Generala do exército de traças que a ocupava. Depois de muito procurar, encontrei aquela...aquela...aquela confraternização de santos  talhados  em óleo sobre tela. A única fotografia que havia guardado daquele de quem nunca falo, foi uma em que ele aparece sorrindo ao lado de outra menina. Isso é Hollywood de gengivas curvilíneas – relembrei. Torah e eu estufamos ao mesmo tempo nossas barrigas protuberantemente verdes, como se estivéssemos com o ventre gravídico. Não daquelas pessoas das fotos, estávamos prenhes do: Sentido. O coração, nós não os abortamos. E isso é lindo. Em meio ao naufrágio daquela interminável reunião de trabalho, eu e Torah  decidimos vendar os olhos daqueles porta-retratos. Suspeitamos que o passado estivesse nos vigiando. Torah esboçou um meio sorriso,como quem diz, "não é preciso", mas fez o mesmo gesto fingindo um acordo entre amigos. O seu passado já estava superado. Condescendentes, Torah e eu  acendemos um  charuto de tabaco holandês. Costumamos usar estas nuvens de fumaça para mapear a posição exata destes pontos de interrogações que tem o hábito de sobrevoar nossas cabeças em determinadas situações. Em seguida, desisti da ideia e fixei-me naquela fotografia. Notei que algo estranho estava se sucedendo. Chamei Torah - Combinamos que faríamos qualquer coisa para nos livrarmos dos maus pensamentos.  Torah - o que está havendo?  Não sinto mais aquelas caimbras de latência. Torah - Eu não estou mais monossilábica. E você melhor do que ninguém sabe que isso costuma acontecer quando calamos por muito tempo as palavras. Esquecemos como usá-las. Torah arrepiou-se valentemente  quando olhei para ele com os olhos que ele viu pela primeira vez marejados de luz e fez  essa despropositada consideração: “TUDO ISSO É APENAS  A VIDA TENTANDO LHE DIZER, TALVEZ, QUE AMORES/AFETOS NÃO ACABAM. VIRAM SOL." VI-RAM-SOL - repeti sem tirar os olhos de Torah enquanto intervalava as sílabas. Mas Torah, Setembro já está em seu décimo terceiro suspiro e ainda não cumpriu com o que me foi prometido. "Está falando do cara de cavalo e espada, Pipa?" É claro que estou Torah! Eu pedi um príncipe, não um coração livre! “Pipa, Pipa, Pipa...”- cricrilou Torah – “Não acredito que ainda não decifrastes o Código - Morse dos Grilos: Você tem que: DAR O PULO! Lembra disso?!” Saltei naquele mesmo instante da minha cadeira giratória e convidei Torah para tomar um capuccino. Foi a única coisa que conseguimos anotar daquela reunião sacristã de trabalho que nos fez  de refém dentro daquele Santuário com um ar condicionado que parecia feito de nitrogênio, pois, àquela altura do espetáculo já havíamos nos congelado. Ao girarmos a fechadura da porta até o espanto que é mudo deixou escapar um grito de susto. Avistamos a tarde caminhar devagar pela calçada, despedindo-se de cada árvore, cada casa, rua, avenida e perdeu-se nas sombras ao dobrar a esquina. A cidade havia se transformado em uma estátua de bronze usando apenas uma cinta-liga  de níquel. Arremeti-me na direção daquele último sopro de luz. As solas dos meus sapatos arrancaram para avenida com o freio de mão puxado. Era possível ver a esteira de faíscas escalpelando o couro do asfalto.Cavalos-de-pau acrobáticos rodopiavam vertiginosamente em círculos. Era o meu all'star conversível. O tênis que eu havia comprado para dirigir os meus passos. Em meio à fumaça cinza o sol desaparecia levando com ele o dia. Torah pisou imediatamente no ar. “Pipa, o que foi isso?” – perguntou  grilado de espanto. Nada demais, Torah, foi apenas um pequeno escândalo íntimo dos astros. Dá só uma olhada no céu meu grilo rabino muito querido! A lua cheia de hoje está rolando pela linha do morro. Moeda de cobre dourado, balão de gás neon explodindo em ecos: NOITE AFORA, SOL ADENTRO.



Pipa & Torah.

Um beijo!

9 comentários:

JasonJr. disse...

Esse seu grilo falanteé muito chique! :D :D :D

Gislãne Gonçalves disse...

Preciso de um grilo assim!

Beijos

Nei Duclós disse...

O confidente que aparece faminto e depois some sem merecer o que come e que volta para uma reunião de emergência para que Pipa enxergue os ventos da explosão que enfim se manifesta em forma de um mês de promessas. Cruzamento de linguagens (poesia, conto, crônica), busca de coisas soterradas com a coragem de uma palavra que se desencadeia com força e nos traz o rosto da mulher que vê a menina. Confluência de sons - o príncipe, o cobre, o níquel - este post é comunhão de arte e memória, de sonho e carne viva. Pipa não está na vida a passeio: por isso nos atinge como um raio de luz no fim da tarde. Diante de sua voz, é o mundo que delira. Ela se equilibra, plena de si e de olho no mundo, como um casulo que recebe o sol antes do voo.

Pollycléssio Mota Sá disse...

Não parece, mas eu estava com saudade de voar por aqui. Depois que eu resolvi levantar voo com uma abelhinha andei meio distraído...
Mas eis que mesmo à distância me sinto ainda ligado nestes voos de pipa sempre buscando novos ares...
Vou confessar que estranhei a forma com que chamaste este grilo (torah) sendo ele a sua própria salvação e desgraça - praga do egito - e a pipa que buscava, assim como o grilo, lançar um grito de liberdade, acabou se escondendo no canto de uma das pirâmides do passado mumificado de chocolate, e ao invés de LIBERDADE, ela gritou: SAUDADE. perdurando assim como o torah, a sua salvação e desgraça...
Bjão Polícleto.

Rafaelle Melo. disse...

E setembro veio bonito e cheio de parendizados com o Torah!

Preciso estudar com afinco o código morse dos grilos. Teria um livro introdutório para emprestar??

Bom ouvir tuas aventuras grilísticas. Melhor ver tua luz brilhar!

Brindemos setembro!


Beijo meu, Pipa!

Be Lins disse...

"Você tem que DAR O PULO..."

conselho porreta,
como pode uma frase quase simplista
dizer quase tudo,hein?

Beijo, Dona Pipa!

Roberta Mendes disse...

Espero que Torah esteja a salvo de todos os inseticidas. Em céu de pipa tão singular vai o bichinho saltiplanante, tentando aos pulos alcançar as abóbadas do teu voo.

Não cansa isso, Torah? Movimentar-se assim, como um eletrocardiograma desenhado de corpo inteiro no ar transparente?

Mulher Vã disse...

Voce pode me chamar de chata [pois sou mesmo], mas a culpa é sua que nos deixa [os leitores] assim mal acostumados, com fome de seus textos densos e complexos.
E não é que logo num domingo tenho a noticia da existencia de um grilo falante? [que é claro, deve ter vindo da historinha do Pinóquio]
Começou bem humorado e até atrevi-me a rir.
No andamento, foi ganhando proporções tão esquizofrenicas que se não te conhecese ficaria preocupada.
Terminou leve com a lua cheia e o balão explodindo, em seguida arrematado por Pearl Jam, ficou belo.

Mas sei que voce pode mais, muito mais.

Sou tão insaciavel quanto sua grandeza.

Um beijo de carionho

Mulher Vã disse...

Carinho.

Teclado fidumaégua