2.25.2011

Dançando na chuva





Imagem: Deviantar't




"Eu estou cantando na chuva, apenas cantando na chuva.

Que sensação gloriosa, estou feliz

novamente!"




Gene Kelly  In.: Singing in the Rain





Felicidade! - chamei. Fingindo uma discrição que não conseguia, esta manhã ela passou por mim, olhando-me de baixo para cima. Contemplamo-nos longamente em silêncio, numa luta de olhares que se enfrentam. Tomando emprestada a expressão reveladora de algum volume do Oráculo, arregalei os olhos como dois pratos, fantasiando que, se eu a visse, ela também me veria. Fazia sol, mas na cidade chovia. A chuva fina e colorida bebia-me como um elixir misterioso que me enchia de forças desconhecidas, devolvendo-me não só a vida, mas também a alma que eu julgava perdida. Ambas nos perguntávamos se era modo como a víamos ou como nos sentíamos. Naquele dia, tinha lavado toda a louça da noite anterior, limpado toda a sujeira da casa e aberto todas as janelas para ventilá-la. Sob a luz do sol, o céu se desfazia em lágrimas douradas que escorriam pela face do ar e desapareciam do nada, como em um passe de mágica. Eu sorria, submissa. Contemplei aquele espetáculo maravilhada. Corri para a rua, deserta. No meio da rua, sozinha, com o pés sobrepostos  na água recitei: - Lava chuva, as feridas e as mágoas! Levantei os olhos para o céu como se quisesse em vão, pegá-la com as mãos. Com asas dégradés, ela me sobrevoava, deixando cair asterismos em cima de mim. - "Toma esse batismo de água" - pareceu-me ouví-la dizer. Tentei me agarrar àquele milagre, rogando para que não fosse apenas uma alucinação, mas a bênção que eu tanto esperava. Talvez a felicidade tenha estado em outros lugares, como ali naquele pão com manteiga que eu ainda tinha sobre a mesa. E eu, estúpida expectadora, que nem olhar, sabia. Não há sujeira que não possa ser lavada. - concluí. Naquela manhã sapateei como Gene Kelly estreando passos inéditos sob aquela chuva cristalina com a qual eu me fundia. Torci o pescoço de todas as nuvens negras e frias, e ainda que eu não tivesse uma direita perfeita, imobilizei-as com um soco cinematográfico até garantir que ficassem ao menos, contundidas. Pode até ser que minha expressão solene de trapo tenha me delatado, mas eu não daria à esta vida a satisfação de me mandar para a morte ainda viva, em nome de uma dor que eu já lembrava mais que existia. Para não morrer afogada de tanto amor represado, decidi derramá-lo. Fiquei descalça. Doei todos aqueles saltos para quem sabia usá-los. Peguei o meu guarda-chuva e o joguei para o alto. Fiquei  no meio da rua,  sorrindo até para os insetos que passavam. Enquanto me olhavam eu gritava bem alto: EU SOU FELIZ!!! Depois saí correndo toda ensopada. Como eu, a vitrola girava, acreditando que existe uma música para cada tipo de dor e um instrumento para todos os que têm coragem o bastante para interpretá-la. Pode ser um tambor, um prato, uma caixa, o que realmente vai importar é quando você começar a tocá-la. Dancei e cantei até ficar rouca. Como uma melodia que trava no meio de uma nota de súplica, minha voz desapareceu sem explicação alguma. Um convite silencioso para escutar a orquestra que fazia festa dentro de mim. Eu estava curada só de ouvir. Hoje descobri que a felicidade não está em nada que nos falta,  está sim, em tudo aquilo que nos sobra, e, que quase sempre, jogamos fora.  Há quem prefira acreditar que a felicidade seja um estado de graça. Penso que não, porque se for, passa. Penso-a como um ser da alma, uma iluminância que nos acompanha todos os dias sem pedir em troca absolutamente nada. Outros entendem que ela esteja em um carro de luxo, uma casa de praia,  ou em uma inflada conta bancária.  Eu, particularmente, acredito que ela esteja aqui. Neste momento em que não quero mais do que existir.  Nessa chuva que me lava. E aqui o tempo não existe, porque o limite é bem mais do que estas palavras. Chamo-te pelo nome Felicidade, ainda que seja apenas para ouví-lo em voz alta. ATCHIM! - espirrei. E como se a Felicidade tivesse expulsado a Tristeza pelo nariz: SAÚDE! Desejei.



Pipa.

23 comentários:

H. Machado disse...

Amém.

Anônimo disse...

Pude sentir sua felicidade interior, me contagiando, não havia me sentido assim antes ao ler belas palavras, talvez também precise chamar pela felicidade.
Obrigado por suas palavras.
O mundo precisa de histórias felizes.

Bejios
Loies

** disse...

Pipa querida!
Que saudade daqui...
Da sua delicadeza e intensidade ao mesmo tempo :)
Lindo texto!!
Imaginei tudo...
Tão bom seria tomar um banho de chuva e se livrar do que não nos convém. Infelizmente é necessário mais que chuva!
Beijocas, Pipa luz!!

Lobo Guimarães disse...

Creio que a comentarista anterior a definiu muito bem: "toda delicadeza e intensidade juntas" - pena faltar a ela a fé que te embala - que seja na chuva - que seja na alegria do que é simples.
Texto gostoso. Gostoso, mesmo.

Sara disse...

O blog, o texto, tudo perfeito!

WILSON disse...

E põe Amém nisso!


Até um burro sabe que viver do passado é coisa de atrasados. Onde quer que esteja, deve estar plena, inteira. Isso sim é a verdadeira responsabilidade que nos cobra a vida. Então não invente desculpas. De hoje em diante espalhe esperanças por onde quer que ande, e jogue para o lixo toda a sujeira, toda negatividade que lhe embace a vista. Aja, mesmo que erre, pois aprenderá com o erro e este deixará de sê-lo!

Agora se me permite, minha menina querida, este texto está me cheirando à amor novo ou pior, à noitada bem sucedida. Assim sendo, pretendo ser breve e bancar o Tiririca, QUAL É? QUAL FOI, PIPA?

Wilson, seu amigo, o terceiro homem.

Alvaro Vianna disse...

Como não se apaixonar por uma mulher que, além de linda em todos os planos, é feliz por si e pelos outros?

Te amo, Dona Pipa!

José Vitor disse...

A sensação da chuva expressa liberdade, lindo texto!

abraços

Sizií disse...

PerfeeitO.
Adoreiiii demais o texto!!
=D

BEijos

Rafaelle Melo. disse...

"Hoje descobri que a felicidade não está em nada que nos falta, está sim, em tudo aquilo que nos sobra, e, que quase sempre, jogamos fora."


Compartilhar dessa e das outras tantas descobertas é graça! E não estado de, mas apenas graça de existir.

A um tempo vinha buscando iluminar teus espaços com uma luz de esperança, achei ser vão e continuei apenas te admirando. Mas de tola esqueci-me que a felicidade não é apresentada a ninguém, pois para quem não se atenta ela passa, todos os dias em cada brilho simples que nos rodeia. Que bom que você se atentou, cara Pipa.

Feliz em saber da sua felicidade em meio a tempestade. Mais feliz em te ver dançando na chuva ao invés de se esconder em um cômodo frio e admirar a alegria liquefeita cair pela janela.

Agente se vê por ai, no ar ou quem sabe na chuva!

Te abraço.
Me abraças.
E dançamos juntas.

Janine Bettencourt disse...

Oi Pipa :)
Que bom encontrar tanta luz por aqui hoje, fico feliz por esse raio de sol que te iluminou.
Te deixo um beijo, um beijo lindo como o céu, Jana

Sara disse...

Ah Pipa, flor viadora.
Palavras escritas que falam ao meus ouvidos, pena que nem sempre meus dedos traduzem o que sinto aqui. Por isso as vezes pareço distante, mas estou sempre a espiar, como pelo buraco da fechadura.
beijinhos.

Carmen, disse...

Que belo texto!

Doei todos aqueles saltos para quem sabia usá-los.'

*frase irretocável.

Abraço!

Priscila Rôde disse...

" Hoje descobri que a felicidade não está em nada que nos falta, está sim, em tudo aquilo que nos sobra, e, que quase sempre, jogamos fora. Há quem prefira acreditar que a felicidade seja um estado de graça. Penso que não, porque se for, passa."

Concordo com você, Pipa. Eu prefiro acreditar que ela não é um estado de graça porque eu quero que ela fique, que ela esteja, que ela não passe!

Mulher Vã disse...

Rá!

Te vi correndo na chuva, toda ensopada, gritando que é feliz, os pingos te lavando a lingua descendo garganta abaixo e lavando o intestino delgado pra virar xixi. Depois voltar de novo, algum dia a virar nuvem.

Um dia todos nós seremos nuvem e será lindo.

Mas antes, correremos pelas vias outrora empoeiradas mas agora com lama agarrando os tornozelos ecorregando nela, mas ainda assim não deixando de sapatear dubirudududu...se Gene Kelly estivesse vendo, ficaria com vergonha..hehe
Claro tudo é mais bonito no cinema, né!

Quando estamos felizes ou tristes, dá vontade de sair correndo mesmo. Na chuva ainda é mais gostoso!

Eu gosto tanto de ler voce que até endoido.

Beijo

Roberta Mendes disse...

Pulo tuas poças, fazendo splashes. Respinga sobre ti minha gargalhada. Ao branco, sob tua chuva, fez-se transparente. Ao largo, colou-se-nos à pele. A felicidade sempre maximiza contatos. Encharca-te dela!

Poliana Fonteles disse...

Bato palmas para ti Pipa, que torna leve o denso das palavras...

Te abraço!

Pedro Antônio disse...

O seu blog continua lindo, Pipa!

Saudade.

AbraçãoO!

Pedro Antônio

Pollycléssio Mota Sá disse...

É preciso ter esperança, ainda que seja de um sonho ou devaneio. Mas referindo-me ao texto, quanto à felicidade, acredito que como você colocou está nas coisas pequenas e simples da vida. Porém não como algo que se possa ter. Acredito que a felicidade é momentânea sim. Ela é busca e deve sempre ser buscada. E se acreditamos que está nas coisas pequenas e simples da vida, façamos disso uma constância. No fim poderemos dizer que somos felizes. Bjao do polícleto

Anônimo disse...

É pa você Pipa...


Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais

Hoje me sinto mais forte,
Mais feliz, quem sabe
Eu só levo a certeza
De que muito pouco sei,
Ou nada sei

Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs

É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir

Sinto que seguir a vida
Seja simplesmente
Conhecer a marcha
E ir tocando em frente

Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada, eu vou
Estrada eu sou

Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs

É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia,
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
E no outro vai embora

Cada um de nós compõe a sua historia
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs

É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir

Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais

Cada um de nós compõe a sua historia
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

Almir Sater

Foi isso que senti aqui hoje. Um beijo Luciana Rodrigues.

Ju Fuzetto disse...

É Felicidade, sim. E não importa se cada pedaço de dor foi esfarelado no chão. E a chuva vem retocar a imagem plisada de alguma dor que já não existe. E tudo vira luz. Não importa onde estejas. Apenas abrace-a é tua. Amém!! Amém milhões de vezes Amém!

Mari e Poly disse...

Perfect!!!!

Quaro banhar na chuva, reixar a frieza de lado...

Abraço

Keli Wolinger disse...

A felicidade não houve ninguém que não a tenha ou alguém que nunca a desejou possuir.
Grande abraço