Arte: © Agócs Íris
Há quem prefira acreditar que é o caminho que escolhe a pessoa. Ao menos, depois de uma certa idade. Obriguei-me a sair às ruas e me afastar dessa escrivaninha, de modo que pudesse dar oportunidade para que o meu me encontrasse. Se alguém pretende ser descoberto, ao menos tem que andar na trilha das opções, ou limitaria as possibilidades de acordo com as escolhas, para não dizer, expectativas. À medida que eu caminhava, sentia que a coragem me abandonava e o medo me invadia. E à semelhança de meus passos, o pensamento recuava, deixando para trás um rastro glacial de covardia. Nunca pensei que fosse egoísta o bastante, para amaldiçoar tanto, e tão contra a minha vontade, alguém que eu sequer conheci o bastante e ignorá-lo com toda minha força, só porque ele se recusou a ficar comigo pelo resto de seus dias. De algum modo, achava que se eu olhasse no fundo frio de seus olhos, eu finalmente encontraria o arco-íris perdido, e ele então me reconheceria, e saberia de imediato no que eu estava pensando. Mas ao contrário, ele estava convencido de que eu era louca, e no geral me olhava atônito, com a discrição de um psiquiatra que avalia um paciente, e, por segurança leva na maleta uma camisa de forças e uma ampola de sossega fachos, convicto de que a qualquer momento ele surtaria. Foi então que a vida me concedeu um minuto de trégua antes de voltar ao ataque. O difícil não era admitir que estava sozinha, mas sobretudo, que estava vazia. Uma silhueta cheirando à hortelã estendeu seu olhar na direção dos meus. Suas mãos níveas abriram caminho entre meu rosto, acariciando as minhas feridas enquanto o véu da coragem se abria para enfrentar o desconhecido. Antes que meus piores temores se realizassem, fugi como uma dama enlutada até me confundir com uma sombra a mais entre a neblina. À certa altura, lembro-me de ter fechado os olhos e não os abri até ter certeza de que estava sozinha. Divina proteção, conhecem as regras? Tenho me arriscado cada vez menos, com o receio científico de quem espera do outro, não mais que a ironia ou a agressão escondida. Temo os caminhos. Mas não é fugindo que vou passar minha vida. Pensei no destino e sorri. Quis acreditar que aquilo era uma questão de tempo, e que se eu não apertasse tanto o passo, possivelmente ele me alcançaria.
Pipa.

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