10.19.2010

Quando a face oculta aparece








Arte: © Agócs Írisz






"Nos perderemos entre monstros da nossa própria criação,

serão noites inteiras, talvez por medo da escuridão,

ficaremos acordados, imaginando alguma solução,

pra que esse nosso EGO- ísmo,

não destrua nosso

coração."





Renato Russo, Será.








Peço que abaixe a voz ego, que o meu verdadeiro eu está presente. Vão me contar o que está havendo? - perguntei. Uma parte de mim suspirou e sentou-se na cadeira. A outra, intolerante, lançou-me um olhar recriminador, como se tivesse descoberto um terrível segredo sobre mim. O ponteiro do relógio estava numa encruzilhada e, ainda indeciso, fez opção pela meia noite. Quando pensei que finalmente chegariam a um propósito para abrandarem meu destino diante das minhas causas perdidas, as duas partes de mim se envolveram num duelo final de tragédia litúrgica sem limites. Catalogaram ideologias quaresmáticas que versavam sobre lobisomens e mulas-sem-cabeça. Começo a pensar que a humanidade veio do cachorro. Late o tempo todo. Fui derrubada em meio a uma briga, e mesmo tendo respeitado as nádegas alheias não me imunizaram. Me conforta saber que valho ao menos uma surra. Senti um certo alívio de saber que a emoção sempre arranja um rodapé para constar que não somos feitos só de razão. É o que eu digo. Se gastássemos mais tempo lapidando nossas próprias motivações, economizaríamos na expedição de autos safirentos de insegurança, que não cumprem outra finalidade, exceto a de depor contra a nossa própria condição. A discussão foi boa, mas, as duas metades de mim, não tendo achado um ponto de equilíbrio, ficaram descobertas. E eu, indecisa, fui checar se minha voz estava com todas as cordas, temendo ficar afônica de tanto apaziguar os meus ânimos sobressaltados. As maiores lutas acontecem dentro de nós mesmos. E quando se fala em batalhas de ego, me questiono se há vencedores ali. Algumas tentativas não passam de meros esperneios, para que possamos obter o consentimento da consciência e obrigá-la a aceitar nossas imperfeições - é a base da psicologia infantil. Não alcançamos a maturidade. E, no entanto, como não aceitamos nossas próprias limitações, tudo se perde, até o respeito. É uma triste constatação: mas como ver o outro a partir dele mesmo se não há outra imagem no espelho que não a nossa? Todos nós temos zonas obscuras de nossa personalidade que não podem ser penetradas. Essa sensação de incompletude que carregamos é extremamente perigosa. Falta-nos discernimento para compreender que não cabe ao outro a tarefa de completar aquilo que nos falta. Ninguém pode ser compelido a viver de acordo com nossas expectativas. Há que se ter cuidado para não cair nas armadilhas do superficialismo. O ego é o assombro da personalidade. Geralmente ele anda por aí com um sorriso oleoso para que não percebamos o quanto transborda de gozo quando consegue sufocar nossa essência. Que eu seja forte o bastante para admitir que diante de mim eu permaneço fraca. Que eu tenha coragem o bastante para me livrar de todos os excessos até minha dor de existir se esvaziar. Procuro desesperadamente por mim. E não vou parar até que eu me encontre.






Texto dedicado a Gian Fabra do blog A Dança das Palavras  (Gian Fabra é músico, compositor, letrista e produtor com um vasto currículo dentro do rock nacional. Principais artistas com quem já trabalhou: Legião Urbana, Leo Jaime, Biquini Cavadão e Tantra). Seu texto Sobre Monstros foi formidável.



Pipa.

15 comentários:

Silenciosamente ouvindo... disse...

Um prazer conhecer este blogue.
Voltarei mais vezes.
Saudações

Ju Fuzetto disse...

"Que eu tenha coragem o bastante para me livrar de todos os excessos até minha dor de existir se esvaziar. Procuro desesperadamente por mim. E não vou parar até que eu me encontre."


Quando a dor sai do limite excessivo, a verdadeira essência vai transbordando nos olhos.

Incrível Pipa!!!
Acho que me encontrei nessas linhas!!
beijos

Sil.. disse...

Ô Pipa,

Porque será que quando eu entro aqui pra te ler, não tenho vontade de sair?

Um abração menina Pipa, a que encanta!

Sabiana M. disse...

Pipa, sinto sobre o que falas.
E minha receita é esvaziar-me.
Eis a minha meta!

Bjus

dear sarah disse...

Esse tal ego que tenta tanto nos consumir, temos que ter muito cuidado..

mas sobretudo, adoro o que escreves!

Mari e Poly disse...

"As maiores lutas acontecem dentro de nós mesmos"

rsrs...sei bem o que é isso. a super racionalidade enche o saco...

Parabéns pelo texto

Lunna Guedes disse...

Cheguei aqui por caminhos curiosos. Visitando aqui e ali numa tarde de vento que eu escolhi me desligar do trabalho, deixar tudo de lado e me aventurar numa leitura. Cá estou a pensar em mim mesma diante do seu texto. Estou revendo meus fantasmas de ser outro e encará-lo nos olhos em momentos de pânico. rs
Sou assim, meio isso, meio aquilo, meio esse, meio aquele. Vai saber.
Vou-me porque o passo já valeu pela descoberta. Bacio

Sizií disse...

Devemos sempre estar a procura de sermos essencia.
Um grande abraço... e sentir-me no texto.

WILSON disse...

Lídia,




Tão certo quanto é a alma para o corpo, o ego é a veste corroída pelas traças.


Lídia, minha rainha, pega tu aqui nestas palavras e guarda.



As pessoas são infelizes porque tem um diferencial. São capazes de falar. Falar o que sentem. São capazes de amar e ao mesmo tempo de se odiar.


Mas deviam ser capazes principalmente de agir.

O amor ao ego é um delírio para o homem, Lídia. E o ódio pelo imperfeito torna-se crescimento para a alma daqueles que incansáveis procuram por mudança.


Lamento por aqueles que não conseguem tal desiderato, morrerão como uma mosca em meio aos detritos de vontades e desejos acumulados. Porque é para um saco de lixo frustrado que eles vão com o tempo. Esse mesmo. O desperdiçado.



Você é perfeita Lídia.

A sua mudança, você já encontrou, pode ter certeza!




Sou honrado por ser seu amigo. Disfarça seu talento para não ofuscar o brilho já tosco dos que cruzam seu caminho.


Seus olhos são cheios de mistérios, não me assusta que caiam fulminados.


Na próxima existência quero ser um chocolate só para sentir a sensação do seu beijo. Tenho certeza de que acabaria gostando de conviver com eles.



Nesta fico com o posto de amigo, só para ter a sua companhia pelo resto da vida e limpar todos os dias o distintivo de sua nobreza e grandeza de espírito.











I love you more than you can imagine.




Wilson, seu amigo, o terceiro homem.

Maíra disse...

Adorei seu blog! Lindas palavras! Já estou te seguindo, dá uma passadinha no meu http://mairacintra.blogspot.com/ espero q goste! Bjos

Guilherme disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Guilherme disse...

Nossa cachola é bem matraqueira;
do tal ego, porta voz e companheira,
late, chia, grita, esperneia.

Que de tanto zunir..
da gente chama atenção,
pra tantas coisas lá fora, fugir..
longe do coração.

Há mesmo que se ter cuidado,
discernir certo do errado,
Ego, assombro, espelho, armadilha
desejo este do menino da Ilha. :)

Velho Santiago disse...

Acho que me perco nos egos, superegos, alteregos, mo menino, moço, velho santiago, me perco de tanta coisa que tanta coisa depois tenho pra procurar. Delicia é quando acho no bolso da calça lavada. Bjo!

Poliana Fonteles disse...

DOÍDA AQUI COM SUAS PALAVRAS... ESSAS PALAVRAS QUE SE ENCAIXAM COM PERFEIÇÃO, COMPLETANDO OU ESVAZIANDO A ALMA DE QUEM LÊ... SOU TUA FÃ PIPA... Você me faz bem...

:D

Keli Wolinger disse...

Pipa,

Sua essência de ser é memorável.

Saber de fato quem somos é algo assustador. Nunca saberemos ao certo, se o que de fato descobrirmos realmente é aquilo que gostaríamos.

Olhar para si é defrontar-se com a curva da interrogação, o perigo mora no final do concâvo.

Bjos de luz!

Keli