18.10.10

O Resgate








Arte: © Agócs Írisz







Já vi crimes de toda sorte na minha profissão. Menos de furto psíquico. Vinte e três horas, dezessete  minutos e quarenta e nove segundos, precisei para  resgatar  meus pensamentos, mantidos em cativeiro pelo fértil impulso do Sequestrador Álvaro Vianna.   O que acha de largar a profissão de carrasco desocupado, digo, de servidor público  e fundar um Movimento espírita, inscrito sob o nome fantasia “O Porvir” e aprender a ler mentes? Assim saberia o quanto estou pensando em lhe cobrar por este dano moral.  Estou desenvolvendo teorias sobre OS PODERES DA INÉRCIA. Basicamente li milhares de exemplares para chegar à uma conclusão, e por incrível que pareça ao invés de esclarecer, consegui confundir ainda mais as coisas. E como um leitor fez de refém minhas teorias escapistas, eu não pude terminar. Tal qual um eremita, com olhar desconfiado de fera surpreendida, e  um lampião à gás de chamas mais para amortizadas que prolongadas, estou com alma voltada para as noções preliminares da perda de limites, peço que entendam minha posição mental. Estou tentando capturar o ectoplasma de um fantasma que anda rondando por aqui com um líquido avermelhado que injeta nas pessoas e as envenena enquanto elas dormem. Já descobri a fórmula de que ele é feito. “Silencium ad aeternum.” E não é só as palavras que ele rouba. Arranca também o coração das pessoas com o objetivo precípuo de violentá-lo.  Deram-me do veneno e estou tentando achar um antídoto para sair deste estado permanente de letargia emocional. Apenas necessito de um auto-exílio, para aprender a manipular tal fórmula. Assim que essa paisagem com cara de contusão alterar, vou pedir para que me ajudem a tirar esta apertada túnica, eis que ela está a incomodar minha retaguarda. Daí vou dizer que estava louca e fingir que o meu encontro com ela foi por acaso. Por hora, deixem-me apreciar o halo plúmbeo das velas, e fazer intercâmbio com espíritos e canetas possuídas de lastimável envergadura poética, tendo em vista que tive que atender um chamado de última hora para fazer parte do movimento de caridade oculta e desvendar os dolorosos dramas da baixa vibração espiritual. Quando eu me afastar em definitivo desse mundo de silêncio e sombras, serei elevada a condição de autêntica Pipa dos Ventos. Já que me sugeriu este pseudônimo, vamos deixar que os ventos possam guiar. Neste instante, digo adeus às intensidades. O momento exige retrocesso. Meu  plano era voltar assim que eu descobrisse onde foram parar minhas pernas. E quando eu já ia me acostumar a viver sem elas, um susto cardiovascular me fez mudar de ideia. Espremi os dedos até sangrarem, na certeza de que se continuasse agindo dessa forma, meus piores temores se realizariam. Eu me apaixonaria outra vez. Em outra situação Álvaro querido,  eu o usaria como escada para subir aos degraus da mulher desejada com a mais requintada ironia. Mas nessa, decidi oferecer uma cadeira imaginária para que você se sentasse, alto lá, é na minha cozinha. Fiquei na dúvida entre o bandido e o mocinho.  O que me dá o direito de optar pelos dois. E por ter mergulhado comigo, te ofereço um sorriso para que lhe sirva de alento no cais. Afinal, toda mulher machadiana precisa passar pelas mãos de um garoto problema. Se for bandido, tem um charme a mais.



Se fazem tanta diferença essas psicologias de escoteiro querido  Álvaro e demais, vou devolvê-las ao ar.



Um abraço enigmático.


5 comentários:

Márcio Vandré disse...

Entre anjos e demônios, caímos no penhasco. Os dois têm asas. Nos salvarmos, dependerá, exclusivamente, de para que lado esticarmos as mãos.
Um beijo!

z i r i s disse...

Aceita comentários de uma múmia caminhante?

É tanta atadura que temo que ninguém consiga me desenrolar...

E você Pipa ainda não conseguiu se livrar daquela fantasia de Halloween? Nego anda assustado, valei-me!


Qualquer coisa tem vaga aqui no andar. E tem segurança para o caso dos mais impressionavéis...


Haja coragem pra desenrolar não?
Aire! Depois quem não tem coração somos nós...


Desculpe a voz lúgubre... No natal mudo a fantasia e tudo se resolve...

Te abraço!

Alvaro Vianna disse...

O crime compensou. Crime como o de Ghandi diante de um império. Ou dos cristãos romanos. Ou dos companheiros numa serra cubana.
Não; um crime bem menor, mas com ideal proporcional: libertar a liberdade que representa a menina Pipa diante de sua cuidadora. Aquela Pipa que se precisa ver no ar, sempre. O ar existe porque há quem voe. Sem ela esse nosso pequeno planeta seria irrespirável.

Texto inspirado, em sentido literal.

Obrigado, querida, por voltar. E por me perdoar.

Agora, continuando aquela conversa...

Wilson disse...

Impressão minha ou outro reinado está começando a reger?


Ainda bem que acendeu a vela alaranjada que lhe ofereci, deixe que ela queime por sete dias e sete noites até que ilumine todas as paredes do teu coração e da tua alma, embora eu saiba que nunca será suficiente eu me matar em intermináveis declarações de que suas mãos tem vontade e luz próprias, que não serão apagadas por nada e nem ninguém.


Felicita-me saber que não sou o único a ver.


Diga a ele que da próxima vez que se atirar do penhasco que é o universo da Pipa, que pendure em seu pescoço, porque se tiver medo de altura, como todos os outros, pode ser que fique só a vertigem da queda.


Mas que mulher!
Es totalmente demais Pipa.

A gente se vê na livraria.


Wilson, seu amigo, o terceiro homem.

Roberta Mendes disse...

Pois estávamos aqui soprando a vela murcha, inseguros como a chama do balão, tentando dar conta de tanto vazio. Um furo na lona e o sopro passava assobiando pela segunda vez, eco de chaleira. Servida? Era a Pipa voltando, com modos de anfitriã, retomando seu espaço. Enchemos as canecas pedintes de tua substância e tomamos, goles lentos, antes de dormir.

Te abraço aliviada. Os pródigos sempre voltam para que se consume a festa. ;-)