6.18.2010

Aos que perdem por orgulho



© Agócs Írisz


 






Corre o tempo. Perguntei-me se eu ia terminar os meus dias assim: como um destes personagens de Jane Austen, escapulidos das páginas de um livro à procura de uma possibilidade de amor. Desde que se foi, passaram-se vários dias sem que eu tivesse notícias dele. Encantoei os olhos na ponta da escrivaninha e avistei um aparelho telefônico que me reparava de esguelha, com a testa franzida, como se quisesse me mostrar algo inovador que ainda não fiz: "telefonar". Imediatamente, recobrei o juízo: "como uma coisa tão simples pode se tornar  tão difícil" ? Derramei na alma uma coragem, que no fundo não tinha. Peguei o telefone e respirei fundo. Foi quando a própria respiração tentou me sufocar. Hesitei, e por um instante não consegui engolir nem a própria saliva, tinha a consistência de aço inoxidável ferrítico ACE -P4 39A. Suspirei perdida, formulando minhas dúvidas em voz baixa: "este telefone não existe, é só uma miragem que insisto em teclar". Mas tratava-se de uma emergência. Eu não podia partir sem deixar ao menos um coração a inventariar. Antes de falar, parei um instante para recuperar o fôlego e conjugar os verbos que se revoltaram e fizeram uma rebelião no céu da boca, fazendo de refém a minha língua que ficou presa entre os dentes. Não penso, logo, eu ligo. E abençoados sejam meus ouvidos! Finalmente consegui discar o seu número. Tive a impressão de que meus dedos se afundavam entre as teclas enquanto as garras do fio se embaraçavam em meu pescoço, apertando minha garganta como um cipó espinhento. Eu o levei com pouca ou nenhuma coragem até o ouvido, e por sorte, tinha um sinal anêmico de: "fora de área". A secretária eletrônica atendeu. Minha voz ficou dependurada de cabeça para baixo na caixa postal, matando enforcado o seguinte recado: "me deixaria voltar a vê-lo, se eu pedisse"?



Pipa.



19 comentários:

Cristiane Melo disse...

mais uma postagem que fala por mim Pipa! me delicio em cada palavra lida,como se saissem de minha boca!
ah maldida secretaria eletronica!!

Winny Trindade disse...

Dá mesmo muita vontade de ligar. Mas não sou tão corajosa, bem, me disseram que no meu caso não é questão de coragem, e sim de orgulho. Com o meu orgulho eu não posso mesmo lutar!

Abraço meu

Leo disse...

Pois é, às vezes o orgulho ou medo nos impede de fazer tanta coisa,que seria tão fácil.

Muito corajosa a Pipa, por isso sempre a encontro nos ares. voa
sem medo de cair.

Um beijo com gosto de sonho e açucar confeiteiro.

Isabele disse...

O orgulho já me impediu de fazer tantas coisas, ele é o monstro que deixa coisas simples como uma ligação parecem enormes sacrifícios.

Be Lins disse...

Orgulho parece um adjetivo menor, mas, em certas ocasiões, ele mostra-se vital.

Beijo, MENINA VOADORA.


*

Penso, Logo Briso! disse...

aii o orgulho!
orgulho besta!
amei o blog
é delicado e perfeito

tou seguindo
beijokitas
BY. Jé.èH
http://penso-logobriso.blogspot.com/

Maryama* disse...

Me sinto orgulhosa da atitude. A coragem é necessária para termos o que desejamos.

Lindo como sempre ♥

Willyan Luemi disse...

Que ternura, Pipa!
O amor verdadeiro é simples, humilde e sincero... dentro dele não cabe a vaidade.

Um abraço na alma!

Alvaro Vianna disse...

Texto em evolução. Momentos difíceis merecem ser repensados e reeditados. É a nossa vida. Sensações não se emprestam de terceiros.

P439A é bom pra estampar, não?

Abraço carinhoso.

Bia Rodrigues disse...

Pipa querida,como sempre me delicio com seus textos.Ah esse orgulho... as vezes faz com que a gente perca muitas coisas nessa vida,o bom mesmo é passar por cima dele e seguir em frente sempre.
P.s: Tem mais um selinho pra vc no meu blog.
Beijos Flor.

J. disse...

Seus textos são tão sensíveis e reais que as vezes eu penso que eu queria tê-los escrito. Este em especial. Especialmente a última frase.

Beijos.

Amanda Arrais disse...

O orgulho dói, impede, limita. Faz bem encarar a barreira e lutar contra o orgulho mesmo que a batalha se dê por perdida, a guerra continua. O recado pode ser a solução, afinal.
Adorei a guerra interna entre as reações entre razão e emoção.
Lindo o texto. :)

Denise disse...

Moça que voa
sou testemunha
vc de fato tentou.

afagos

Manuela Freitas disse...

Gostei muito do teu blogue Pipa, mas ainda não o explorei como deve ser, vou linkar para voltar.
Bj,
Manú

Flávia Diniz. disse...

lindo.

Vozes de Minha Alma disse...

Oi Pipa.
Mas o orgulho é vencido quando nos deparamos com ele, e em nós mesmos travamos uma batalha interior, rsr
Venceu, tu que embora frustrado no intento de falar com ele, mas atropelou o orgulho.
Bjs

Juliana. disse...

As vezes tento que me segurar, mais a gente não consegue controlar muito, as vezes é bom não se limitar e vencer o orgulho!
Um beijo
Ju

Ziris disse...

Pipa tem juízo esse menino não, tem nada!

Um mundinho tapejara lá fora, tudo tão doído e bicudo... E daí uma voz quentinha e agasalhada, só precisando abraçar de poucos falares... Sentir essa meia-voz, e reconhecer-se de imediato num ato alheio.

Lindíssimo texto, tudo muito bem colocado...

Te jogo pro alto, de novo!

Abraço de chinchila

Pollycléssio Mota Sá disse...

Hans Georg Gadamer fala em sua concepção estética sobre o conceito de símbolo. É como se fosse algo que você recebe de outro "ente" ao se despedir e que depois de um tempo em possível reencontro vc mostra o objeto e é reconhecido. Percebo que a Nossa pipa está com este objeto mas ainda não sabe o que fazer com ele. Percebo que ela quer completar o que falta, mas ainda não encontrou o número certo.
"quem escolhe muitos caminhos pode correr o risco de nao chegar a lugar nenhum" mas eu prefiro dizer que quem escolhe muitos caminhos tem a oportunidade de escolher o melhor.
Voe pipa
bj
polícleto