8.1.10

Sobre o tempo

Houve um tempo em que a criança sonho me contava o que acontecia lá em cima. Ela costumava dizer sem guerra entre as sobrancelhas que gostava de música. E cantava Aleluia com a voz mais vulnerável deste mundo. Um dia ela resolveu sair por aí arrastando os pés e a alma. Ela disse que ia sair pra encontrar seu olhar, perdido em algum lugar. E nunca mais voltou. Às vezes pisco o olho para aquela janela da sala de aula. Mas as pistas são falsas. Eu vou voltar pra casa nessa locomotiva de latão. E passear com meninos da minha idade. Nossos assuntos raramente vão além de uma troca de acusações. É uma luta de silêncios e olhares atravessados. Eu nunca o deixei acabar uma frase. Ajeito minhas roupas, tiro os meus sapatos e penteio as palavras. Me compro vitaminas, pasta de dentes. E por derradeiro, me presenteio com uma cadeira de balanço lilás. É que ela tem uma almofada verde. Que se cobre de fungos recriminatórios iguais aos que ele tem em casa. Não me cai bem ser obcecada por palavras, mas não recuso uma oferta suculenta. Saboreio um cigarro apagado. E confesso que está cada dia mais difícil ficar junto dele. Minhas palavras estão frágeis como um cristal. E parece que elas vão se partir se eu as tocar. Observo com cuidado esses meus olhos castanhos de íris rajada. No espelho, eles parecem pinturas épicas que se modificam a cada visita que lhes faço. Encaro essas minhas mãos com tranqüilidade enganosa. Elas mais parecem asas sobre o colo, de tão emplumadas. Mas o cheiro de canela entre os dedos ainda é o mesmo. Eu vou te escrever uma carta criança sonho. Para que você não se sinta tão só. E vou compartilhar com você este caldo e estas sobras de pão.
P.S.: Te seguro. Me seguras.
Pipa.


Lídia Martins

5 comentários:

renata carneiro disse...

compartilhar é lindo!

beijos, doce.

Anônimo disse...

O que tá havendo hein?


E eu vou compartilhar com você muito amor e carinho. E voltamos juntos na locomotiva de latão, o que acha?

Adoreiiiiiiiiiii super adorei
Um beijo
Vitaum

Anônimo disse...

Pq desligou o telefone ontem?
Até agora não consegui te dar os parabéns.

E esse texto esquisito? Passei a tarde lendo essa carta funesta. Eu sei que você sente tudo o que escreve. Mas algumas coisas não fazem sentido. É lindo isso, mas me machuca saber que sente assim.

Vê se me atende amanhã.
bjo diego

Anônimo disse...

Achei incrível esse também.
E fico pensando. Que metáfora mais incrível essa de pentear as palavras. Escová-las, como se fosse possível alisar as feras loucas que tem dentro da gente quando um sentimento desse passa para um papel. Não vejo como carta funesta, vejo como uma representação perfeita de um constante estado de quem quer o melhor da vida. O melhor das pessoas.


Parabéns outra e outra vez.

Belíssimo como vc.
Tiagão

Anônimo disse...

Que coisa mais forte Lídia.


Um beijo na sua alma iluminada.

Ana