13.9.18

TOQUE AS NUVENS


                  Eu vi um pesadelo indizível, eu estou quebrado, eu não vejo perspectiva de salvação para ela nem para mim; estamos condenados a arrastar cada um à sua maneira, uma existência que não é vida nem morte. Não sou mais do que um meio-cadáver.
                          Não sei onde li que se pode entrar na sala da política por qualquer porta, seja a porta do jardim de infância, a porta da prisão, a porta do hospício, a porta da igreja, a porta do bordel, a porta do inferno ou a porta do céu. Há apenas uma porta pela qual não será permitido entrar, a porta da lavanderia. Ela foi sempre o porão da história, e, por assim dizer, a guardiã do olho mágico por onde se pode espiar os negativos de vidro das recuadas eras de águas que nos afogam com suas monstruosas ondas. Independência ou morte, não se sabe — dizia vovô depois de tragar uma dose extravagante de cachaça, enquanto sintonizava a voz acusada de falar sozinha em seu radinho de pilha. O velho Ferraz foi um dos maiores sociólogos que conheci. Ninguém tinha tanta habilidade em reunir a família ao redor de uma mesa carregada de eternidade, vendo nela todos os momentos como um único presente, e nem de comer todas as peças do jogo de xadrez até sobrar não mais que um tabuleiro nu, sem torres, peões, bispos, cavalos, reis ou rainhas para delírio dos seus colegas enxadristas. Esta manhã abri a janela e o verde quase me esmagou. Há esperança.  Não sei onde você anda com a cabeça, às vezes falo com você e tenho a impressão de que você está em outro mundo — escutei. Minha cabeça está no senhor, vovô. Ao revisitarem as pilhas de almas dos seus ancestrais, permitam que os olhos percorram as imagens de modo largo e lento, e deixem os respiradores em posição de alerta de gás, qualquer que seja a direção do vento.  Deve ter havido uma ocasião em que acreditei que as coisas eram mais como vovô dizia que como eu achava que poderiam ser, mas isso foi há muito tempo. Não me deixo mais enredar pelos contos dos sorrisos parafusados. Tão fácil distinguir um sorriso natural de um sintético, tenho esse dom e não desejo outro. A literatura, entre outras coisas, nos dá a oportunidade de nos buscarmos de onde quer que tenhamos nos abandonado, e isto vale para qualquer criança que tenha entre oito e oitenta anos. Passeio por listas de nomes que seguram baionetas, bonés, capacetes e até bíblias. Nenhuma colher de prata com cabo de madeira para começar a verdadeira obra. À direita e à esquerda, os revolucionários de coisa alguma preparam seus trajes para a dança fantasma. São duas ditaduras sem o mínimo de simpatia pelas pessoas. Continuo ao pé deste calvário, sempre me perguntando por quais destas mãos sem braços seremos recrucificados, mas não quero estar entre aqueles que perderam o senso de humor enquanto o mundo desaba ao seu redor. Os meus pulmões levarão um bom tempo até assimilarem a fumaça desse charuto com a ponta cheia de nódoas dos Povos-Testemunho da América. Reparando bem nos torsos retesos dos escurões da floresta, aos quais me juntei e dos quais nunca me separei, hoje sei que eles queriam o meu bem. Vou só. Caminho sob a chuva de uma estrada secundária, como uma cor distante, uma flor de lótus que nasce no pântano e reverencia todos os Budas. Vivo no ar, onde respiro. Existo no amor que imagino. Sou jarro de luz, onde há escuro. A lua flutua junto comigo. De volta à selvagem ilha oriental do triunfante ano de 1562, onde a morte venceu a vida em uma batalha apocalíptica, e não satisfeita, voltou para ceifar o restante. Primeiro detonaram o verde, depois o branco. O azul e o amarelo ficaram por último, afinal, eram só intermediários. Chorando, o último Tamoio viu o mar de melodias sonoras e não pode se banhar. Esta consciência de cores misturadas na paisagem desmoronada, além de provocar uma sensação de maturidade nacional, não deixa de ser uma vitória. De resto, estaremos sempre prontos para negociar a paz, isto é, a derrota. Não faz muito tempo, talvez alguns meses, sonhei com crianças que brincavam de pique-esconde no Harlem. É tempo de renovação dos personagens dos filmes de curta-metragem. O primeiro despertar das estrelas de nossa própria série a gente nunca esquece. E por falar nisso, acabo de conquistar uma colocação na equipe júnior "B" dOs Falconbridge Falcons. O negócio agora é Hóquei no Gelo. Quero jogar na posição de centro. No tiro de esquerda. Isto se não eclodir a terceira guerra mundial e colocar a minha carreira em espera. Gosto de esportes em equipe. Eles ajudam e muito a melhorar as expressões pessoais, sociais e culturais. Olha só pro George, em 551 jogos da NHL, com os Chicago Black Hawks, o cara marcou 135 gols e 183 assistências. Não é demais? O jeito é me divertir com os mortos, com os vivos foi-me impossível. Para se reconstruir uma casa é preciso convocar cada século, cada pedra, cada tijolo, cada parede, cada muro, cada cama, cada lençol, cada travesseiro, cada mesa, cada cadeira, cada bule, cada xícara, cada varanda, cada ruela, cada teatro, cada museu, cada escola, cada igreja, cada cabaré, cada palácio, cada sanatório, cada prisão, cada asilo, cada cemitério, cada pá, cada cal e, sobretudo, cada mão pecadora balançando a criança no berçário de um Deus irritado. Os copos tornaram a tilintar com os trovões e os cacos explodem sobre nós como uma chuva de telefonemas que jamais serão feitos, de cartas que em tempo algum serão entregues, de alianças implorando por dedos, de beijos e abraços que nunca passarão do fundo de um coração calado. Há construções que desejei ver em pé para sempre. Não dessas paisagens urbanas das terras natais, mas de figuras humanas sorrindo à saúde do desprezo que a gente de farda manifesta pela população ignorante e humilhada. O julgamento de um destribalizado é irrecorrível. Eis o miserável corpo político que deixa as mariposas bêbadas de tanta luz, tentadas a se lançarem ao fogo, pelo puro capricho estético de ceder ao inevitável progresso de pó e osso. Abriram-se as valas  para receber os espíritos dos que sucumbiram aos anúncios de odontologia indolor sem que nenhum deles ainda tenha suspeitado disso. Maldito homem que simpatiza com os índios, diria o Coronel Chivington, ex-pastor que serviu como voluntário no exército dos Estados Unidos, o escolhido por Deus para salvação dos aborígenes, antes de matar e escalpelar todos, os grandes e os pequenos nits que faziam piolhos. Um garoto de sessenta e cinco anos, vestido em uma camisola preta e amarela, tornou ser Capa da MAD Magazine, na edição de fevereiro do ano de 1987, enquanto passeava por uma favela comum a todas as cidades do mundo. Entre outras coisas, o Clock-hands veio anunciar que o mundo acabou e não há nada de glorioso nisso. Sem independência alguma. Só a morte — teria concluído o velho Ferraz, arriscando um meio sorriso para a minha Rolleiflex com olhos nos dedos, sempre pronta para disparar na altura da cintura e quebrar a pose das casas ocas dos quatro botões cruzados de um paletó familiar que caíram sem explicação alguma. Atiro cordas para que possam se enforcar e acham que é para se salvar. Eu, bem, eu tornei-me uma empacotadora de revistas de super-heróis de histórias em quadrinhos, o único rumo que me foi possível. Os pregadores de cartazes cômicos estavam certos. Dente por dente e todo mundo vai terminar banguelo.            

lídia martins