30.9.18

COM RIO E LAGOA

TODOS SORRIAM COMO SORRIEM OS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS QUANDO RECEBEM A VISITA DE UM INSPETOR E PERCEBEM QUE ELE NÃO LEVOU TUDO A MAL E ATÉ SE PERMITIU UM GRACEJO, E ESSE SORRISO VAI SE ESPALHANDO ATÉ MESMO  PARA AQUELES QUE NÃO OUVIRAM A PILHÉRIA E ATÉ O GUARDA LÁ NA FRENTE, QUE MINUTOS ANTES AMEAÇAVA OS PASSANTES COM O PUNHO CERRADO, ATÉ ELE SORRI, EMBORA ESSE SORRISO SE PAREÇA MAIS COM A CARETA QUE FAZEMOS QUANDO CHEIRAMOS UM POUCO DE RAPÉ E ESTAMOS PRESTES A ESPIRRAR. NOSSO HERÓI RESPONDIA A TODA ESSA ATENÇÃO COM MUITOS CUMPRIMENTOS E AS SENHORAS LOGO O CERCARAM DE ATENÇÕES. NICOLAI GOGOL, ALMAS MORTAS, 1842.


CÉU DE QUASE OUTUBRO, PORTO RUSSO DE VLADIVOSTOK, ILHA DO CHIFRE dourado, ano de 2018.

Pavel Karmanov - Heliocentrism from Galileo Galilei for Violin and 14 musicians

CARO SR. nICOLAI vasilievich GOGOL,
ESTA ESTÁTUA DE TRÊS CABEÇAS MAIS VIVA DO QUE NUNCA E PARA SEMPRE SUSPENSA ENTRE OS ARBUSTOS DO CEMITÉRIO DE NOVODEVICHY 


                                                   A tempestade que me levou ontem me devolveu na manhã de hoje. Sonhei que o mundo era um imenso par de olhos abertos. E que destes pares de olhos abriam-se centenas de milhares de outros. Certa vez minha mãe descreveu Deus como sendo um pássaro de dois grandes olhos serenamente pousado em nosso ombro. Veio-me a imagem dos teus, Sr. Nicolai, estranhamente fechados. Neste sonho, eu era atacada por um exército de olhos, mas sempre conseguia escapar fingindo que também era outro olho. Dei para andar pelo interior dos cemitérios russos e, desta vez, não é a procura de almas mortas. Estou estudando introdução à astrofísica com ênfase na fusão de corpos celestes em queda livre, em condições de gravidade extrema, a partir de pesquisas de culturas antigas, como a egípcia, grega, árabe, e outras, como fizeram Galilei, Copérnico, Kepler, Newton e Einstein. Como o Sr. pode ver,  não vim só. Tomei a liberdade de trazer comigo O Maestro Virtuose Pavel Karmanov e seus Quatorze Musicistas, e o pessoal já vai começar a tocar para o Senhor. Trouxe também Epiphanius Kosovo para atirar-lhe as babas ao pé da sepultura. Não é abril, mas com um pouco de boa vontade, hei de acordar os gigantes da minha adorada Rússia, já que os da minha terra natal estão todos à base de tarja preta, e por terem os descendentes de Cabrobó, com a ajuda do fantasma Gaspar, pilhado da carruagem até os cavalos nela atrelados, é provável que não despertem nunca. Não costumo realizar sessões mediúnicas para deliberações secretas, à portas de covas abertas, mas o assunto não pode esperar, é questão de vida ou morte, nesta última hipótese, tua especialidade. Olhando para este penteado assim, com este traje de galã de sessão da tarde e esta versátil gravata borboleta adornada por este sobretudo cinzento, o Sr. me parece bem. Reparando neste queixo em perfeita harmonia com a ponta do nariz ligeiramente achatada e estes olhos saltados das órbitas, também, assim, não me parece mal. No entanto, não estou aqui para discutir questões místicas, religiosas, patrióticas ou de moda, ainda que admita que elas tenham sempre andado juntas, embora separadas, e sim as distorções praticadas pelos intérpretes das coisas imateriais que, no mais das vezes, estão por aí apenas para confundir e, não raro, obrigam-me a reforçar a segurança das muralhas com estes tijolos de palavras. Dá só uma olhada em volta. O Sr. terá que colaborar, Sr. Nicolai, ou nossos planos de tomar banho de sol completamente nus na Ilha do Chifre Dourado irão à falência. Estou perdida de amor por um anjo de sorriso reptiliano, aliás, o Sr. e ele têm características muito parecidas. É prudente poupar os leitores de detalhes sórdidos, Sr. Nicolai, não queremos arruinar reputações à prova de bomba atômica. Pela quantidade de rugas e cabelos brancos ele deve ter perto dos que se recusam a contabilizar os anos. O sujeito está prescrito em meio a uma papelada de ofícios e daguerreótipos e ainda nem suspeita disso. Vamos, Sr. Nicolai, não faça chacotas. Lutar por um amor como ele pode nunca vir a ser é a única causa que realmente importa. Sei melhor do que ninguém que por mais frio que seja este coração, o Sr. também já amou e sabe como é desesperador. Uma pessoa normal convidaria sua caveira gêmea para ir ao bar póstumo mais próximo, mas preferi enviar-lhe uma carta-fantasma. Eis o lugar, onde nunca vou chegar a menos que pare de florear esta tragédia gótica. A carta foi parar na sepultura errada, Sr. Nicolai. O nome do defunto que a recebeu é Mr. Shirokorechenskoe, um gângster comerciante de línguas mortas que só podia ter saído da sua cabeça. Foi o Sr. o inventor de Magnum Opus, e por isso mesmo, a única esperança de me tirar desta enrascada. Ela não é tão simples como imagina, Sr. Nicolai. O fantasma de Mr. Shirokorechenskoe, ávido por notícias de sua falecida amante, violou a correspondência extraviada e ficou tão assombrado com o conteúdo que deixou este mundo, no qual, em verdade ele nunca esteve, mas é como se estivesse, o Sr. me entende. E agora não tenho a menor ideia de como recuperá-la, ela, a pronunciada carta sem palavras, meticulosamente fechada com aquela flor híbrida. Entre outras coisas, tentava, em vão, dialogar com outras sensibilidades para além dos recortes das diferenças, que é pra ver se encontro a saída deste apertado labirinto sem fauno. Este imperialismo hierarquizante dos apátridas do além-túmulo segrega, sufoca, mata. E é por isso que continuo estendendo as minhas mãos magras e apaixonadas para os opressores e oprimidos, em ambos os casos, dois porcos de espírito. As contradições deles são parecidas com as tuas que, por sua vez, também se parecem com as minhas, e acabam por ter um pouco a ver com as dos outros, e estas colisões secretas de consciências que nos obrigam a lógicas ilógicas podem, e muito, nos auxiliar em nossa tentativa de organizar o movimento ao invés da imobilidade das coisas. A carta era, na verdade, para a cova do Mr. Tikhvin, um curioso jurisconsulto na vida retrasada, ou, por assim dizer, antes desta que passou ainda agora. Sob o seu pesado porrete de pedra e batas tipo esta aí que tua estátua está usando, ele contornava a desconfiança pública recitando versos de Lorca. Aqui, nesta terra de ninguém, a cadeira da tortura continua presidindo o destino e se há uma certeza que carrego é a de que nenhum de nós escapou vivo. Olhe só para Sr., tão morto quanto eu ao pé deste arbusto azul. E por falar nisso, mande lembranças minhas ao Sr. seu pai. Este povo ruteno me enche de orgulho. O Sr., por exemplo, onde acha que estaria agora se não tivesse herdado um naco que fosse da coragem, bravura e força daquele praça que tão ferozmente resistiu ao domínio e depois à submissão aos imperadores daqueles tempos bárbaros? Graças aos seus dons de exploração, pistagem e serviços de reconhecimento é que tens este talento para escapar das emboscadas que a vida depois da morte nos prepara. Às vezes me ocorre pensar que a gente das terras altas é quem sabia das coisas. Voltando às terras baixas, Mr. Tikhvin é uma espécie de noviço que não faz qualquer esforço para livrar-se desta rebeldia que o atormenta e, além disso, contraiu Pinguinite, e encontrou seu prematuro fim enquanto mijava em uma falésia escarpada do Alasca, e acertou acidentalmente as cabeças de um casal de gentoos que ali fornicava. Efeito Iglú. Ele não é mais o mesmo desde que separou, implicitamente, aquelas caras-metades. Sabes o que é isto, Sr. Nicolai? Nome do inventor dos agouros por via das aves?! Estás no gozo de tuas faculdades? Outra tarde jogava paciência com um amigo médico, morto de tanta saúde, que revelou, entre outras coisas, ter perdido um paciente esquizofrênico para dentro de um hospital psiquiátrico, Birrenbach, que não existe mais. Não queira um fim semelhante. Cara-metade é uma impostora cuja tristeza e solidão é ainda mais profunda que a dela, e por esta razão, vagueia por um deserto de gelo, com uma capa gaulesa de capuz no alto da cabeça, na esperança de que alguém, reparando bem na esquimó, se reconheça. Seu ídolo é Ataman Popov, aquele guerreiro cossaco que não se adaptou a vida em sociedade e fugiu com o exército branco para as estepes de Salsk na esperança de que a ideia de justiça não fosse solúvel em éter. Sr. Nicolai é urgente que peça a Mr. Shirokorechenskoe para devolver a correspondência e, assim, permitir que ela possa ser enviada ao endereço de Mr. Tikhvin, esta nada sofisticada alegoria de relacionamentos entre espíritos que se dizem modernos. Disso depende a sobrevivência dos sentidos fosforizados da remente e também do destinatário, para que ambos voltem a atirar flechas nos outros do alto daquele pátio desbotado. Certos mal-entendidos precisam ser expressados e re-expressados aos irritados olhos de Horus. O defunto Mr. Tikhvin, por exemplo, embora nem desconfie disso, foi, além de jurisconsulto, ator, réu, culpado, cantor de rapper, soldado, cafetão, portuário, jornaleiro, inspetor, pedreiro, médico, vigia, sorveteiro, lavradorfarmacêutico, jornalista, encanador, padeiro, advogado, engenheiro, promotor, vendedor de loteria, filósofo, pescador, defensor, matemático, editor egotrip, palhaço, pintor, sem-teto, poeta, regador de plantas, presidente, ferreiro, aparador de grama, favelado, apostador de rinhas, viciado, garoto de aluguel, batedor de carteiras, traficante, estuprador, estuprado, assassino, assassinado, doente mental, mendigo, aleijado, leproso, cigano, índio, coveiro, desterrado. E também um influente astrônomo que revolucionou o método da glosa, excessivamente apegado ao geocentrismo das nebulosas e, em lugar dela, repropôs um exame crítico da fusão dos corpos celestes na órbita helicoidal vertical de um sol em formato de coração girando em torno de infinitos centros multigaláticos. Não sem antes admitir a perda de sua dimensão sapiencial, já que incontáveis outras forças ocultas invadiram o universo das formas para dar espaço ao conteúdo de escalas e perspectivas, e nisto, empenharam e ainda empenham-se, heliocentristicamente, as artes de todo o mundo. E antes de todos esses papéis dos quais cedo ou tarde vai acabar se despedindo, Mr. Tikhvin foi vítima e testemunha de um Deus-menino que não gosta de brincar sozinho. Reconheça, Sr. Nicolai, estamos fartos destas bulas de remédios com estas fórmulas sempre prontas para algemar sorrisos nos rostos sem rostos daqueles projetos de ano zero. Repare mais demoradamente naqueles reis com castelo e coroa endurecidos em ternos importados, jaquetas de couro, com pesados correntões de ouro e tatuagens, segurando nas mãos um charuto ou as chaves de um Mercedez. Mal sabem eles que não passam de zeladores, responsáveis pela estabilização da pressão das válvulas de descarga dos gabinetes sanitários de uso comunitário entupidos pelos anjos do gueto. Temos de recordar aqueles sacos de areia em conserva daquelas bengalas e tamancos de saltos arriscados, prestes a cair, pulando antes que a música pare sob a mais temível nota dos instrumentos de corda e sopro. Que tal nós, os dois, continuarmos contrabandeando criaturinhas em nossas caixas de ferramentas e sacos secretos? Ou Mr. Tikhvin  continuará multiplicando os vírus da pinguinite que estão matando, mas também morrendo, na tentativa de escapar da constatação de que buscamos coerência quando somos incoerentes por natureza.  Até lá, deixemos aquela papagaiada solta por trás de toda aquela fauna e flora pavoneada, que sempre provoca um rastro de pólvora, a ser apagado por estas bestas diariamente sacrificadas na mola salsa dos templos de Vesta espalhados planeta adentro e afora. Seu passatempo predileto continua sendo o abate de animais indefesos para o comércio de peles? Que olhos são estes, Sr. Nicolai, está se certificando de que está me vendo? O que te pareço? Não me diga que também se transformou em um grande olho aberto. Não podemos nos render à obviedade dos simulacros. A Oriente do Ocidente, tudo é engano, Sr. Nicolai, incluindo a tentativa de repor as carroças puxadas por mulas nos trilhos uma sensibilidade inocentemente perdida, que vez ou outra reaparece sob o balanço da roda raiada em que tenta se equilibrar o manco artista. Eu vinha pelo riacho de lama, quando o Sr. pendurou aquelas almas camponesas em seus ganchos de carne, depois de amordaçá-las e montá-las por uma, duas, três vezes com sua prosopopeia para éguas. E não satisfeito, usou os ossos como chifres de sela, pingentes de chapéu, colares de contas, expostas em público na cidade encoberta pela névoa, e de tal maneira me pergunto, quem é o selvagem? Uma rude fábula, Sr. Nicolai, não acha? Levanto cedo para semear. Tenho um ramo e sete pés de ferramentas coloridas, encimados por uma tábua sobre a qual pendem ganchos pintados. Dos primeiros grãos rebentam símbolos. Avisos dos tempos ocupados pelos cortadores e reparadores de estradas de ferro? Galhos vergados ao peso dos frutos, e eu sou a raiz de um tronco de árvore por morrer, vagamente salva, nos corações dos pássaros acabados de nascer. Ainda está lá, o porto, as luzes, o mar. O brigue-escuma Gangsta, que veleja como um relâmpago em todas as direções, assaltando todas as embarcações está de volta. As invisíveis garrafas atiradas ao mar inclinam-se para que nossas mãos lhes possam alcançar. A Almirante farrapo mete-lhe fogo, intimando seu capitão a render-se. Em resposta, ele atraca seu lanchão na outra margem e o abandona, depois do primeiro lançar chamas, e de tal maneira que, em não mais que uma hora, Gangsta se consumiu todo. Bata, pois, à tua cancela, o meu estrangulado riso. A mosca é esmagada só. Mas não os anjinhos nus, de minúsculos sexos e péssima pontaria, que a visitam do eterno. A libélula de olhos diabolicamente abertos torna pousar no anular de minha mão direita. A coruja branca, insidiosa, troça da minha pena. Crivo os meus olhos nos dela e ela reconsidera, apontando para a imagem acabada de surgir na parede descascada. Do interior das pétalas de uma flor asiática ressurge um pequeno reino em Vístula. Um catálogo de rostos de crianças familiares abre-se-me com seus lilases em chamas. Foi você quem nos salvou — de todas aquelas horas — sussurram-me. O riacho está descongelando junto a avelãzeira torta de castanhas do outro lado da tela em que estou sentada. Será a vida uma lembrança que nos chega? Perdoai Sr. Nicolai, pelo que vemos e pelo que deixámos de ver. Passei a vida pintando retratos de naturezas-mortas, forjando volteios de pássaros e céus que nunca existiram. Não havia nada por trás das porções respingadas e salpicadas de tinta, nada. Mesmo o que imaginava quando imaginava que imaginava. Só o claroscuro, dentro e fora das almas. Parnaso é uma construção erigida sob um monte invisível que, uma vez vista, desmorona. Quando é o dia? Quando é a hora? Sentei-me, como fizeram todos os Budas; encarregados de estourar a cúpula dos hidrômetros do outro lado da rua onde não passam carros, os telefones não cobrem as orelhas, e os homens não andam de um lado para outro se acotovelando nas nuvens. Esses aí, consertados, criminosamente, pelos vândalos da triunfante República da Calmúquia. Leio de ouvido. Poesia é música. Amor é virtuose. Só a poesia não basta. É preciso teu corpo dentro da alma. A chuva torna cair na velha cidade onde limpo os pés sujos de realidade. Sorrio dos pingos ensolarados que me fazem cócegas no rosto. Tenho os olhos tontos de aromas e cores. Gosto dos sons suaves que fazem a água.  Neles, é mais fácil esconder-se das lágrimas.
                                  lídia martins