8.6.18

MOVIMENTO DE INVERNO


FOSTE MINHA MORTE: 
pude deter-te, 
enquanto tudo me escapava. 
paul celan

Noite com sol sob a chuva que cai a cântaros. 
Fim do outono de 2018. 
Para M., que retornará 
com os peixes.


                                                                                                              
                                                                        Perdendo-me em si menor. Brahms e eu estamos no deserto, ao sul de Passo Norte. Acabamos de capturar um índio e neste exato instante, estamos obrigando-o a desenhar um mapa que nos leve ao caminho real de terra rio adentro. Estamos à procura de uma senhora com a testa enrugada que secava roupas em um cactus logo abaixo da ponte de Ojuelo. O vento está soprando e penso nas núpcias das flores, queda d'água numa cachoeira, brilho do sol sob as casas, estalo de galhos quebrados, campos desnudos, raízes de astragalus, atlas de caramujos, videiras entrelaçadas, cordeiros jovens correndo pelas montanhas rochosas, libélulas de nervuras vermelhas a voar ao lado e por cima das nossas cabeças. Seguimos na mesma direção dos insetos. Ou será dos peixes? A prosperidade destas aldeias ribeirinhas fascina-me até as variações do último movimento. Mergulho, afundo e cedo ao complexo novelo de sargaços embaraçando-se aos fios dos meus cabelos. Sou a semente de um pessegueiro perdida no infinito universo. 

lídia martins