1.6.18

DOIS PEIXES, UM NO GANCHO.


                                                         
Landhaus. Wingfield. Derbyshire.
Mein Vater und meine Mutter 
Bruder und Schwester
Mein Haus ist weiss. 
Nein, es ist gelb. 
Jemand? 
Niemand! 
Sie sind im Fenster. 
Ich bin an der Tür. 
Der Schlüssel ist unter dem Tisch. 


Correspondência para o conquistador recarregando a cartucheira daquela espingarda com a ponta torta,

e que a esta hora deve estar revirando o húmus de um qualquer gramado verde de Norfolk. Aposto uma bala de goma que pensou que eu não viria. Não deu para vir no aniversário. Perdi muitas coisas nesta vida, Sr. Coke, a começar por aquelas obras de valor incalculável da renascença e a terminar pela minha pontualidade inglesa. Hoje arrisquei as minhas primeiras lições estrangeiras e fiz um pequeno verso. Não tenho a quem dedicá-lo, Sr. Coke, se desejar, pode ficar com ele.  Esta pobre e rebelde filha pródiga, com uma lista de pecados inomináveis nas costas jamais poderá agradecer-lhe, Sr. Coke, por teres feito com que teus manuscritos sagrados chegassem a estas mãos calejadas. Encontrei-os em uma biblioteca britânica, enquanto pesquisava sobre o dilúvio, ou se preferir, o que sobrou de nós depois dele. Salve a Inglaterra por ti sonhada, Sr. Coke, ao menos nela, as liturgias de deuses mortos começaram a parecer um pouco mais honestas. Veja bem o que disseram os jornais de ontem, Sr. Coke. Cristo não morreu pela gente. Cristo morreu de peste. O mundo não vai acabar por causa das guerras, Sr. Coke, mas por problemas de interpretação de texto. Então é mesmo verdade que as audiências góticas dos tribunais de antigamente eram realizadas em praça pública, com todo mundo nu no pátio, esperando pelo veredicto final, doidos para saber se iam para o paraíso ou purgatório, de acordo com seus actos e com direito a anjos improvisando um Terzo Suono para abafar as vaias e aplausos conforme o resultado?  Francamente, Sr. Coke, como o Sr. pode ocultar da humanidade que Cristo era um exímio leitor de Warat e Derrida, que ele paquerava três meninas ao mesmo tempo e que a fé no conhaque São João da Barra com água morna era a única que ele possuía? Rerum Novarum, Sr. Coke, Rerum Novarum. Ser filha do arquiteto do Universo tem lá suas vantagens, ela pode tanto apertar o play quanto rebobinar os projetores de slides. Fiquei muda de espanto com a notícia de que o Messias dos empestados foi crucificado por ter encorajado os oprimidos a lutarem por mais educação, mais saúde, mais saneamento básico, mais desconstrução das convenções passadas e claro, por mais vinho eucarístico para o povo aos sábados e domingos e feriados. Quero parabenizá-lo pela escolha do teu ilustrador, Sr. Coke, ver o bom humor com o que o diabo está carregando o pessoal para o inferno em um carrinho de mão trouxe-me uma profunda nostalgia da terra natal. Aquele Cristo flagelado, quebrado e sangrando no pedestal só pode ser papai, mamãe e meus irmãos quando voltavam de suas incontáveis pescarias sem pegar um mísero lambari no rio Âmber. Sempre suspeitei que a Divina Comédia de Dante fosse uma paródia estúpida e sem qualquer capacidade infinitiva, mas não consegui reunir provas suficientes desta desconfiança ainda. De suspeita em suspeita se chega a uma incerteza, Sr. Coke, por isso minha religião continua sendo a dúvida. Que todos morremos afogados após o dilúvio eu já sabia, mas não é possível que Judas não tenha se arrependido nem um pouquinho de ter vendido Cristo por trinta peças de prata e não passe de um traidor sem fé alguma. Era outro desiludido, que nem meus avós quando saíam para caçar catetos do mato e arrancar a pele, o pé e a orelha para colocar no caldeirão de feijão preto e, de quebra, fazer almôndegas das sobras. Meus bisavós, Sr. Coke, com as mudas dos pés arrancadas da Alemanha contavam uma história de criança. Era uma história sobre eles terem partido para uma terra sem nome, que era tão nossa quanto deles, na esperança de serem outros em outro mundo. Eu não me recordo de muita coisa, Sr. Coke, não me recordo de quase nada, mas lembro-me de contarem que à certa hora não houve nada de novo do que viveram, que foram  acusados de fazerem mal para os outros quando eram incapazes de maltratarem uma mosca. Eu acredito mais neles que qualquer outra pessoa. Talvez pelo mesmo motivo dos anjos de farda que seguem isolando e sendo isolados, Sr. Coke, o sentimento de pertença. Quando foi que estes assuntos dos quais nunca falamos deixaram de ser tratados nos teus manuscritos, Sr. Coke? O Sr. deve ter tido poderosas razões para ter mantido estes documentos apócrifos no anonimato tanto tempo. Estou pensando em um peixe dourado e temperado com óleo sobre a têmpera. A propósito, Sr. Coke, estou na dúvida se é da queda do homem, da humanidade ou as duas coisas juntas que o Sr. fala.  Não se mova, Sr. Coke, permaneça em tua pose característica de esfinge egípcia para que a pintora faça o retrato de época. Devo ir além da iconografia típica do inconsciente, facilmente explicada pela rasa teoria da perversidade polimorfa de Freud, Sr. Coke? Tenho de retocar esta parte, afinal de contas, este retrato será visto por pessoas muito importantes. Imagine se for rejeitado pela crítica, será uma dupla humilhação, para o observador que recusou o vislumbre da emoção que havia na obra e, sobretudo, para a observada, que foi incapaz de rebocar uma alma penada com a espátula da palavra na paisagem desmoronada. Em 1931 Victor Brauner também esculpiu um autorretrato parecido, com um dos olhos pirateado das órbitas, profecia que encontrou  seu destinatário no próprio remetente, que perdeu o olho esquerdo em uma briga de bar em 1938, enquanto se embriagava pelas ruelas sem placas da velha Roma e sem companhia alguma. Acaso o Sr. precisou de um orientador para escrever estes manuscritos? Foi o que imaginei. Somos dois ambiciosos, Sr. Coke, admita. Estou pensando em uma nova religião, Sr. Coke, controlada por uma Deusa tirana, implacável, prestes a desembarcar em sua magnífica barca de gala, arrancando seus trajes e anéis de generala da nobreza inglesa e atirando sobre o oceano a sua nudez tão antiga, mas ao contrário do Sr., para mim o dia da Ascensão não chegou ainda. Há quem prefira acreditar que haja um eu, um tu e um nós, Sr. Coke. Este in dominus é um lembrete  de como o sublime  pode  ser rapidamente apagado por um olhar extraviado, derrubando da parede o rico colorido da tela que não capturou a cena. E por falar em tela, outro dia  arrematei duas pinturas famosas, são dois quadros da Coke Time. Delicious Refreshing, Sr. Coke, ano de 1899, garrafa ainda não redesenhada. A fábrica foi fechada e os donos desfizeram-se das obras pelo preço de um expresso. Luz e sombra, temos de virar a página, não da nossa conversa, Sr. Coke, mas desta bíblia sempre lá fora, pronta para nos seduzir, e no entanto, não estamos com disposição para cair sob o seu feitiço agora. É como naquela brincadeira de dança das cadeiras. A quantidade de assentos dos círculos invisíveis de destinos é infinitamente desproporcional ao número de participantes. Quando a música para, Sr. Coke, não ganha quem senta-se no último banco, mas quem nele continua sentado até fechar o século. Ao menos esta era, Sr. Coke, está a nossa altura. Eis o branco fio puxado para fora do crepúsculo, sob o latido de cães nervosos com os caracóis aventureiros que seguem pelos afrescos do riacho que flui do pântano, refazendo a ponte do balado entre as pedras calcárias, no ardido piso de fogo-fátuo com monólitos na entrada. O hierógrafo está próximo. Dentro da pedra portal sobre a qual repousa o ab-ovo, Sr. Coke, este obol de Charon que selou a boca de todos. E tudo pelo desejo de ganhar um único beijo. Onde? Surpreenda-me, Sr. Coke, surpreenda-me. Estamos evaporando, Sr. Coke, diluídos no mesmo respiro dos séculos. É um ritmo de rio, sob o qual flutuam casas puxadas por carros de bois ancestrais. Estamos todos a bordo. Precisamos seguir fluídos e fluindo para que possamos, talvez, quem sabe, retornar com as aves e os peixes carregados de eternidade, saltando de onda em onda, na confluência de todas as águas. Le Charme discret de la pensée créatrice. Continuo a escrever em francês, mas  a pensar em alemão, sonhar em polonês, delirar em sueco, amar em espanhol, viver em italiano, lutar em chinês, respirar em turco, esquecer em inglês,  sorrir em dinamarquês, chorar em africanês, dançar em norueguês, sentir em japonês, tocar em punjabi, cantar em hindi, surfar em bengali, morrer em russo, renascer em árabe, voar em pipanês, odiar em latim e a falar em grego, pois, o português mesmo eu acabei desaprendendo ao dar a volta pelos setenta vezes sete continentes do globo. Siamo tutti uguali, eroe Coke, e non è permesso fare del male ai bambini. O Sr. não falhou em algo que não podia imaginar, Sr. Coke, mas que não deveria ser imaginado, a saber, para si próprio. A tela está pronta. Acabo de salvar tua reputação arruinada pelo lápis-retrato em couro marroquino esmagado com ferramentas de ouro. É o próprio tratado da renascença! Bem, talvez eu tenha falado demais. E então, Sr. Coke, não vai dizer nada? Ouviram o barulho dos tiros? Gastei todo o meu chumbo e ainda não acertei uma perdiz que seja!

lídia martins

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