A porta daquela casa
suspensa entre os arbustos estava aberta, mas não se via ninguém nas janelas.
Olho as folhas amarelas a enfeitar a escada de cordas. Há um frêmito de vento a
balançar as copas da memória. Os bichos de pelúcia a mendigar o reflexo da
alegria atrás das vidraças, as bonecas de biscuit com as feições estranguladas,
os velhos carrinhos estacionados nas calçadas das tardes solitárias. Todos à
espera daquelas crianças que, sem qualquer explicação, os abandonara. Eram
indícios de que haviam crescido ou, talvez, diminuído. A realidade é que a
fantasia lhes havia saqueado o juízo. E, sem que percebessem, envelheciam atrás
dos muros que eles mesmos tinham erguido.
A agitação do coração, a sua tepidez de sol, o toque das mãos. E não
restou nada, a não ser o vácuo deixado pela culpa das coisas tardiamente
apreciadas. Cansada de correr atrás de fantasmas. O barco de papel procura seu
capitão, agora escondido no porão do navio. As palavras não ditas aportarão no
cais de teus lábios, mais dia menos dia. Há um ancoradouro invisível no
caminho. Consegue vê-lo marinheiro? Eu consigo. A menina e o menino que pensava
terem morrido estavam vivos. Passaram por mim ainda agora, correndo em direção
àquela cadeia de montanhas serrilhadas. A chuva tornou a cair lá fora, como um
véu de noiva imaginada. E, quando dos tombos de bicicleta levantar o primeiro
homem, aquele que vai gerar todos os outros, lembra-te do menino, esse que
conserva em si a magia de todos os sonhos. Agora desperte, coração dormente.
Lídia Martins
Um comentário:
Um poema clássico, onde a invenção da linguagem incorpora o romantismo perdido e se sintoniza com as fantasias distribuídas pela doçura. A coragem imaginada de gestos definitivos convivendo com o amor cultivado por situações limite. Dor superada pela poesia. Confissões de uma fada, humana até a última pétala.
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