6.23.2013

Paisagem de Inverno

 
 
 

É madrugada e cai geada em minha alma.
O olhar passeia, sonâmbulo, pelas folhas do papel em branco.  Como fossem soldados uniformizados, as palavras vigiam-me, guardiãs, de seus respectivos postos. Os dedos, trêmulos, tentam em vão desembrulhar a estranheza deste momento.
Acendo uma vela e observo o modo como as chamas dançam diante de meus olhos. O vento, brando, não faz qualquer menção de apagar o fogo. Enquanto espero, penso nessa coisa que chamam de tempo. A passos lentos, pela minha janela, entra o inverno. 
Sinto frio. Não por fora, mas por dentro. No peito, o coração ameaça estalar-se como rachadura de gelo. Não o impeço. Deixo que estes granizos de sentimentos se espalhem pelos olhos, pelo rosto, pelo corpo, até me cobrirem por completo.
 Aos poucos, reconcilio-me com este frio que me é irrecusavelmente íntimo. Enlaçamo-nos de nosso próprio vazio e, assim, nesta paisagem imensa e imóvel de inverno, nos fundimos. 
Sinta comigo, menino. O peso congelante deste silêncio que não tardará a nos atrofiar os movimentos. Sinta comigo, menino. A lonjura muda destas palavras que reduzirá a um ponto cego todos os instantes que vivemos. Sinta comigo, menino. A estranha sensação da saudade, da separação, do desespero, esse mesmo que agora nos enche  de sossego.
Agora adormeça. E não se esqueça de ajeitar as cobertas. O inverno chegará. O inverno sempre chega.
 
 
 
Lídia Martins



2 comentários:

Carla Dias disse...

O inverno chega, mas a poesia aquece. E foi isso que você fez... E adoro chegar aqui e ver esse amor invadir o coração, a alma e tudo mais que encontrar pelo caminho.

beijos!

Anônimo disse...

Me vejo nas sua palavras